Séries, Super-Heróis

The Boys: 2ª Temporada (2020)

• Jornada do Herói

Existe uma estrutura narrativa pra lá de comum em histórias, principalmente de ficção. Trata-se da “jornada do herói”, um conceito no qual o protagonista é apresentado, chamado a participar de uma determinada aventura e fadado a lidar com diferentes percalços pelo caminho até chegar ao fundo do poço, apenas para dar a volta por cima e aplicar seu conhecimento adquirido para derrotar o vilão e sair triunfante. Tal estrutura está presente nas mais diversas abordagens, seja nos filmes da Disney ou em contos religiosos das mais variadas congregações. Como o próprio nome sugere, a estrutura é utilizada abundantemente em histórias de super-heróis. Se analisarmos o Universo Cinematográfico da Marvel, por exemplo, a jornada do herói está inserida em quase todos os capítulos. The Boys também tem como tópico principal um mundo no qual super-heróis existem. Porém, digamos que a jornada do herói usada aqui é, hm, digamos, um pouquinho diferente.

 

Sinopse

Sangue, mortes, pessoas explodindo, membros sendo quebrados e arrancados, assassinato em massa de inocentes. Esses são elementos que não costumamos ver em histórias de herói tradicionais, mas The Boys tá pouco se fodendo pra isso. Naquele universo, os “mocinhos” são alcoólatras, gananciosos, assediadores, cínicos e matadores profissionais. Os “vilões” são indivíduos comuns buscando justiça e vingança contra seres idolatrados pela maior parte do povo. Com uma subversão de valores no gênero, The Boys teve uma primeira temporada incrível. Em seu segundo ano, a série tenta ir além. A empresa Vought procura um substituto para a vaga do falecido Translúcido nos Sete, e uma heroína chamada Stormfront (ou Tempesta) é a principal opção. A empresa estuda também o que fazer com o Profundo e o Trem-Bala, já que ambos estão em declínio por motivos distintos. Enquanto isso, Billy Butcher é confrontado com a revelação de que sua esposa está viva e possui um filho com o Capitão Pátria, e os “The Boys” almejam se organizar para dar seguimento à exposição pública de quem realmente são os heróis.

Liga da Injustiça

Crítica

Os primeiros episódios da temporada de estreia de The Boys são alucinantes. A série não nos deixa respirar e coloca logo de cara uma mulher literalmente explodindo diante dos nossos olhos e cenas que não economizam na violência e no choque. Eu já esperava que a estratégia não fosse ser a mesma no início da segunda temporada, e estava certo. Em vez de engrenar uma narrativa acelerada, The Boys opta por cadenciar melhor o seu ritmo para construir a trama aos poucos. De fato, foi uma medida acertada. Não há como uma obra manter uma narrativa frenética eternamente, às vezes é preciso dar um passo pra trás, respirar fundo e continuar caminhando até que seja possível correr. Por isso, os primeiros episódios da segunda temporada são um pouco mais lentos, a fim de dar profundidade ao novo enredo.
Até aqui, sem problema algum. O problema surge apenas quando o ritmo cadenciado é aplicado em arcos desinteressantes. O núcleo do Profundo me fez imaginar que seria algo totalmente relacionado à sua redenção, e de certa forma é. Contudo, suas partes são tão arrastadas e me deram uma impressão de uma roda quadrada, não levando a lugar algum. Pode ser que o seu arco tenha alguma importância maior no futuro, mas, mesmo que seja o caso, não justifica a história ter sido meio fraquinha. Aliás, o Profundo não foi o único que se mostrou meio apagado nesta temporada. O Trem-Bala não disse a que veio, a Starlight e o Hughie começaram bem e perderam espaço, a mesma coisa com o Frenchie e a Kimiko. O Leitinho da Mamãe (Mother’s Milk) manteve o mesmo padrão, mas ganhou um ponto positivo pelos seus posicionamentos nos primeiros episódios.
Por outro lado, Homelander, Maeve, Black Noir, Billy Butcher e a recém-introduzida Stormfront foram os destaques. Na primeira temporada, o foco esteve muito no percurso de vingança dos “The Boys”, e a segunda escolheu voltar mais as suas atenções para a Vought. O Sr. Edgar ganha mais tempo de tela, e as questões políticas são mais trabalhadas. Na temporada anterior, a gente tinha um senso de controle por conta da Madelyn Stillwell, a qual conseguia deixar o Homelander um pouquinho mais na dele. Aqui, os heróis estão basicamente sem filtro algum, o que gera perspectivas instigantes.
No geral, achei a segunda temporada um pouquinho inferior à primeira. Entretanto, ela é bem mais equilibrada. Não há um desnível de qualidade muito grande entre os episódios, a história consegue manter o seu nível praticamente do começo ao fim. A série estabeleceu conexões mais próximas da nossa realidade, por meio de metáforas e comparações com imigrantes, por exemplo, o que foi um mérito. Além disso, o futuro conseguiu se mostrar mais sombrio do que antes.

Caramba, doutora, isso que você disse foi muito Profundo

Veredito

The Boys consegue amadurecer e entrega uma temporada com mais sangue, palavrões e violência. A série sabe bem quais são as suas principais qualidades e não hesita em colocá-las em prática. O elenco esbanja talento, as lutas são convincentes e o roteiro é majoritariamente bom. A segunda temporada opta por focar mais nos heróis desvirtuados e acaba deixando um pouco de lado outras figuras excelentes, o que acabou sendo o principal defeito. Embora não caia de qualidade entre os episódios, há uma ligeira queda no desenvolvimento de certos personagens. Em compensação, os que ganham espaço não decepcionam nem um pouco, e a série consegue conservar seus pontos positivos ao mesmo tempo em que adiciona mais potencial na trama. É uma temporada mais séria, visceral e próxima da nossa vivência, com um ritmo não tão acelerado, mas recheado de momentos impactantes. É uma sequência mais do que digna e que prepara o terreno para incontáveis arcos, nos deixando ansiosos pelo que vem no futuro. Nota final: 4,5/5.

Quente viu, quente vê

 

>> Crítica da 1ª Temporada de The Boys

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Aquela cena em que o Profundo se posiciona em cima da baleia e a galera a atravessa com uma lancha é demais. Claro, eu fiquei com dó da baleia, mas a expressão triunfante do Profundo vacilando foi hilária.
  • Já que estamos falando dele, que porra é aquela de Fresca? Tem algum significado? Todo o arco do Profundo foi muito sem sentido. Primeiro, ele ficou conversando com a própria barriga. Depois, teve aquele arqueiro que “traiu” a igreja e foi excomungado. No final das contas, o líder da igreja teve a cabeça explodida. Será que ainda vai ter algo sobre isso nas temporadas futuras, ou foi pura encheção de linguiça? A única coisa de útil que saiu daquilo foi o Trem-Bala pegando os arquivos e entregando pra Starlight e o Hughie, mas é muito pouco pra tanto tempo de tela.
  • Eu gelei quando vi a Stillwell ainda viva com o Homelander. Fiquei pensando em possíveis explicações até que ela se transformou no cara que se transforma em pessoas. E que coisa mais bizarra o Homelander olhando pra si mesmo de um jeito sexual. Freud ficaria louco.
  • O Butcher é chato pra caralho? Sim! Ele é uma das peças mais importantes da série, e sem ele a história não anda? Sim também! O cara faz merda demais e é muito cabeça dura, mas quando tava ausente nos primeiros episódios, a trama parecia estagnada. E o final compensou tudo, com ele servindo como uma espécie de guia pro Ryan, o filho de seu pior inimigo.
  • Aquela hora em que o Trem-Bala fala pra Starlight que só não valoriza o dinheiro quem nunca precisou ter, ou algo do tipo, foi o único momento da série em que eu senti empatia por ele. De resto, eu só consigo rir dos memes com “próxima parada: cardíaca”.
  • Espero sinceramente que o vídeo do Homelander matando todo mundo no avião ainda entre em pauta nas outras temporadas. Tomara que não seja um recurso esquecido, porque pode gerar muita coisa boa.
  • Não sei vocês, mas eu achei sensacional a fraqueza do Black Noir ser um alergia a nozes. Sério, tem coisa mais espetacular? O maníaco homicida ser derrotado por um chocolate. Perfeito.
  • Selo Pai do Ano: Homelander empurrando seu filho do telhado pra ele voar *—*
  • Todo o rolê dos heróis aprisionados naquele hospital foi incrível. O Leitinho sendo enforcado por um pênis gigantesco, o Facho de Luz salvando geral (é verdade que ele se queimou vivo um tempo depois, mas isso é detalhe) e a Cindy destroçando todo mundo. Inclusive, ansioso pra ver o que ela vai fazer no futuro…
  • Gostei da backstory do Frenchie, foi possivelmente o seu melhor momento da temporada. Saber que os netos da Mallory (aliás, gostei muito dela nesta temporada) foram mortos por acidente e que o Frenchie só não pôde salvá-los porque estava resgatando um amigo que eventualmente morreria de overdose foi foda de ver.
  • Stormfront matando o irmão da Kimiko me deixou embasbacado. Eu já sabia que ela seria terrível, mas o negócio foi só piorando. Acabou que a mulher era nazista e chegou a casar com o fundador da Vought! Ainda bem que não fizeram ela ser esposa do Hitler, isso seria muito clichê. De qualquer forma, vê-la apanhando da Starlight, Kimiko e Maeve foi uma das melhores coisas de The Boys até hoje. E não, eu não acho que a Stormfront tenha morrido, mesmo depois da Becca furar seu olho (literalmente) e Ryan transformá-la no Anakin Skywalker. A mulher é resiliente; ainda veremos mais dela, tenho certeza.
  • Que caralhos foi aquele da Victoria Neuman ser a explodidora de cabeças????? Sério, eu não esperava por aquilo nunca. Eu tinha pensado em milhões de possibilidades na minha mente, mas nenhuma delas envolvia a deputada, senadora ou sei lá. E o Hughie indo trabalhar pra ela… agora fodeu de vez.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Homelander (Capitão Pátria)
Precisei pensar muito neste prêmio, mas cheguei à conclusão de que não teria como entregar pra outra pessoa. A temporada teve vários destaques positivos, mas o Homelander me fez sentir pavor e incômodo a cada cena em que aparecia. É difícil construir um antagonista assim. Baita atuação do Anthony Starr, diga-se de passagem.

Translúcido jamais será esquecido

+ Melhor episódio: S02E08 (“What I Know”)
Os três últimos capítulos foram verdadeiramente explosivos, e eu curti pra caramba o sexto episódio. Pessoalmente, foi o meu favorito. Contudo, a season finale teve tantas cenas icônicas e um desfecho tão perfeito que precisei dar esta moral.

O superpoder dele: influência

+ Maior evolução: Maeve
A princípio, achei o núcleo dela meio chatinho, mas subitamente melhorou bastante e Maeve finalizou a temporada com a maior crescente entre todos os personagens. Vai, Mulher-Maravilha!

Nada como uma legítima patriota

+ Maior surpresa: Stormfront
Sarcástica, cruel e dissimulada. Acreditem, eu usei as palavras mais brandas pra descrever esta adorável moça. Se fosse usar os adjetivos mais adequados, eu precisaria censurar o texto. Se bem que é The Boys, então… foda-se.

Tempos de Pokémon GO com os amigos

+ Mais subestimado: Leitinho da Mamãe
O cara abriu mão da família pra ajudar um bando de brucutu a destruir uma ameaça enorme, e ainda precisou assumir a liderança moral em momentos específicos. Ele pode não ter brilhado intensamente nesta temporada, mas vale a menção.

O braço do cara é maior do que eu

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?

Publicado por Luiz Felipe Mendes

Fundador do blog Pitacos do Leleco e referência internacional no mundo do entretenimento (com alguns poucos exageros, é claro).