Filmes, Nacionais, Suspense/Thriller

LelecoNacionais #08 – O Agente Secreto (2025)

o agente secreto

• À plena vista

Depois do fenômeno de Ainda Estou Aqui, os mais pessimistas poderiam pensar que demoraria vários anos pra um filme brasileiro ter novamente uma grande projeção internacional. Eis que surge O Agente Secreto, vencedor de dois prêmios no Festival de Cannes – melhor ator pra Wagner Moura e melhor direção pra Kleber Mendonça Filho -, e que provavelmente será indicado ao Oscar. Não acho que o Brasil vá conquistar a categoria de Melhor Filme Internacional pelo segundo ano consecutivo, mas é legal demais ver novamente o nosso cinema fazendo bonito diante de todo mundo.

 

Sinopse

Em 1977, durante o período da Ditadura Militar, Marcelo se muda para Recife com o objetivo de esconder seu passado problemático. A princípio, a ideia dá certo, mas logo o passado o alcança e o obriga a andar com cuidado pra não virar mais uma estatística sangrenta.

Conversinha nada amigável

Crítica

Eu queria começar dizendo que O Agente Secreto acontece no mesmo período histórico de Ainda Estou Aqui, mas as semelhanças param por aí. O vencedor do Oscar de 2025 é mais dramático, perturbador, emocionante e a história é contada através de vítimas de situação financeira mais tranquila, por assim dizer. Já o postulante ao Oscar de 2026 é mais voltado para a ação e o suspense, por meio de uma trama mais periférica e menos intimista.

O Agente Secreto me lembrou o recente Uma Batalha Após a Outra. A narrativa meio caótica, com um início meio nebuloso, um meio inchado e um ápice intenso no final são características que unem os dois longas, mas Kleber Mendonça Filho faz questão de mostrar a sua brasilidade na direção. Mesmo assim, ainda é possível traçar paralelos com outro modelo, de Quentin Tarantino, com tons de thriller e comédia que se mesclam muito bem, potencializados por diálogos afiados e ótimas atuações.

Temos aqui um filme de altos e baixos. O primeiro ato me agradou bastante. A presença da atriz Tânia Maria faz a diferença; eu tenho certeza de que se ela fosse a Meryl Streep ou algo do tipo, estaria ativamente na conversa de premiações. Achei interessante também o fato de O Agente Secreto não ter uma história muito convencional. Depois de uma hora de duração, eu ainda tinha dificuldades de saber pra onde o filme iria e qual era a sua sinopse. Isso poderia ser um defeito, mas, em vez disso, pra mim melhorou o suspense.

O segundo ato, por outro lado, me trouxe sentimentos conflitantes. Achei a narrativa meio prolixa. A personagem da Maria Fernanda Cândido surge de repente e some de forma igualmente abrupta. Na verdade, a minha noiva apontou algo que eu não notei de primeira, mas que ela tem total razão: o filme não trabalha bem as suas personagens femininas.

Com exceção da Dona Sebastiana, todas as outras têm pouquíssimo tempo de tela em relação aos homens. É claro que um filme não é obrigado a ter sempre um equilíbrio neste sentido, porque algumas histórias têm pontos de vista mais masculinos, e outras são mais centradas no campo feminino. A questão é que O Agente Secreto introduz mulheres de grande potencial narrativo e não as desenvolve direito – o maior caso disso é Fátima, vivida por Alice Carvalho.

No terceiro ato, temos um exemplo claro de “absolute cinema”. A perseguição e a construção de tensão do clímax são impressionantes, e eu não tenho nenhuma ressalva. A parte em que Marcelo tenta escapar e as ruas se transformam em corredores de um labirinto é uma das melhores sequências que eu vi neste ano. O epílogo pode desagradar alguns, mas a atuação do Wagner Moura faz valer a pena a investida.

Diva divônica

Veredito

Eu tenho absoluta certeza de que todo ano são lançados vários filmes brasileiros de alta qualidade. Infelizmente, poucos chegam ao público geral, tanto nacional quanto internacional. Ainda Estou Aqui parece ter sido um divisor de águas neste aspecto, e O Agente Secreto surge como mais um ótimo exemplar do nosso cinema. O filme se enrola um pouquinho na metade, mas se destaca pelas atuações, a ambientação e por uma narrativa que se nega a cair no lugar comum.

Dicas do diretor

 

+ Melhor personagem: Marcelo
Eu poderia colocar a Dona Sebastiana aqui porque muitas vezes ela rouba a cena, mas o seu tempo de tela é pequeno e seria injusto se eu não levasse em consideração a excelente interpretação de Wagner Moura.

C I N E M A

 

FICHA TÉCNICA

Nome original: O Agente Secreto
Duração: 2h41
Países: Brasil, França, Países Baixos, Alemanha
Direção: Kleber Mendonça Filho
Elenco principal: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Carlos Francisco, Thomás Aquino, Hermila Guedes, Gabriel Leone, Udo Kier

 

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Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

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OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO O FILME. O AVISO ESTÁ DADO

 

  • Bicho, aquela caça de gato e rato no final foi boa demais. Eu torci pra que todos os bandidos se matassem, e de certa forma isso aconteceu um pouquinho – Bobbi que o diga. Já imaginava que o Marcelo/Armando morreria de alguma maneira, mas o jeito como o filme tratou a sua morte quase como se fosse uma nota de rodapé me atingiu em cheio. Transmitiu exatamente o que acontecia na Ditadura.
  • Queria ter visto mais da Fátima. Em uma única cena, aquela no restaurante, já deu pra ver a força da personagem. E também queria ter descoberto mais sobre o que de fato aconteceu com ela, pois claramente foi assassinada pelos militares.
  • Tópico reservado pra prestar meus respeitos à Perna Cabeluda™, pra que ela não me ataque em algum parque durante a noite.
  • A minha primeira reação ao Fernando, filho do Armando, ser interpretado pelo Wagner Moura foi de estranhamento. Fiquei pensando “poxa, que preguiça é essa de usarem o mesmo ator com uma lente de contato?”. Porém, eu rapidamente mudei de ideia porque parecia de fato outra pessoa, puramente por causa da atuação. Em poucos minutos, o Wagner Moura me convenceu de que não era mais o Armando, apesar de eu ter passado quase três horas olhando pra ele sob essa visão. Craque do jogo.

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?

Publicado por Luiz Felipe Mendes

Fundador do blog Pitacos do Leleco e referência internacional no mundo do entretenimento (com alguns poucos exageros, é claro).