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DCLelecoEspecial #01: Coringa (2019)

• Autópsia da loucura

No ano passado, surgiu o rumor de que seria lançado o selo “DC Dark” para filmes baseados nas HQs da empresa, mas desvinculados do Universo Estendido e com uma pegada mais sombria, adulta, sóbria. O longa que daria o pontapé inicial desta nova saga antológica seria Coringa, dirigido por Todd Phillips e capitaneado pelo ator Joaquin Phoenix. A ideia da DC Dark pareceu murchar e nunca mais vi nenhuma novidade sobre o assunto, mas espero sinceramente que o levem adiante. Com selo ou sem selo, é fato que a nova representação do maior vilão da história dos quadrinhos foi tocada em frente e bastante elogiada pela crítica especializada, chegando inclusive a vencer o Leão de Ouro em Veneza. E olha, não há como dizer que foi um prêmio injusto.

 

Sinopse

Arthur Fleck é um homem perturbado, que mora com a mãe e tem um distúrbio que o faz dar risadas incompatíveis com seus próprios sentimentos. Ele trabalha como palhaço em uma franquia de lojas e tem o sonho de se tornar um comediante de stand-up. Ridicularizado constantemente por seus colegas no emprego e pela sociedade em geral, Fleck vai se sentindo cada vez mais solitário e ignorado pelas altas castas da cidade fictícia de Gotham. Todo o seu sofrimento dá início a um processo de combustão interna que deteriora cada vez mais a sua mente, sobretudo quando seus atos são percebidos com tons de heroísmo por uma grande parte dos cidadãos.

Um homem gentil cuidando de sua mãe em condições frágeis de saúde

Crítica

Dentro do cinema, antes de começar o filme, perguntei pros meus irmãos, amigos e minha namorada se eles achavam que Joaquin Phoenix superaria Heath Ledger ou apareceria no mesmo nível. Jared Leto nem foi levado em questão. A maioria respondeu que a performance do ator seria ainda mais memorável, mas houve também a opinião de que não daria para compará-los. Com o filme terminado, me inclinei à segunda opinião.
O Coringa de Joaquin Phoenix não tem nada a ver com o de Heath Ledger. O antagonista de O Cavaleiro das Trevas era sarcástico, sádico, violento e com um claro objetivo em mente. O “Joker” de 2019 tem mais camadas e é um trabalho em progresso. Ele é essencialmente louco, sem um propósito específico de vida até o momento em que se sente aceito por uma parcela do povo. Heath Ledger não interpretou um Coringa em sua origem, o personagem já estava com os conceitos formados. Joaquin Phoenix nos mostra o porquê do vilão fazer o que faz, demonstrando uma perspectiva diferente no universo do Batman.
Em todas as histórias envolvendo Gotham, sempre enxergamos o mundo pelos olhos de Bruce Wayne ou de James Gordon. Porém, os problemas da cidade não surgiram de repente, ela não se tornou corrupta e decadente à toa. Coringa é perfeito em sua proposta de mostrar uma mesma “realidade” sob um diferente prisma. Os ricos estão pouco se fodendo para os mais pobres, e Thomas Wayne não é um santinho que queria deixar o mundo um lugar melhor para todos. O filme traz reflexões que nos fazem examinar o Batman de outra maneira. Na minha opinião, o herói está certo em punir os cruéis criminosos, mas não significa que não haja uma falha no solucionamento de problemas em sua cerne.
A obra independente da DC é um legítimo filmão. Ela deixa a trama se desenvolver em um ritmo lento, mas constante. O foco é apresentar a transição de Arthur Fleck para Coringa, algo jamais feito no cinema até então. Se o personagem já era incrível antes, agora é ainda mais instigante. Não quer dizer que o filme não apresente falhas, pois não engata a terceira marcha quando o enredo prepara o campo para tal, preferindo desacelerar e tomar mais tempo para explicar as coisas, causando um pouco de desnível. Ele também aposta em algumas cenas que poderiam ter sido deixadas de lado e que acabam tornando o produto um pouco “massudo”. Entretanto, ele não se torna tedioso em nenhum momento.

Se eu fosse o Coringa, não mexeria com esta mulher; ela possui a sorte ao seu lado

Veredito

Coringa é muito mais do que um filme sobre quadrinhos. É um drama intenso, com uma interpretação espetacular de Joaquin Phoenix. Pra mim, ele não é melhor do que Heath Ledger por um simples motivo: são personagens totalmente distintos. O vilão de Heath Ledger está para o sadismo da mesma forma que o de Joaquin Phoenix está para a loucura. A obra traduz muito bem isso em tela com uma montagem paranoica, não-linear e ilusória, uma trilha sonora mergulhada na insanidade e uma fotografia suja, colocando o espectador dentro da cabeça doentia de Arthur Fleck. Coringa é dúbio, ousado, consistente e melhor que todos os capítulos do Universo Estendido da DC até aqui.

De Niro jovem observa atentamente o De Niro sênior

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO O FILME. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Achei muito massa a ideia do Coringa ter o distúrbio do riso. Pra falar a verdade, pode ser que ele nem o tenha de fato, né? É tudo muito interpretativo neste filme!!!
  • Outro exemplo de dubiedade: a personagem da Zazie Beetz morreu ou não morreu? Depois que o Arthur Fleck faz o gesto do tiro na cabeça e ela se assusta, a cena seguinte é do cara rindo no sofá e o barulho de uma ambulância ao fundo. Pode ser pura coincidência ou ele pode ter matado a mulher por quem ficou obcecado. E não, eu não esperava pela reviravolta dela não ter interagido com ele da forma que havia sido exposto.
  • Vamo lá, mais um questionamento. A mãe do Joker era realmente louca originalmente, acabou se tornando ou sempre foi sã? Pra mim, ela realmente tinha problemas neurológicos que foram passados para o seu próprio filho, mas a ideia de que Thomas Wayne usou sua influência para contar uma história totalmente diferente não é tão difícil de acreditar. E o Coringa ser irmão do Batman é uma visão pra lá de interessante e explicaria o magnetismo existente entre os inimigos.
  • Já que mencionei a família Wayne, o filme fez algo que eu sempre quis ver. Toda obra referente ao Batman pinta o Thomas como um cara íntegro, que queria o bem da cidade e foi morto pela corrupção sistêmica existente em Gotham. Mas a gente sempre viu esta história sendo contada pelo ponto de vista do Bruce, uma prova de que nunca houve imparcialidade. E se Thomas Wayne no fundo fosse um cara cuzão, que não tava nem aí para os mais pobres? Pra falar a verdade, esta ideia faz muito mais sentido pra mim e só evidencia o quão foda é o universo do Batman.
  • Por falar em coisas fodas, a sequência dos primeiros assassinatos de Arthur Fleck é sensacional. Uma das melhores partes do filme é ele atirando naqueles dois e correndo atrás do terceiro.
  • Entretanto, a melhor cena é sem dúvidas o Coringa no programa do Murray. Eu sabia que ele ia fazer alguma coisa impactante, mas um discurso seguido de um tiro na cabeça de um apresentador ao vivo não estava nos meus planos.
  • Pessoalmente, eu não consigo gostar muito de personagens dançando aleatoriamente no cinema, não é algo que me pega. Na parte em que o Coringa mexe o esqueleto após ter matado a galera no trem, fiquei meio “ok”. Só que no fragmento final do longa, quando o protagonista dança em cima do capô de um carro com as pessoas a aclamá-lo, aí foi algo totalmente diferente.
  • O pessoal do cinema em que eu estava não parava de rir toda vez que o anão aparecia. Até quando o outro carinha foi assassinado na frente dele o povo ficou gargalhando só porque o cara era anão. Galera da sessão em que eu fui, vocês passaram da puberdade?
  • Acho que fui só eu que relatei isto até agora, mas senti uma pequena queda de ritmo no final do segundo ato. No momento em que Arthur Fleck recebe aquela ligação da secretária de seu programa favorito, achei que a trama poderia ter acelerado um pouquinho mais. Só que aí é preferência pessoal.
  • Imagina se a doutora que tava entrevistando o Coringa no final fosse uma tal de Harleen Quinzel ou um homem chamado Jonathan Crane?
  • Sei lá, achei meio desnecessária a morte dos Wayne da maneira que foi retratada. O diretor poderia ter feito o mascarado dizer “você recebe o que merece” e depois cortado, retornando depois com Bruce Wayne desolado com os pais aos seus pés. Acho que o impacto teria sido maior e não haveria a sensação de repetição.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Coringa
Nenhum antagonista jamais vai chegar aos pés deste carinha aqui. Lex Luthor, Thanos, Darkseid, todos são excelentes vilões, mas a ideia do Coringa sempre estará acima de todos. E Joaquin Phoenix esteve bem longe de decepcionar.

Apresentação de seminário.jpeg

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou do filme. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?