Séries

Skam: 3ª Temporada (2016)

• Armário claustrofóbico

Todo mundo que assiste séries as consome com alguma inclinação específica em mente. Por exemplo, se eu tô com vontade de descontrair e dar algumas risadas, não vou ligar a televisão e colocar Band of Brothers ou Westworld. No mesmo sentido, eu não vou me sentar no sofá e iniciar Friends ou The Office se estiver com vontade de ver alguma coisa densa, séria e recheada de nuances que me façam pensar por dias a fio no que foi exposto em tela. Tudo depende do clima. Não sei vocês, mas quando eu assisto a alguma série sem estar no clima para ela, a experiência fica muito mais pobre. Quando tô querendo ver temática de ação e vejo uma série de ação, me sinto realizado – e isso não se limita a séries, com filmes é a mesma coisa. Portanto, para maratonar Skam, você não pode estar esperando um produto que transmita o que a obra não vai ser capaz de transmitir. Em sua missão de tratar, ao mesmo tempo, da trajetória de adolescentes noruegueses com leveza e firmeza, Skam alcança seus objetivos com méritos. Isso não quer dizer, no entanto, que a série é à prova de falhas.

 

Sinopse

Nós conhecemos o Isak. É aquele garoto loirinho, amigo da Eva e do Jonas, que secretamente gosta de homens. Depois de duas temporadas focadas nas garotas do que gosto de chamar de “Clube das Cinco”, Skam decide seguir um outro caminho e volta suas atenções para um personagem até então coadjuvante. E não é só isso: a dinâmica de uma protagonista feminina é deixada de lado e a série opta por correr um risco ao aplicar luz em um personagem sem muita profundidade, inserido em um grupo de amigos homens composto por quatro membros em vez de cinco. Desse grupo, nós já estamos familiarizados com Jonas, mas o jovem não é mais o mesmo; o restante é novidade. Quanto a Isak, o foco está em sua jornada de autodescoberta da sua própria sexualidade, paralelamente tentando encontrar seu lugar no mundo.

A Culpa é das Estrelas (2014)

Crítica

A princípio, a mudança de tom causa estranhamento. Como assim, não acompanharíamos mais de perto as vidas de Eva, Noora, Vilde, Chris e Sana? No começo, acaba sendo um pouco frustrante que Skam tenha deixado de investir em personagens de tanto potencial para trabalhar os dramas de um coadjuvante que sequer era particularmente carismático. Por que alterar uma receita que havia dado tão certo? Apesar do estranhamento do início, não posso deixar de mencionar a coragem da produção em mudar uma estrutura bem-sucedida para arriscar algo novo.
A terceira temporada começa lenta. Isak e seus amigos não parecem muito simpáticos, ainda mais quando se tem o estigma do Jonas chato da primeira temporada. Como de praxe, o tema central do roteiro de Skam é um romance. Anteriormente, tivemos a dupla Eva & Jonas, que não terminou bem, e a parceria Noora & William, que terminou bem. Desta vez, temos o despontar de uma paixão entre Isak e Even, um garoto que nosso protagonista conhece em uma aula de teatro. Isak não compreende o que está sentindo, e a sua série de questionamentos sobre si mesmo rege o tom da história. Even, assim como Isak, também não é um personagem com o carisma como característica principal, o que faz com que o ritmo como um todo caia um pouco na monotonia. Por incrível que pareça, contudo, há uma química considerável entre os dois, o que torna a temporada mais interessante à medida que os episódios vão passando. O grupo de amigos do Isak, que no começo parecia tóxico e com personalidades meio tediosas, vai evoluindo no decorrer dos capítulos e eu acabei ganhando uma afeição grande por eles, ainda que prefira as tramas envolvendo o Clube das Cinco. As qualidades marcantes de Skam aparecem – a maneira com que a série consegue representar os medos, as alegrias, as inseguranças e as superações da juventude -, mas os seus defeitos também. Cenas longas demais sem necessidade, estiramento do enredo além da conta e ritmo lento podem ser um problema para o espectador. Bom, pelo menos pra mim, foi. O fato de o protagonista ser consideravelmente menos carismático que suas antecessoras intensifica a sensação de marasmo. Por outro lado, o romance de Isak e Even é bem mais instigante e saudável do que a relação entre Noora e William, a efeito de comparação. Além disso, personagens como Jonas e Eskild crescem bastante de produção e geram novas perspectivas dentro da obra.

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Veredito

Podemos dizer com tranquilidade que a terceira temporada de Skam é a mais sensível até aqui. A série não se esconde e aborda sexualidade, incerteza, pressão social, ansiedade, transtornos psicológicos, amizade e paixão. Nenhum dos campos citados fica incompleto, e Skam sabe bem como desenvolver todas as suas temáticas a fim de proporcionar lições e pontos de vista saudáveis para mostrar que a juventude não precisa ser necessariamente, a todo momento, tóxica. A obra inova em sua própria concepção ao entregar um protagonista com uma dinâmica totalmente diferente das anteriores, e consegue resgatar personagens que estavam devendo um pouco. Infelizmente, a temporada simplesmente não tem a mesma magia de antes. A tensão amorosa entre Isak e Even é bem apontada e trabalhada, mas eu não me vi emocionalmente engajado no processo tal qual ocorreu nas duas outras temporadas. Apesar de melhorar alguns fatores e trazer situações novas, culminando em um certo frescor, a série poderia ter incluído mais as garotas em vez de se afastar tanto das mesmas. É uma temporada que falta charme e carisma, mas, em compensação, entrega personalidade e coragem. Nota final: 3,0/5.

Saudades <3

 

>> Crítica da 1ª Temporada de Skam

>> Crítica da 2ª Temporada de Skam

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Eu jurava que, na verdade, o Isak era bissexual. Por um lado, eu gostaria que tivesse sido o caso, já que a bissexualidade é raramente tratada com afinco na televisão. Quando ela aparece, normalmente vem carregada de estereótipos. De qualquer forma, pelo menos trabalharam bem a questão da homossexualidade do Isak. Seus questionamentos acerca de como se sentia não surgiram com superficialidade. E ainda bem que deu tudo certo com o Even, apesar de todos os percalços.
  • Tadinhas da Natalie Portman Emma e da Sonja. Era até engraçado de ver as duas conversando enquanto secretamente seus respectivos namorados estavam apaixonados um pelo outro. Retrato da sociedade moderna!
  • Sobre Magnus e Mahdi, me surpreendi pra caramba. Eu jurava que os dois e o Jonas seriam cuzões, sobretudo quando descobrissem o segredo de Isak. Porém, ambos reagiram com naturalidade – o Magnus só queria mesmo era saber da Vilde (melhor casal) e o Mahdi só ficava naquele sorrisão dele (gostaria que o personagem tivesse tido mais espaço). O melhor deles, no entanto, foi o Jonas. Cara, a cena em que o Isak revela pra ele sobre sua homossexualidade foi a mais bem escrita da temporada, quiçá da série inteira. A maneira como o Jonas nem piscou quando o Isak afirmou que seu amor não era por uma garota foi incrível, como se ele já soubesse ou simplesmente não se importasse por quem o amigo se atraía. Além do mais, era sempre bem cômico quando o grupo de amigos se juntava pra falar sobre a orientação sexual do Isak, como quando o Magnus perguntou quem era o mais bonito e o Isak revelou ser o Jonas. Só ficou faltando o Isak dizer que tinha (supostamente) se apaixonado pelo amigo há um tempo, seria interessante ver a reação do Jonas.
  • Voltemos nossas atenções pro Even. Eu fiquei a temporada inteira sem saber se gostava dele, se o achava meio entediante, intrigante ou gente boa. Até hoje, não consigo decidir, mas não dá pra negar que ele formou um ótimo casal com o Isak. E deve ser barra demais ter transtorno bipolar no nível em que ele apresentou. Sair pelado no meio da noite pra comprar McDonald’s pode até parecer um roteiro de comédia em outras mãos, mas a série conseguiu mostrar muito bem que aquilo não era assunto para risadas. Ainda bem que o Isak foi compreensivo, depois do choque inicial.
  • Não vou mentir, fiquei bem triste quando foi revelado que a Noora havia viajado com o William pra Londres!!! Jurava que não fosse aparecer mais na série. Quando ela voltou pro apartamento mais legal da televisão norueguesa, fiquei bem feliz. Quando Noora falou sobre seu rompimento com o William, fiquei mais feliz ainda
  • O Eskild era o tipo de personagem que me gerava um pouco de incômodo antigamente. O mesmo aconteceu com a Sana na primeira temporada, em que eu a achava excessivamente autoritária e até um pouco grossa. No caso do Eskild, eu o achava extremamente folgado. Sim, eu tinha rido das suas investidas no filho do embaixador, mas também o julgava como “manso” demais. Nesta temporada, ele mostrou um lado mais humano, principalmente ao apoiar o Isak nos momentos difíceis. E ainda temos a Linn, que é possivelmente a personagem mais aleatória das séries. Seu jeito impassível e aparentemente descompromissado com tudo é muito divertido.
  • A Eva beijando a Vilde numa festa foi o momento mais inesperado da terceira temporada, fácil.
  • Tá aí um negócio que eu não esperava também: o despontar de uma amizade entre Isak e Sana. Se bem trabalhada, essa é uma relação que pode gerar muitos frutos na temporada final da série.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Isak Valtersen
Das três Melhores Personagens de Skam até agora, Isak é o mais fraquinho. Entretanto, nenhum outro teve profundidade o suficiente para tomar esse posto do protagonista, e o prêmio acabou caindo no colo dele. Pra não ser injusto, Isak possui seus méritos por ter sido o epicentro de discussões tão importantes, mas faltou sal. Even Bech Næsheim, o interesse romântico de Isak, também foi bem, mas culminou no mesmo problema de seu par.

A expressão de quem tá bem interessado no assunto

+ Melhor episódio: S03E06 (“Escobar season/Kan du ikke bare si det?)
É um capítulo bem significativo quanto ao desenvolvimento pessoal de Isak, trazendo um momento pra lá de bem realizado. Falei mais sobre isso nas Observações Spoilentas.

O Fifa destrói qualquer amizade de bem

+ Maior evolução: Eskild Tryggvasson
Não vou negar que eu o achava meio folgado na segunda temporada, mas ele melhorou muito. Demonstrou vulnerabilidade e roubou a cena em diversas ocasiões.

Rolês de hoje em dia

+ Mais subestimado: Jonas Noah Vasquez
Outro cara que eu achava um porre, mas evoluiu demais. Não vou soltar spoilers, somente dizer que ele participou da melhor cena da temporada e, possivelmente, da série até o momento.

Twenty One Pilots choram com este gorro

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?