• Falta de personalidade
Faz muito tempo que eu queria escrever sobre o tema de hoje. Há anos eu observo que as pessoas estão cada vez mais influenciáveis em todos os sentidos, e que a personalidade de sustentar a própria opinião é um recurso em falta. Além disso, uma opinião que se torna senso comum tende a ser forçada pro lado oposto, e algo de que todo mundo gostava de repente vira a pior coisa da face da Terra. Não entendeu do que exatamente eu tô falando? Vou explicar melhor a seguir, no meu último pitaco de 2025.
A linha tênue entre mudar de opinião e ser Maria vai com as outras
Em 2016, foi lançado Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Quem viveu essa época sabe que todo mundo massacrou o filme e teve a mesma visão conjunta: de que a DC tinha apressado as coisas, a história ficou muito inchada e aquele era, essencialmente, um filme ruim. No entanto, eu vi acontecer um fenômeno interessante. Pessoas próximas a mim rasgaram elogios após saírem do cinema, e poucos dias depois surgiram de repente com esses argumentos que eu citei.
É aqui que eu faço a primeira pausa no raciocínio. Não há nada de errado em mudar de opinião. Se você é um leitor frequente do meu blog, sabe bem que, quando eu reassisto às coisas, costumo mudar demais o que acho. Tem filme que eu detestei na primeira vez e, na segunda, passei a gostar – assim como o contrário. Na verdade, eu desconfio de quem tem opinião fixa sobre tudo. Porém, não é disso que eu tô falando. Mudar de opinião é uma coisa, repetir igual papagaio a observações que não são suas é outra totalmente diferente. Uma das funções da crítica é fazer o público enxergar obras sob outras perspectivas. Eu já passei a gostar mais ou menos de algum filme depois de ler ou ver uma resenha, mas isso é diferente de gostar de algo e, só porque a Internet inteira tá falando mal, você se convencer de que aquilo é ruim; e vice-versa.
Parece que todo mundo quer ter a mesma opinião sobre tudo. O Rotten Tomatoes acha que um filme é bom? Então eu tenho que gostar. O Twitter odiou o mais novo lançamento no cinema? Então eu tenho que odiar também. Eu já falei um pouco sobre esse mesmo tema em um dos meus artigos, acho que aquele sobre o que faz um filme ser bom, mas acho que é relevante trazer de volta à tona.

É moda odiar a moda
O maior agravante deste infeliz efeito manada é quando algo faz muito sucesso. Certas obras merecem ser criticadas quando alcançam um alto patamar e sofrem uma queda brusca de qualidade, como ocorreu com Game of Thrones. Outras são vítimas de apontamentos que, pra mim, acabam sendo exagerados. É o caso de Stranger Things.
Estou escrevendo antes do lançamento do último episódio da 5ª temporada, mas, neste momento, muita gente tá tratando como se fosse uma temporada desastrosa, com mais coisas negativas do que positivas. É óbvio que as pessoas têm o direito de não gostar, e eu não tenho a pretensão de achar que a minha opinião é a certa, mas acho esquisito como “todo mundo” gostou do Volume 1, e o Volume 2 virou a pior coisa do universo, sendo que foram de níveis semelhantes. Se você odiou e consegue explicar através de argumentos que partiram da sua própria interpretação, e não dos outros, saiba que você não é o alvo da minha crítica neste texto, que fique bem claro. Eu concordo que o Volume 1 é melhor e o Volume 2 tem diversos defeitos, mas acho que a galera pesa demais a mão.
E por que isso é feito? Porque é moda odiar a moda. É um ódio gratuito que me causa repulsa. No meio audiovisual, qualquer coisa que faça sucesso em algum ponto será chamada de superestimada, e então milhares de pessoas vão aparecer dizendo que também compartilham da mesma opinião e que essa mesma obra não é apenas superestimada, mas sim ruim de fato.
E isso vale não só pra filmes e séries, mas também pra artistas. Há pouco tempo, Pedro Pascal era o ator queridinho da galera. Com o tempo, ele passou a ser odiado simplesmente porque aparece com muita frequência! Conseguem entender o quanto isso é absurdo? Eu compreendo que a superexposição pode atrapalhar um artista, mas odiá-lo por causa disso só mostra que a novidade é o grande mandamento da vez. Quando surge um novo filme, série ou artista badalado, todo mundo se apaixona. Com o passar dos anos, o senso de novidade se perde e o público os descarta como se fossem brinquedos estragados. No caso de atores, é assim que eles entram em um limbo, somem por vários anos e ressurgem com um novo papel de destaque. Aí, as mesmas pessoas que destilaram ódio vão dizer: “nossa, ele estava muito sumido, sempre gostei dele. Tomara que ganhe mais oportunidades”.

Sustente a sua própria opinião
Sempre que eu assisto a um filme ou série, eu evito ao máximo ouvir opiniões de outras pessoas a respeito. Prefiro refletir sobre como aquela obra me atingiu, escrever a respeito e só depois disso consumir resenhas dos meus críticos favoritos, como Dalenogare, Otávio Ugá, Tiago Belotti e PH Santos, e debater com outras pessoas. Eu jamais vejo uma crítica antes de escrever a minha, porque às vezes a gente é influenciado sem nem perceber. Já teve ocasião em que eu me vi reproduzindo opiniões que não partiram de mim, eu apenas passei pra frente.
Dito isso, como eu mesmo falei neste texto, acontece de eu enxergar uma obra com outros olhos depois de uma crítica. Zona de Interesse, por exemplo, não me impactou tanto assim na primeira assistida. Depois de ver algumas críticas, eu passei a respeitar mais o filme, embora ainda continuasse um pouco reticente. Com Setembro 5 foi o contrário: eu saí do cinema impressionado e, depois de ler apontamentos negativos, vi que faziam sentido e abaixei a minha nota, ainda que continuasse gostando do filme. Isso, pra mim, é uma maneira saudável de absorver visões divergentes e, ao mesmo tempo, manter a nossa visão pessoal sobre as coisas.
Infelizmente, ter personalidade é algo em extinção na nossa sociedade. Sem querer parecer intelectualoide demais ou pagar de superior (até porque eu gosto de muita coisa questionável), mas vejo que muita gente acha mais confortável repetir algo do que refletir e chegar às próprias conclusões. Por esse motivo, tô tentando me afastar cada vez mais das redes sociais em espaços de discussões de filmes e séries. Na maioria das vezes, não vale mais a pena.

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Luiz Felipe Mendes
Criador do Pitacos do Leleco e crítico de maior autoridade no mundo do cinema