• Terror que incomoda
Opa, bão?!
Hoje vamos falar de um filme que muitos consideram inferior a Corra!, mas eu discordo completamente. Hoje, vamos mergulhar em Nós (Us), do Jordan Peele.
Depois de Corra!, Jordan Peele deixou todo mundo de olho no que ele faria a seguir. O filme foi indicado ao Oscar e entrou em várias listas de “melhores do século”.
Então, quando Nós foi anunciado, todo mundo já tava pronto pra ver como ele iria misturar terror psicológico e ficção científica de novo. E olha, Peele não decepcionou. Aqui, ele vai além do terror tradicional e nos traz um filme carregado de analogias, talvez até mais do que em Corra!.
Alguns até dizem que o filme escorregou pra fantasia, mas eu vou focar em um aspecto específico: o comentário que o filme faz sobre a indústria do cinema.
A premissa de Nós é simples: uma família vai passar férias num lugar onde a mãe, interpretada pela Lupita Nyong’o, sofreu um trauma quando criança. Peele usa o conceito de Döppelganger – aquelas versões sombrias de nós mesmos – de forma brilhante. Cada ator tem a chance de interpretar duas versões de seus personagens, e a direção do Peele dá a eles todas as ferramentas necessárias para isso.
Temos atuações incríveis, como as de Winston Duke e Elizabeth Moss, que protagonizam algumas cenas bem marcantes, especialmente a cópia da Elizabeth Moss se maquiando. E embora eu não seja muito fã das atuações das crianças, Shahadi Wright e Evan Alex ainda entregam o suficiente pra não tirar a gente do filme.
Agora, vamos falar da Lupita Nyong’o. Ela simplesmente domina esse filme. Ela interpreta duas personalidades totalmente opostas, e faz isso com uma maestria que eu raramente vi no cinema de Hollywood nos últimos anos.
De um lado, temos a versão “de cima”, que carrega traumas profundos e luta pra não voltar de onde veio. Do outro, temos a versão agressiva, traumatizada, que quer tomar a vida que a outra versão tem. Lupita brilha em ambos os papéis e nos faz sentir o peso dessas duas realidades.

O filme também me tocou de uma forma pessoal. Como uma pessoa parda, eu entendo o que é lutar pra chegar onde cheguei. A personagem da Lupita reflete essa luta, de nunca esquecer de onde veio e de enfrentar traumas do passado. Assim como ela, as artes – seja o cinema ou a música – me deram um espaço pra ser quem eu realmente sou.
Mas o que acontece quando esse espaço é limitado? Quando sua arte, seja um rap ou um filme de terror, é vista como “incômoda” ou “bizarra”? Peele toca nessa ferida em Nós e faz um comentário afiado sobre como o cinema de terror e horror, assim como a comédia, sempre foram subestimados pela indústria.
Jordan Peele, um comediante que virou diretor de terror, decidiu esticar a corda com Nós. Ele colocou mais sangue, mais tensão, e abraçou o gênero de terror de uma forma que muitos diretores têm medo de fazer. Ele brinca com as máscaras e a violência do slasher, sem perder a qualidade na escrita e na produção.
Só que, apesar de tudo isso, o filme foi esnobado em várias premiações. E aí vem a pergunta: por que a indústria acha que Corra! é infinitamente melhor que Nós? E mais importante, por que nós, como público, também achamos?
Nosso gosto é moldado pela indústria cultural americana, seja na música, no cinema, ou em qualquer outra forma de arte. É por isso que um rap “incomoda” e um filme de terror com mais sangue e menos drama não agrada tanto quem consome essas produções. Mas isso não significa que esses filmes não tenham valor.
Jordan Peele constrói uma reflexão em Nós que ressoa até hoje. O filme é um filmaço de terror que fala sobre a sociedade de várias formas, se a gente decidir olhar além da superfície.
Então, fica a dica: Nós é uma experiência completa. Se você curte terror e quer algo que faça você pensar, esse filme é pra você. E se você já assistiu, comenta aqui embaixo o que achou dessa discussão sobre a indústria e a nossa forma de consumir cultura.
Até a próxima!
Ricardo Gomes
O Sharkboy que se formou em Jornalismo e ama o cinema
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Este texto faz parte de um quadro de colaborações com outros redatores. O artigo não foi escrito pelo maravilhoso Luiz Felipe Mendes, dono do blog, e não necessariamente está alinhado às ideias dele.