Séries

A Maldição da Mansão Bly (2020)

• Perfeitamente esplêndido

O terror é um dos gêneros audiovisuais mais difíceis de se garantir originalidade. A partir do momento em que uma obra traz algo de novo, outras milhares decidem seguir a mesma fórmula. O Exorcista ditou o ritmo dos filmes de possessão. A Bruxa de Blair iniciou a utilização do recurso da câmera em primeira pessoa, simulando uma filmagem real. Invocação do Mal rejuvenesceu a dinâmica da eliminação de espíritos. Poucos títulos foram originais na história do gênero, e inúmeros outros basicamente copiaram uma base em comum e inseriram uma coisinha diferente aqui e ali, pra disfarçar. A Maldição da Residência Hill, por sua vez, conseguiu consolidar sua marca no exigente mundo do terror. Elogiadíssima pela crítica e pelo público, a série conseguiu unir elementos clássicos do gênero e construir um enredo sólido e cativante, abrindo portas para novas incursões no ramo. Com isso, a Netflix autorizou a sua sequência. Confesso que fiquei com medo, e não no bom sentido. Uma suposta segunda temporada poderia estragar o que tinha sido feito anteriormente, mas ainda bem que, embora uma boa parte do elenco fosse a mesma, o enredo seria totalmente diferente. E assim nasceu A Maldição da Mansão Bly.

 

Sinopse

Conheça Dani Clayton. Ela está em busca de um emprego, e se depara com uma boa oportunidade oferecida por Henry Wingrave. O rico advogado possui uma propriedade em Bly, e precisa de alguém que cuide de seus pequenos sobrinhos, Miles e Flora. A proposta, no entanto, já foi recusada por muitas pessoas antes de Dani. Apesar da pulga atrás da orelha, a jovem professora resolve embarcar na aventura e se mudar de Londres para a zona rural da Inglaterra, a fim de morar e trabalhar em uma grande mansão isolada. Chegando lá, ela conhece Miles, um garotinho sério e estranhamente formal, e Flora, uma garotinha simpática e alegre. E não para por aí: Dani também se depara com Hannah Grose, a governanta sempre impecavelmente vestida; Owen Shawarma Sharma, o cozinheiro gente boa; e Jamie, a reservada jardineira. Tudo parece relativamente perfeito, até que Dani passa a ser perseguida cada vez mais pelos fantasmas de seu passado e do passado de Bly.

Um lugar deveras convidativo

Crítica

É possível traçar diversas semelhanças e diferenças entre Residência Hill Mansão Bly. Comecemos pelas similaridades. Assim como sua antecessora, Mansão Bly apresenta seus personagens aos poucos. Os traumas não são prontamente revelados e cada um é tratado com uma certa superficialidade, para que nos concentremos mais no desenvolvimento do universo fictício do que no amadurecimento direto das pessoas. Depois de estabelecer esse reconhecimento, aí sim o roteiro volta seus olhos para o destrinchamento dos dilemas dos personagens, fazendo isso em pequenas doses. A ambientação é excelente, as atuações são fortes e a fotografia é condizente com o que o enredo deseja retratar, um reflexo de Residência Hill.
As diferenças também são notáveis. Mansão Bly fica quase o tempo inteiro dentro da propriedade, e a variedade de cenários é menor em comparação com Residência Hill. Isso faz com que a história pareça mais claustrofóbica, o que de certa forma é um acerto. Por outro lado, a trama acaba ficando mais enjoativa, mesmo quando os flashbacks quebram um pouco a insistência com o principal cenário. O menor nível de inspiração criativa destinada aos personagens também favorece a queda de qualidade na experiência, porque alguns arcos são simplesmente… chatos. Henry Wingrave não diz a que veio, com um núcleo de arrependimento atrelado ao alcoolismo que eu pessoalmente já vi centenas de outras vezes. As partes envolvendo Rebecca Jessel e Peter Quint não convencem, e a série aplica muito tempo de tela desnecessário, o qual poderia ter sido melhor utilizado. Contudo, a protagonista Dani Clayton consegue guiar bem a sensação de impotência e pavor provocada pelos acontecimentos, Owen é um relevante bastião de otimismo, as duas crianças Wingrave roubam a cena na maioria das vezes e Hannah Grose brilha sem precisar dizer muito. Ainda que a temporada tenha destinado muito tempo em arcos desinteressantes, pelo menos compensou ao entregar personagens marcantes.
As reviravoltas são boas, mesmo aquelas um pouco previsíveis. A maratona vale a pena, porque dá uma genuína vontade de saber o que vai acontecer, e cada episódio pode ser devorado como os capítulos de um bom livro. O desfecho é incrível e totalmente diferente de Residência Hill. Para alguns, isso pode ter sido uma distinção agradável. Para outros, nem tanto.

A primeira selfie da História

Veredito

Vou falar logo, sem rodeios: A Maldição da Mansão Bly é inferior à Residência Hill. Mas calma lá, porque isso não é necessariamente um problema. Os padrões eram muito altos, e só de ter chegado perto já é um excelente cartão de visitas para Bly Manor, até por ter precisado lidar com a sombra gigantesca de uma obra aclamada. As interpretações são boas, a ambientação escura e cinza é imersiva e o tom da história é sombrio e, ao mesmo tempo, esperançoso. Mansão Bly herda alguns defeitos de sua progenitora, como uma narrativa desalinhada que perde fôlego na metade e se recupera no fim, além de apresentar personagens menos memoráveis no geral. Entretanto, a série consegue capturar qualidades importantes e manter o espectador em frente à tela por horas a fio. Na lista dos prós, temos também uma tentativa constante de não se prender demasiadamente a outros títulos do gênero, o que é quase sempre um mérito. Em resumo, A Maldição da Mansão Bly é filosófica, romântica, intrigante e desnivelada, uma continuação mais do que digna para seus companheiros de outra residência. Nota final: 4,4/5.

Uma jardineira usando jardineira

 

>> Crítica de A Maldição da Residência Hill

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Caaaara, a parte da Hannah. Ok, foi bem previsível ela na verdade ter estado morta o tempo todo, mas eu nunca tinha visto uma trama ser direcionada daquele jeito. A cada lapso de tempo e memória que Hannah tinha, principalmente no quinto episódio, eu ficava mais interessado e confuso. E pensa no trauma do menino Miles? Empurrou a governanta no poço sem estar em posse de suas plenas faculdades físicas e mentais. Pelo menos as crianças meio que se esqueceram de quase todo o período em Bly, posteriormente.
  • Por falar em Miles, não vou mentir: o seu personagem não era nada carismático. Porém, nem todo personagem precisa ser, até porque ele estava incorporando um adulto problemático. Agora, não há como negar que o ator Benjamin Evan Ainsworth arrasou no papel, né. Antes mesmo de ser confirmado que ele estava possuído pelo Peter, dava pra perceber que ali não habitava uma criança. Seus cortejos com a Dani, seus impulsos e reações, dava pra sentir que ele era um adulto. Mérito da interpretação de Benjamin.
  • Enquanto Miles precisou ser um personagem mais soturno, Amelie Bea Smith brilhou na pele de Flora Wingrave. A menina atuou com tanta naturalidade que, se investir na carreira, pode ter um futuro incrível. Cada expressão facial que ela ostentava, sobretudo quando aparecia A Dama do Lago, chegava a causar arrepios. Ainda bem que não aconteceu nada fatal com Flora, e ela ainda conseguiu ter uma vida aparentemente feliz.
  • Vamos lá pro casal da Mansão Bly. Logo nos primeiros encontros entre Dani e Jamie, deu pra perceber que tinha uma certa tensão sexual ali. Contudo, preciso ser sincero: eu não me importei muito com o romance das duas até o último episódio, quando foi mostrada a vida delas no período pós-Bly. Enquanto estavam na mansão, eu queria mais era saber da Dama do Lago, dos fantasmas e espíritos, de todos os desdobramentos. De qualquer forma, foi muito fofinho o amadurecimento do relacionamento das damas da noite.
  • Tadinho do Owen. Acho que, se utilizássemos aquela escala comum em personagens de RPG, o cozinheiro seria “lawful good”. O cara cuidou da mãe até o último suspiro dela (e deu o azar de não presenciá-lo), apaixonou-se intensamente por Hannah e precisou arcar com o baque de também perdê-la. Tomara que ele tenha conseguido superar tudo isso.
  • Vamos falar de coisa chata agora. E aquele arco da Rebecca e do Peter, hein? Pra não ser injusto, achei que foi muito bem feita a degradação dos dois como casal, e como Rebecca estava claramente em um relacionamento abusivo. O problema é que a história se estendeu demais entre eles; o sétimo capítulo foi um porre. Já dava pra saber onde a trama chegaria, que o Peter contaria pra ela sobre a sua morte, e que eventualmente daria um jeito de ela também morrer pra se juntar a ele. Isso me fez lembrar que o conceito de “quem morre em um lugar, fica pra sempre naquele lugar” no terror necessita de uma renovação.
  • Continuando nas coisas não tão empolgantes assim, não consegui ficar preso no núcleo do Henry Wingrave. Aquela parada do demônio sorridente, de como ele se arrependeu de tudo que acontecera e seus surtos no escritório… um pouco batido. A parte de destaque foi ele tendo um caso com Charlotte Wingrave, a esposa de seu próprio irmão, Dominic, e Flora sendo sua filha ilegítima. Isso, pra mim, foi surpreendente.
  • A respeito de Viola Willoughby, sua história foi bem forte. O roteiro poderia ter cortado uns dez minutos do episódio, no entanto. O ritmo lento não costuma me entediar em obras audiovisuais, como eu já salientei várias vezes aqui no site, mas o penúltimo capítulo de Mansão Bly foi um pouco maçante e quebrou um pouco a narrativa acelerada, que se encaminhava para seu final. Ainda assim, foi ótimo ver a origem da Dama do Lago, a explicação por trás do bicho estranho no sótão (e aliás, que cena fodástica aquela da Flora mandando o espírito calar a boca!), o médico da peste negra e as demais aparições.
  • Dani foi uma verdadeira heroína, dando literalmente a sua vida pra salvar o restante do pessoal de Bly. Se não fosse por ela, Flora teria sido levada pra dentro do lago e o horror da mansão teria continuado por anos e anos. Dani quebrou o ciclo e ainda ofereceu sua própria existência pra destruir um passado persistente.
  • Avançando a história pro presente, foi agridoce ver a Jamie velha contando tudo o que acontecera pra Flora e seu novo marido, o Miles crescido e o Owen e o Henry com aparências cansadas… só acho que a série não precisava ter deixado tão explícita a identidade de cada um deles com aquela montagem, já tava na cara.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Hannah Grose
Entre os destaques positivos, podemos citar Flora, Dani, Jamie, Miles e Owen, possivelmente nesta ordem. Acima dos cinco, está a misteriosa governanta que me fez ficar mais interessado em seu arco do que na trama principal em si.

‘Cause it’s the beeest of both worlds

+ Melhor episódio: E05 (“The Altar of the Dead”)
Enigmático, chocante, triste e empolgante. Um contraste imenso com o sétimo episódio, o mais fraco da temporada.

Não faltou tempero

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?