Séries

Doctor Who: 9ª Temporada (2015)

• Anacronismo

Foi aqui que ele me conquistou. Aquele sorriso, aquele maldito sorriso. Aquele cabelo grisalho, voz estrondosa, inteligência exorbitante, um senso de humor irônico e diferente, uma experiência de vida fora do comum… ai, que homem. No primeiro momento e em sua temporada de estreia, Peter Capaldi não me conquistou. Agora, com um cabelo mais rebelde e uma personalidade mais forte, ao lado de um roteiro consideravelmente melhor, o Décimo Segundo Doutor mostrou a que veio e chegou ao patamar de ser o Doctor que eu mais gostei até o presente momento.
Anteriormente, havíamos sido apresentados a um protagonista bem diferente do que a gente tinha visto até então. Consideravelmente mais velho que os outros personagens principais da era nova de Doctor Who, Capaldi parecia não estar totalmente encaixado no papel, embora pra mim tenha sido mais culpa dos produtores do que próprio ator. O jeito que eles resolveram abordá-lo em seu segundo ano já começou da melhor maneira possível, algo tão próprio da série que não pude deixar de sorrir. Em uma de suas primeiras cenas, o Décimo Segundo aparece simplesmente tocando GUITARRA em cima de um TANQUE DE GUERRA na época dos VIKINGS, isso tudo usando ÓCULOS ESCUROS. E foi aí que, em uma fala da Missy, eu adquiri uma nova palavra no meu vocabulário: anacronismo. Pra quem não sabe, é algo que não está de acordo com a sua época. É como se em pleno século XXI ainda houvesse intolerância contra minorias, violência e guerras ao redor do globo. Não, pera.
De qualquer forma, a season premiere traz tantos elementos legais que eu pelo menos me surpreendi com o avanço que a série deu. Aliás, acho que é seguro dizer que todo mundo se surpreendeu. Uma característica comum em Doctor Who é a presença de episódios duplos, em que uma história não consegue ser contada inteiramente em um só capítulo. Isso sempre existiu, mas teve sua intensidade aumentada com o passar do tempo. Na nona temporada, isso é elevado a um novo patamar, mais ou menos no estilo da época do Matt Smith. Até mesmo nos episódios fillers, há quase sempre uma coisinha que vai acarretar em algo maior lá na frente. E, na mesma medida que os enredos dos capítulos duplos são bem construídos, os que são mais independentes também apresentam uma trama bem construída. Tudo isso é muito bem amarrado pelos belos personagens que se mostram presentes na temporada.
Este parágrafo reservei só pra falar do Doutor de Capaldi. Bom, eu já deixei claro que no começo ele não me conquistou, certo? Pois a partir daqui eu comecei a perceber que a interpretação do novo ator é tudo que o personagem deveria ser. É claro que não dá pra ser pretensioso a esse ponto, dizer como uma pessoa – ou um alienígena – deveria se comportar. Ainda assim, pensem comigo: o Doutor é um ser que viajou por praticamente todos os cantos do universo, conheceu milhões de indivíduos diferentes, sorriu, chorou, experimentou todo tipo de sensação possível, viu toda a sua raça morrer, perdeu tantos entes queridos, tá constantemente com um peso gigantesco nos ombros e vive com a maldição de nunca possuir um companheiro eterno. Com todos esses aspectos, ele não “deveria” ser mais casca grossa, um pouco mais sério ou algo do tipo? O Eccleston tinha um pouco disso, mas ainda assim era um pouco bobão. O Tennant talvez fosse o que mais tenha apresentado isso que eu mencionei, mas ao mesmo tempo que ele era soturno, no minuto seguinte ele tava pulando que nem um doido. O Matt não preciso nem falar nada, né? Já o Capaldi, ele faz brincadeiras sim, ele zoa sim, mas ele emana uma energia que dá pra perceber na hora que aquele lá é um sujeito quebrado pelo tempo e espaço. Porra, um ator conseguir demonstrar isso só com gestos e olhares foi um dos pontos mais positivos da temporada.
O nono ano do “New Who” dá um novo gás à série de ficção científica. Obviamente, comete alguns deslizes, com decisões criativas que poderiam ter sido mais interessantes, alguns potenciais desperdiçados. Porém, é provavelmente uma das melhores temporadas até aqui, e muito superior à anterior. Capaldi brilha e novos e velhos personagens cumprem bem suas partes, indo muitas vezes além disso. Clara destoa, pois ela simplesmente não combina com o novo Doutor. O desfecho foi bom, ainda que tenha faltado um pouquinho de coragem. Para completar, o especial de Natal marca a última etapa da saga de River Song, um dos mais icônicos rostos do mundo de Doctor Who, fechando com chave de ouro o resgate dos anos dourados dessa série incrível.

 

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~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Vamo fazer hoje uma análise episódio por episódio, começando pelo primeiro, pois sou um cara que segue as ordens. O que você faria se visse seu pior inimigo quando criança e tivesse que arcar com o dilema de matá-lo ou salvá-lo? Agora imagine se Davros fosse um bebê; seria pesado. De qualquer maneira, os dois primeiros episódios introduziram a temporada com estilo e poder, mostrando que o Capaldão™ não tá pra brincadeira.
  • Ah, confesso que curti a chave de fenda sônica ter sido substituída pelos óculos escuros. Trouxe um pouco de inovação.
  • Porra, achei legal demais terem colocado uma atriz surda no terceiro capítulo. Confesso que nunca tinha visto uma em séries de televisão, e foi muito interessante. Queria que aquela personagem aparecesse mais vezes, a Cass.
  • O monólogo sobre o Paradoxo de Bootstrap no começo do quarto capítulo é muito foda, vai tomar no cu. Quem compôs a 5ª Sinfonia de Beethoven?
  • Esperto terem usado a justificativa de que o Doutor usou aquele rosto de “The Fires of Pompeii” para lembrá-lo de que às vezes as regras do espaço-tempo podem ser quebradas. Muito esperto.
  • Ashildr já foi Arya, Ninguém, Eu, isso é que é uma pessoa com transtorno de personalidade e crise de identidade.
  • Ou, e aquele discurso do Doutor sobre guerras, na parte dos Zygon? Um dos melhores monólogos da série, disparado.
  • Sobre o polêmico episódio 9, aquele do “pó do sono” que fica nos olhos, confesso que eu achei ele bom. Quando descobri depois que ele foi criticado pra caralho, fiquei meio “ué”. Claro que ele não é uma obra prima, mas foi bastante bom.
  • A Clara ter morrido naquela trama do corvo teria sido um desfecho foda pra cacete, mas decidiram revivê-la, quebrando um pouco o impacto de todo o acontecido. Pelo menos fizeram com que o Doutor não se lembrasse dela, numa espécie de Donna inversa. Ele tocando a música-tema de sua companion no finalzinho cortou meu coração de um jeito.
  • Puta merda, conduzir um episódio inteiro sozinho não é pra qualquer um. E o que vocês acham de passar 7000 anos socando uma parede só pra escapar de uma prisão, morrendo repetidas vezes durante o processo?
  • O “The Husbands of River Song” eu já devo ter visto umas três vezes e nunca canso. Sério, é um dos episódios mais divertidos que eu já assisti, sem falar do final fofinho em que eles passam uma noite de 24 anos de duração juntos em um planeta distante <3

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

+ Melhor personagem: Décimo Segundo Doutor
Mais maduro e com Capaldi dando um show de interpretação, não tinha como a premiação ficar com outra pessoa.

Aquele que critica este homem boa pessoa não é

+ Melhor episódio: S09E11 (“Heaven Sent”)
Acho que é meio que um consenso geral que esse é o melhor, né? Ousado e arriscado, mas que deu incrivelmente certo, novamente com méritos gigantescos ao Capaldi.

Eu poderia facilmente emoldurar esta imagem no meu quarto

+ Maior surpresa: Ashildr
Uma personagem que começou como uma coadjuvante qualquer, mas que foi ganhando espaço e correspondeu. Boa adição ao universo da série.

O Norte se lembra, Walder GalliFrey

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?