Séries

Maid (2021)

maid

• Agressões invisíveis

Minissérie é um negócio que deveria ser mais valorizado. Hoje em dia, o mercado do entretenimento tem uma mania chata de achar que tudo precisa ter sequência. Um filme precisa se transformar em uma franquia. Uma temporada precisa se transformar em cinco. É claro que isso é reflexo de quem consome, porque são as pessoas que costumam pedir mais. Ainda assim, não deixa de ser um bagulho enjoado. Eu, pessoalmente, gosto de histórias que possuem começo, meio e fim. Pra ser justo, não tem problema uma série ter oito temporadas, contanto que isso tenha sido planejado desde o início. Por outro lado, é bem refrescante ver uma trama ser concluída em dez episódios. E esse é o caso de Maid, da Netflix.

 

Sinopse

Alex vive com o seu namorado, Sean, e a filha de ambos, Maddie. Certo dia, ou noite, pra ser mais preciso, Alex decide fugir de casa com Maddie. O motivo? Ela não aguentava mais morar com um agressor. Embora o seu corpo não tivesse ferimentos, a sua mente era constantemente machucada pelos ataques de fúria e ameaças de Sean. Depois do surto do namorado ter respingado na filha, Alex resolve partir para a cidade grande em busca de refúgio. Na intenção de sustentar Maddie, a sua mãe consegue um trabalho miserável de faxineira. Contudo, as coisas viram de cabeça pra baixo principalmente após a inserção de Paula, a problemática mãe da protagonista.

Quem vê pensa que a convivência é bacana

Crítica

Se você não gosta de se envolver emocionalmente com obras de ficção, Maid não é uma boa pedida. Agora, se por acaso você não tem problemas em se entregar de corpo e alma a algo, digamos que a série vai te contemplar bem. Com um alto tom de sensibilidade, a história não possui imensas reviravoltas, sequências que ficam na cabeça ou algo do tipo. Por outro lado, o enredo é bastante real e, portanto, agonizante.

No começo pode não parecer, mas depois de um tempo eu percebi que estava muito envolvido com as personagens, realmente me importando com o que iria acontecer. A cada obstáculo que aparecia, eu me sentia mais desconfortável, ansioso e instigado, e em vários momentos me peguei pensando que não era possível tanto sofrimento daquele jeito. Logo isso foi descartado quando me lembrei de que é uma trama baseada em fatos. Além disso, a história deixa bem claro que a protagonista não tinha muitas escolhas, o que me fez refletir constantemente sobre o quanto o mundo é injusto e as oportunidades são desiguais.

Deixando um pouco de lado a filosofia e focando mais na parte prática, Maid é um ótimo exercício social. O seu principal recado é mostrar que abusos não são apenas aqueles que podem ser vistos, mas também os que são sentidos. Uma agressão psicológica pode ser tão ruim quanto uma física. Apesar disso, a série acerta em não comparar as duas coisas. Na visão do roteiro, agressão é agressão, não existe uma maior ou menor. O que existe é a maneira como ela impacta a vida de alguém, e a própria motivação de Alex é uma prova disso.

A experiência de assistir Maid não é o que eu chamaria de algo fácil, mas compensa. As interpretações são muito boas, fazendo com que nos conectemos com os personagens de maneiras diferentes. A trama é intimista, pincelando acontecimentos diversos, mas o enfoque nunca se distancia demasiadamente do modo com que Alex lida com os seus problemas gerais. E eles são muitos. Em dado momento, é possível se sentir sufocado com tantos caminhos barrados, e assim a sensação amargada pela protagonista é transmitida para o espectador.

Mesmo contando com elementos tão pesados, a série surpreendentemente não é deprimente. Há aqui um certo senso de humor irônico, pontuado por momentos de breves alegrias e compensações. A fotografia é bela e a trilha sonora completa o pacote. Não pude deixar de sentir uma vibe meio Life is Strange, com personagens viajando por estradas indefinidas enquanto suas vidas são lentamente emaranhadas. Ok, talvez essa tenha sido uma descrição meio vaga, mas quem jogou os jogos entende.

Contudo, apesar de ser uma excelente obra, Maid também apresenta as suas ressalvas. Em primeiro lugar, a minissérie se afasta um pouco de sua proposta original de desenvolver a vivência nômade de Alex com Maddie. Com isso, Paula começa a ficar cada vez mais presente ao longo dos episódios, e o seu núcleo acabou ficando um pouco desgastante pra mim, e não no bom sentido. Talvez se o seu arco tivesse sido um pouco reduzido, dando mais espaço para os conflitos envolvendo os perrengues pessoais de Alex, o resultado teria ficado um pouco melhor. Além disso, não é um produto fácil de consumir, e fica bem claro que nada será resolvido antes do último capítulo, tornando alguns desdobramentos um pouco… vazios.

Curiosidade divertida pra vocês: essas duas atrizes são mãe e filha na vida real

Veredito

Maid é um dos grandes lançamentos deste ano que está próximo do fim. Com uma história desesperadora e hipnotizante, a minissérie narra bem os seus acontecimentos e nos convida frequentemente a participar da vida de uma personagem que se agiganta cada vez mais à medida que os capítulos se sucedem. É uma obra bonita visualmente, com um clima único de intimidade, conseguindo misturar bem tragédia e felicidade simples. Possui alguns percalços técnicos pelo caminho, alguns núcleos piores do que outros e uma cadência que eventualmente se torna previsível, mas vale demais o tempo investido. Nota final: 4,7/5.

Eu sempre tive medo de cair pra trás quando era criança, não nego

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Ok, começando essas Observações Spoilentas ao som de “Shoop”, do Salt-N-Pepa. Pra entrar no clima, a gente às vezes precisa recorrer à música. E, antes de começar a falar das coisas ruins, fiquei feliz demais que Alex e Maddie conseguiram viver uma vida normal no final, com ela indo pra faculdade. Beleza, agora vamos pra parte ruim.
  • É bizarro pensar na questão do Sean. Eu, assistindo como alguém de fora da história, por vezes me peguei pensando “nossa, mas ele parece mudado”. Logo depois, vinha a noção de que é exatamente assim que esse tipo de pessoa age. Isso é sociopatia, não tem outra palavra. Ver a sua falta de perspectiva, seu alcoolismo e sua agressividade me deram uma melancolia absurda. Ainda bem que, pelo menos, ele abriu mão da filha no final.
  • Certo, vamos falar sobre o Nate. Sim, de fato ele não tinha a obrigação de abrigar a Alex na sua casa, e o que fez foi um ato de bondade. Mas será que foi mesmo? Assim que a Alex confessou que tinha ficado mais uma vez com o Sean, a bondade acabou e ficou bem claro o tipo de pessoa que Nate era. Aquele cara fofinho, que faz de tudo para agradar, mas que só faz isso pra alcançar um objetivo entre as pernas de seu alvo. Por outro lado, foi realmente um tapa na cara quando ele descobriu sobre Alex e Sean. Então, digamos que dá pra entender os dois aspectos da situação.
  • Podemos conversar sobre a importância da Denise? Dedicar a sua vida a abrigar incontáveis mulheres sofrendo com diferentes tipos de abuso deve ser cansativo pra caramba. Ainda assim, ela o faz com todo amor e com certeza ajudou várias pessoas a retomar suas vidas. Algumas não conseguem, mas outras sim.
  • E já que toquei nesse assunto, não tem como não mencionar a Danielle. Fiquei o tempo todo esperando alguma outra resolução sobre ela. Apesar de ter ficado frustrado com a falta de continuidade de sua história, fez total sentido quando levamos em consideração que nem todo mundo consegue escapar como a Alex. E isso é cruel.
  • Sobre a Paula, eu senti afeição, raiva, frustração e muitas outras coisas diferentes em relação a ela. Ao mesmo tempo em que eu comemorei quando descobriu a respeito daquele falso australiano, fiquei com muita dó. Como a história é baseada em fatos, espero que ela tenha encontrado paz de espírito no nosso mundo.
  • A Regina também me proporcionou sensações distintas. Apesar de tê-la achado um porre no começo e ficado meio “nossa, TADINHA dela triste em uma mansão e podendo ter tudo o que quer“, acabei me simpatizando e celebrei quando ela ajudou a Alex no final das contas.
  • Mano, que trem inacreditável aquele rolê das faxineiras. É quase um trabalho escravo, e ninguém fala sobre isso. E a Yolanda lá ainda age toda turrona, como se estivesse pagando um grande salário às suas funcionárias. Por outro lado, me divertiu bastante ver a Alex ajudando as pessoas acumuladoras e ganhando uma grana com essa função.
  • O pai da Alex é um bostinha mesmo. Em certos aspectos, ele consegue ser pior do que o Sean. As ameaças do ex-namorado eram visíveis somente a ela, enquanto as agressões do Billy Burke eram bem mais… estruturais. É claro que teve a agressão física na Paula, mas, quanto à Alex, era algo bem simbólico e igualmente horrível.
  • Cara, que agonia me deu de ver aquelas cenas em que a Alex aparece no fundo do poço. Sério, eu só queria que aquilo acabasse logo, ainda bem que não demorou muito. Que alívio eu tive ao terminar a minissérie, significou que nada de ruim aconteceria mais com Alex e Maddie. De fato, o único jeito de não ocorrer mais nenhuma tragédia era encerrar a trama.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Alex Russell
A princípio, a protagonista chama a atenção somente por ocupar um papel central na trama. Contudo, ela é muito mais que isso, demonstrando uma quantidade de virtudes que nos aproxima ainda mais de sua jornada. Interpretada com muita sensibilidade pela atriz Margaret Qualley.

Pra mim, a solução neste caso aqui seria queimar a casa

+ Melhor episódio: E10 (“Snaps”)
Não dá pra explicar muito sem soltar spoilers, então escreverei apenas que o episódio conclui muito bem todas as estradas que foram tomadas pelo caminho.

Por mais Denises no mundo

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?