• Modelo repetitivo
A Copa do Mundo de 2026 está a pleno vapor. Para mim, um apaixonado por futebol, nada melhor do que entrar no clima da competição através de um documentário que explica os motivos pelos quais os países campeões conquistaram suas taças. Eu comecei Campeões da Copa em abril de 2025. O primeiro episódio não me pegou totalmente, e decidi deixar pra ver o resto no ano seguinte. Eu queria ter gostado mais dessa série, que acabou virando mais uma obrigação do que diversão. Vou explicar o porquê.
Sinopse
Coragem uruguaia, determinação italiana, eficiência alemã, magia brasileira, tradição inglesa, garra argentina, organização francesa e reinvenção espanhola. Conheça a história de cada um dos países campeões da Copa do Mundo, entre 1930 e 2018.

Crítica
A ideia por trás de Campeões da Copa é muito boa, e foi precisamente o que chamou minha atenção e me deixou com vontade de assistir. Além de fã de futebol, eu sou jornalista esportivo, e é sempre bom explorar aspectos novos do maior campeonato do planeta. O primeiro episódio, centrado no Uruguai, até me deixou convencido de que a série cumpriria o seu propósito, apesar de não ter me fisgado logo de cara. Na época, eu pensava que talvez não estivesse tanto no clima de Copa ainda, a um ano da abertura, mas o problema não era esse.
O maior problema de Campeões da Copa é a repetitividade. O documentarista mexicano Fernando Kalife conseguiu reunir grandes personalidades do futebol, como Rivellino, Paolo Rossi, Xabi Alonso, Thuram, Klinsmann e vários outros, além de jornalistas, historiadores e pessoas comuns, com propriedade pra falar sobre a paixão pelo futebol no país em questão. Porém, a montagem é terrível, e a série teima em repetir as mesmas falas em episódios diferentes. Não sei se o roteiro planejou que a edição fosse desse jeito, mas as coisas ficaram cansativas.
Além disso, a série não mostra lances e gols com tanta frequência quanto deveria, e em vez disso aposta no uso de fotografias. Eu até dei uma colher de chá pra isso, pensando que talvez a FIFA não deixasse reproduzir tantas jogadas por causa de direitos autorais, mas a minha paciência diminuiu com o fato de que grande parte das fotografias tá em baixa qualidade. Em uma cena, estamos vendo um dos entrevistados em HD. Em seguida, a série corta pra uma fotografia em baixa resolução – e não tô falando de imagens antigas. Tô falando de fotos das Copas de 2006, 2010 e 2014.
Ah! Outra coisa que me irritou um pouquinho foi o uso exagerado de edições nas jogadas, como a bola se transformando em uma bola de fogo e um jogador virando um guerreiro na comemoração. Não acrescentou em nada, na verdade mais atrapalhou do que ajudou. Ver gols históricos com gifs no meio não foi a melhor escolha criativa, definitivamente.
E é aí que entra outro grande problema da série: a falta de foco. Já que o documentarista tinha tantos personagens interessantes, por que não abdicar dos lances e explorar melhor os próprios entrevistados? O que parecia ser uma série focada nas virtudes de cada país campeão da Copa do Mundo virou uma série que tenta repassar os torneios disputados por cada seleção. É óbvio que isso não daria certo, porque como seria possível resumir a história do Brasil em Copas em um episódio de 50 minutos? Pra se ter uma ideia, o episódio do Uruguai é maior do que o do Brasil, então não faz sentido algum.
Em suma, a série não sabe se quer falar da Copa do Mundo como um todo, do desempenho de cada país campeão ou de momentos específicos. E, pra piorar, volto a bater na tecla da repetição. Ao contar a história do jogo entre Argentina e Inglaterra pela Copa de 1966, por exemplo, vemos vários depoimentos de argentinos e ingleses no episódio da Inglaterra. Aí, quando chegamos ao capítulo da Argentina, os mesmos depoimentos são inseridos. Do nada, um episódio que era pra ser sobre tal país se transforma em um episódio sobre outro, que às vezes nem tem a ver com nada. Por exemplo, pra que gastar tempo falando sobre Brasil x Itália em um episódio da Alemanha?
Como quiseram seguir um caminho de um episódio pra cada seleção, tinham que ter limitado pra falar apenas dos anos em que elas foram campeãs, passando rapidamente pelo desempenho nas outras edições. No capítulo do Brasil, por exemplo, a série falou bastante de 1994, mas 2002 teve pouquíssimo conteúdo. Na França, o recorde de gols de Fontaine sequer é mencionado. No episódio da Alemanha, o vice-campeonato de 2002 é quase nulo de informações. Aliás, a série parece ter pouco interesse nas Copas deste século; sempre que aparecem, é de maneira corrida.

Veredito
Eu esperava mais, muito mais de Campeões da Copa. A ideia é promissora, os entrevistados são muito bons e, em vários momentos, a série consegue capturar a essência do futebol de cada país. Contudo, não sabe aproveitar essas qualidades ao máximo. A produção peca na contextualização histórica de diversos acontecimentos, político-sociais e futebolísticos, fica reciclando as mesmas entrevistas toda hora pra preencher o tempo e ainda coloca um episódio no final só pra encher linguiça. Um narrador em off talvez poderia ter ajudado a deixar o conjunto mais coeso, mas o problema mesmo é a montagem. Eu aprendi algumas coisas sobre a Copa do Mundo, é verdade. Porém, fiquei mais entediado do que engajado, e olha que futebol é uma das minhas coisas favoritas no mundo.

+ Melhor personagem: Lilian Thuram
Eu quase deixei esta categoria em branco, porque a série tem vários bons entrevistados, mas as falas são repetidas tantas vezes que eu fui pegando ranço de todo mundo. No entanto, a entrevista que mais me deixou interessado foi a do Thuram, pelo modo como ele articula e narra os acontecimentos da Copa de 1998.

+ Melhor episódio: E08 (“Espanha: A Metamorfose”)
Este é disparadamente o melhor episódio, porque a própria Espanha ajuda. Como é uma seleção que, por muito tempo, foi meio irrelevante em Copas do Mundo e só começou a competir pra valer neste século, a série tem menos terreno pra cobrir e acaba ficando mais focada. Foi, de longe, o capítulo em que eu mais aprendi coisas novas e foi o único em que eu não virei os meus olhos com as repetições de entrevistas.

FICHA TÉCNICA
Nome original: Becoming Champions
Duração: 9 episódios
Produção: México
Showrunner: Fernando Kalife C.
Direção: Fernando Kalife C.
Elenco principal: John Carlin, Diego Lugano, Paolo Rossi, Salvatore Schillaci, Jürgen Klinsmann, Berti Vogts, Roberto Rivellino, Jorge Valdano, Santiago Segurola, Lilian Thuram, Xabi Alonso, Juan Sasturian
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