Séries

Fringe: 3ª Temporada (2010/11)

• Dois mais dois

Na introdução do pitaco de hoje, gostaria de falar sobre algo diferente. Recentemente, enquanto eu assistia à terceira temporada de Fringe, descobri algumas coisas a respeito da série, mais especificamente sobre a atriz Jasika Nicole, que interpreta Astrid Farnsworth. Segundo a própria, diversos produtores foram preconceituosos com ela e se recusavam, por exemplo, a chamá-la pelo nome. Em um de seus tweets, Jasika até mencionou que o ator Joshua Jackson, que interpreta o Peter, tentou defendê-la ao usar um cartão de identificação com o nome dela em seu peito, para que os produtores prestassem atenção. Não funcionou. Além disso, Jasika mostrou-se incomodada com as piadas relacionadas ao nome de sua personagem, pois configurava um racismo velado por parte dos roteiristas. Ela não culpou o ator John Noble (Walter Bishop) por conta dos incidentes, até porque ele estava apenas seguindo falas. De qualquer forma, eu não tinha parado pra pensar nesse lado. Eu associei os erros de Walter a respeito do nome de Astrid como mais uma das várias atitudes aleatórias do cientista, nem parei pra pensar nas entrelinhas. Por esse motivo, desde que fiquei sabendo dos bastidores, não consegui mais rir com essas piadas reproduzidas em Fringe. Agora que concluí o que queria dizer, vamos ao pitaco.

 

Sinopse

Olivia Dunham está presa no universo paralelo. A Olivia Dunham do universo paralelo está no “nosso” universo, disfarçada como a Olivia Dunham “original”. A equipe do FBI no nosso universo não percebe que a Olivia é um lobo em pele de cordeiro, e Peter começa a se aproximar romanticamente dela, sem saber que não é a Olivia certa. Enquanto isso, a nossa Olivia está em um mundo no qual as Torres Gêmeas ainda estão de pé. Mantida como prisioneira pelo Walternativo, ela se recusa a colaborar, mas um tratamento forçado faz com que acredite ser a Olivia daquele universo. No início, tudo vai transcorrendo normalmente com a troca das Olivias, mas aos poucos a verdade vai sendo exposta, à medida em que as máscaras começam a cair.

A pizza chegou, senhora

Crítica

Os primeiros episódios da temporada são alucinantes e revoltantes. O formato de Fringe continua o mesmo em diversos aspectos: a trama principal nunca é totalmente interrompida, mas vai sendo narrada a conta-gotas em meio a acontecimentos bizarros do dia-a-dia, como uma mulher que não morre nunca e uma bailarina sem vida servindo como ventríloquo (uma das coisas mais bizarras que eu já vi na televisão). É como se, em um capítulo de 40 minutos, 30 fossem filler e 10 dessem sequência ao enredo central. A diferença na terceira temporada é que, a cada episódio, a história muda de universo. A cada episódio, somos transferidos para diferentes realidades, e isso dá uma dinâmica ao mesmo tempo enérgica e frustrante. É mais ou menos como um livro no qual a história muda de perspectiva a cada capítulo. Quando começamos a ficar empolgados com um arco, Fringe nos expulsa dele e transfere sua base para outra dimensão, apenas para fazer a mesma coisa ao final do episódio.
Apesar da frustração de a gente se engajar em um núcleo apenas para o foco ser alterado bruscamente de lugar, o roteiro sabe como conquistar a nossa atenção. Mas sabem qual é o maior mérito disso tudo? Anna Torv. Isso mesmo, a atriz que faz a Olivia. Se não fosse por sua tenacidade, a terceira temporada não teria funcionado. Na verdade, poderia ter sido um desastre. Em vez disso, Anna Torv consegue convencer o telespectador de que existem diferentes personalidades em um mesmo rosto, ao estilo de Tatiana Maslany em Orphan Black. Tem a Olivia do nosso universo, a Olivia do outro universo, a Olivia do nosso universo tentando ser a Olivia do outro universo, a Olivia do outro universo fingindo ser a Olivia do nosso universo… Anna Torv consegue capturar os nuances e faz com que a gente realmente acredite que são pessoas diferentes. Ela é o grande destaque da temporada.
Porém, a atuação da protagonista não é a única coisa que faz com que a terceira leva de Fringe seja boa. A troca de universos, a criatividade nos “casos da semana”, a complexidade dos personagens e a solidez da trama contribuem para um excelente resultado. Entretanto, isso ocorre até a página dois. Na segunda metade da temporada, a história perde ritmo. A alternância entre universos vira um tiro saindo pela culatra. O arco do nosso universo fica muito melhor do que o do universo paralelo, e, quando a troca acontece, acaba dando preguiça de ver a história radicalmente sendo mudada de lado. A troca dos universos só funcionava a partir do momento em que os dois núcleos estavam equilibrados. Assim que um ficou melhor do que o outro, a troca constante se transformou em um defeito.
Além disso, o roteiro perde força com a passagem do tempo. Fringe se envolve com tantos paradoxos que acaba se perdendo em alguns momentos. A solidez dos desdobramentos se torna frágil. Comecei a questionar várias ocorrências que não faziam muito sentido, ou verdades antigas que foram ignoradas. Quando uma série depende tanto de sua estrutura assim, pequenos deslizes ganham potencialidade bem maior do que em obras que não exigem tal qualidade. Basicamente, a série deu frequentemente passos maiores do que as próprias pernas.

O novo álbum dos Foo Fighters

Veredito

A terceira temporada de Fringe tinha o potencial de ser disparadamente a melhor da série até então. Ela introduz de vez os dois universos, estabelece novas interações entre os personagens, investe na originalidade de seus arcos secundários e conta com uma atuação incrível de Anna Torv. O problema é que sua força não se estende eternamente. Aos poucos, a estratégia de concentrar-se em um universo diferente a cada episódio desmorona, tornando a experiência um pouco irregular. O roteiro começa a apresentar alguns furos e incongruências, e a temporada perde qualidade perto de sua reta final. Fringe até consegue eventualmente se recuperar, mas não apaga o que tinha sido feito de errado anteriormente. Na soma dos fatores, a terceira temporada consegue se elevar levemente acima de suas antecessoras, mas poderia ter sido muito mais superior. Nota final: 4,2/5.

Broyles analisando algumas partes do roteiro

 

>> Crítica da 1ª Temporada de Fringe

>> Crítica da 2ª Temporada de Fringe

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Âmbar (Amber), Alerta (Alert), Brecha (Breach), Troca (Shift), Evento (Event), Decair (Decay), Escapar (Escape), Cruzar (Cross), Adaptar (Adapt), Une (Unites), Alternativo (Alter), Chocar (Hatch), Romad (procurei pelo significado e não entendi muito bem; aparentemente, é um acrônimo pra algo militar), Corações (Hearts), Mudança (Switch), Terra (Earth), Corroer (Erode), Destinado (Fated), Medos (Fears), Agente (Agent), Multi e Não Mais (No More). Mais uma vez, a lista de glifos da temporada pra vocês.
  • Uma breve recapitulação da temporada: Olivias passam a viver em universos trocados; o Newton metamorfo começa a matar uma galera com uma caixa supersônica, e um cara surdo consegue se salvar inicialmente (mas depois morre de qualquer jeito); um homem cheio de tiques com uma inteligência lógica maior do que todas as pessoas do mundo causa acidentes, mas a Olivia o engana porque não era a Olivia daquele universo; Newton se mata porque não tem mais razão pra existir; a nossa Olivia percebe que tá no universo errado e consegue atravessar pro outro brevemente; Astrid ajuda a galera a encontrar partes da Máquina, que será responsável por resolver todo o conflito dos universos; a nossa Olivia consegue avisar o Peter que a outra Olivia é uma farsa, por meio de uma moça aleatória trabalhando em uma loja de presentes; Peter confronta a Olivia do Mal, e o Broyles do outro universo ajuda a Olivia do Bem, morrendo no processo. Olivias trocam de lugar; Olivia do Bem confronta o Peter, em um episódio contendo uma bailarina Frankenstein; Doc Brown aparece sem o Marty McFly; Peter entra em contato com a Máquina; mais um cortexiphano aparece, desta vez um cara que sabe ler mentes; episódio 13 mostra o tanto que Olivia e Lincoln são meio burrinhos de entrar nos lugares sem reforços. Olivia Fake recebe um pedido de casamento do Frank, mas tá grávida do Peter; tem uma rachadura no nosso universo que quase causa um vórtex, e isso quase acontece também do outro lado; flashback com Olivia e Peter crianças; William Bell entra no corpo da Olivia e as leis da física estão desmoronando no universo; Olivia tem a gravidez acelerada e dá à luz ao filho do Peter, à mando do Walternativo; uma mulher que não morria morre, e o Lee do nosso lado aparece; geral na mente da Olivia, o Belly se despedindo de vez, tudo cartunizado e Peter e Broyles viajando; Walternativo ativa a máquina do outro lado. Peter tenta impedir desse lado, mas leva um choque danado; Peter entra na Máquina e é transferido pra 2026, onde o mundo tá uma porra; Olivia morre no futuro, Walter foi o culpado por uma treta gigante, Walternativo tá puto porque o universo dele foi destruído. No final das contas, Walter manda o Peter de volta pro passado em um paradoxo gigantesco e o Peter coloca os dois universos pra trabalharem juntos. Como recompensa, é apagado do universo. Fim.
  • Pelo amor de Deus, não é possível que ninguém percebeu que aquela não era a Olivia certa, principalmente o Peter. Tava muito na cara. A franja, o jeito mais descontraído, a maquiagem leve nos olhos, as roupas, o senso de humor, entre tantas outras coisas. Era só o Peter (ou qualquer outra pessoa) somar dois mais dois que conseguiria perceber. E odiei que a série fez parecer que a culpa era da nossa Olivia quando ela ficou com raiva do Peter. Ela tinha total razão naquilo. O Peter foi um cuzão sim, e não tem nada que alivie isso. Tudo bem a Olivia acabar o perdoando, mas ficou parecendo que ela tava reagindo exageradamente. Os dois têm uma química legal, embora óbvia, pena que a série acelerou isso desnecessariamente.
  • Podemos combinar que o Henry é sensacional, né? O cara ajudou as duas Olivias, auxiliou no trabalho de parto da Olivia Fake e ainda teve seu nome escolhido como homenagem no filho que trouxe ao mundo. Enquanto isso, o Lee se declarou pra Olivia do universo dele, mas não adiantou muita coisa.
  • Ah, e só pra deixar claro, o prêmio de Maior Evolução foi pro Lee do universo paralelo, e não o do nosso. Só falando pra não haver confusões.
  • Foi tenso perceber que o filho do tecladista favorito do Walter morreu por conta da decisão do Walter em trazer o Peter do outro universo. E mais impressionante ainda que a garota que estava em busca dos vagalumes naquela noite era a mesma que fora resgatada no futuro. Isso é que é efeito dominó.
  • Vamos lá a algumas coisas que me deixaram confuso no roteiro. Por que ninguém menciona que o Walter só foi pro outro universo buscar o Peter porque o Observador atrapalhou o Walternativo a descobrir a fórmula? No episódio em que o Peter começou a matar secretamente metamorfos específicos que estavam na lista da Olivia do Mal, como é que ele sabia os nomes dos metamorfos, sendo que somente a Olivia sabia decodificar as páginas de sua versão de outro universo? E mesmo considerando que foi a Máquina que o guiou, meio inútil já que nenhum metamorfo tinha uma informação importante. Sobre o episódio 14, com o vórtex causando problemas nos dois universos, isso quer dizer que tudo o que aconteceu lá tem relação com aqui? E por que demorou tanto até aqui apresentar sinais de perigo? A respeito do episódio com o flashback, a interação entre Olivia e Peter não fez sentido. Como eles não se lembram de nada? Ok que eles podem ter suprimido, mas rolou muita coisa e nenhum dos dois se lembra de nenhum fragmento, e olha que foi uma coisa marcante. Eu não gosto muito quando séries e filmes usam flashbacks pra estabelecer coisas que não disseram antes sobre o passado. Não entendi também se a Olivia queimando tudo foi o que aconteceu naquela filmagem icônica, com ela ajoelhada no canto e o William Bell presente na sala, ou se aquilo ocorreu antes. Pelo menos foi interessante ver que o Walternativo ter descoberto sobre outro universo foi porque a própria Olivia contou. Por fim, quem é que criou a Máquina? Para as coisas fazerem sentido, o Walter precisa ter criado a Máquina em 2026 para que pudesse enviar as peças para o passado. Caso contrário, a Máquina teria sido construída por… ninguém?
  • Descobrimos que Sam Weiss vem de uma família de vários Sam Weiss que acharam os manuscritos da Máquina no passado. Por essa eu não esperava.
  • A Anna Torv interpretando o William Bell no corpo da Olivia foi sensacional, principalmente a voz e o levantar de sobrancelhas. Só não gostei de algumas piadinhas dele com o Walter, como aquela em que sugere que a Astrid poderia “tirar o seu leite” caso transferisse sua mente para a Gene.
  • Quero até ver quais os desdobramentos do Peter sendo apagado do universo. Será que o mundo vai conseguir se adaptar? Ah, pra terminar: tô ficando com cada vez mais raiva dos Observadores. Eles pagam de isentões, mas toda hora interferem em alguma coisa. São praticamente iguais a todas as pessoas que se dizem isentas de algo no mundo real.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Olivia Dunham
Acho que era mais do que óbvio, depois de eu ter falado tão bem da atuação da Anna Torv durante a crítica. A pergunta que fica é: qual Olivia Dunham foi a melhor personagem, a Olivia do nosso universo ou a do outro universo? Bom, as duas foram os principais destaques, então tanto faz. Contudo, se for pra escolher uma das duas, seria a Olivia do nosso universo. Quanto ao Walter Bishop, o qual levou os dois primeiros prêmios da série, ele acabou perdendo um pouquinho de espaço a fim de que a Olivia brilhasse, algo natural. Peter, por sua vez, foi um verdadeiro pé no saco, mas não por ser um personagem ruim e sim por ser um personagem chatinho. Em relação aos outros – Broyles, Astrid, Nina, Charlie e Lee -, todos cumpriram bem os seus respectivos papéis.

Mais um dia normal no dentista

+ Melhor episódio: S03E19 (“LSD”)
O mais completo, na minha opinião. Teve a dose certa de humor, mistério, singularidade, ação e ainda foi essencial para o andamento da história principal.

Os cérebros por trás de tudo

+ Maior evolução: Lincoln Lee
Quando foi apresentado, fiquei pensando no que seria dele após todas aquelas queimaduras. No começo, não simpatizei muito pelo cara, mas aos poucos ele foi conquistando um importante espaço em Fringe.

Não achei uma foto boa dele sozinho, então vai essa mesmo

+ Mais subestimado: Henry Arliss Higgins
Eu não reclamaria se colocassem-no como um personagem regular da série. Com certeza, seria melhor do que o Peter muitos que fazem parte do elenco principal.

O motorista de táxi favorito da galera

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?