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ArtigosdoLeleco #01: O que torna um filme bom?

• Críticas, pra que te quero?

Fazia tempo que eu queria abrir um quadro diferente aqui no site, mas nunca coloquei em prática. Já flertei com incontáveis ideias na minha cabeça, tentei transformá-las em um projeto de vídeo, depois mudei pra texto, passei pelo podcast e então resolvi parar de adiar as coisas e colocar os dedinhos no teclado. Para inaugurar a minha nova seção de artigos do Pitacos do Leleco, decidi falar sobre o tema que me motivou a criar o blog. Afinal de contas, o que torna um filme bom?

Você conhece todos os deslocamentos de câmera de Stanley Kubrick? Pois eu decorei as falas de É o Fim!

A Última Ceia, de Leonardo da Vinci (1495-1498)

Todo mundo tem um conceito diferente de qualidade. Pra alguns, pode ser que Velozes e Furiosos seja o suprassumo do cinema, o cristal inabalável da sétima arte, o filme mais poderoso de todos. Pra outros, qualquer coisa abaixo de Cidadão Kane é puro lixo. Qual dessas visões é a certa? Existe alguém com autoridade o suficiente pra definir o que é bom e ruim, sendo que é algo completamente pessoal?

A resposta é “não”, senhoras e senhores. Lá em 2016, quando comecei a pensar na ideia de avaliar séries e filmes, o meu principal combustível era o desprezo pelos críticos de cinema e seus intermináveis fluxos de pedantismo e pretensa inteligência. Eu não queria saber da maldita mixagem de som ou sobre a direção oscilante das obras em comparação às lições deixadas pelas vanguardas de Charles Chaplin. Não faço ideia do que acabei de escrever, mas era exatamente assim que eu me sentia ao ler críticas especializadas. Eu imaginava que os redatores simplesmente despejavam um monte de frases bonitas e referências que ninguém conhece pra assim saírem como sabichões e supremos donos do conhecimento.

Assim, eu usei a minha principal arma: o senso de humor. Às vezes, não dá muito certo, porque nem sempre a minha ironia fica clara e possivelmente posso passar mensagens erradas em certas ocasiões. De qualquer forma, tinha muita gente escrevendo de forma engessada e metida? Pois bem, comecei a usar palavrões e fazer piadas com histórias e personagens. O tempo foi passando e percebi que o bom humor estava sendo cada vez mais utilizado no mundo do cinema. Mesmo quando eu criei o blog em 2016, isso já era verdade, mas ficou ainda maior nos anos subsequentes. Percebi que eu não tinha sido o único a pensar naquela abordagem, e naturalmente o meu amadurecimento passou por analisar os filmes de maneiras diferentes, saindo um pouco da superfície.

Eu me tornei o que jurei destruir? Não exatamente

O Leleco do passado olhando pro Leleco de hoje

Se você pegar uma crítica minha de hoje e comparar com cinco anos atrás, vai dar vontade de rir do quanto eu parecia ridículo. Os meus textos ficaram BEM mais detalhados, minhas opiniões foram mais solidificadas e passei a apreciar a sétima arte das mais diversas maneiras. Percebi que o pedantismo é sim um problema que me dá preguiça em certas pessoas, mas não é impossível analisar a fundo uma obra sem a intenção de ser o inteligentão.

Acho que vai de cada filme, sabe? Se eu estou fazendo uma maratona do Oscar, vou prestar muito mais atenção a detalhes que não vou me preocupar em absorver na saga Crepúsculo. Isso quer dizer que uma é melhor do que a outra? É claro que não! Tudo depende da abordagem. É como se eu tivesse um botão para filmes cult e blockbusters. Funciona da mesma forma com séries. Se a proposta de algum título é ser mais sério e abordar temas mais elaborados, o nível de exigência aumenta. Não tem como eu analisar Breaking Bad com as mesmas lentes que assisto Arrow ou algo do tipo. Aprendi que, no mundo do entretenimento, precisamos nos adaptar.

Beleza, falou, falou e não respondeu: o que torna um filme bom?

MCU? Desculpa, sou adepto do TCU (Toretto Cinematic Universe)

Antes de mais nada, o cinema é basicamente um aglomerado de experiências. É isso. A arte não tem uma cartilha que define qualidade. Você não pode dizer que Beethoven é superior à MC Lan simplesmente porque um possui acordes mais complexos. Qualidade artística não é mensurável, e ponto final. Tudo que depende de experiência pessoal é relativo. O que é bom pra você pode não ser bom pra mim. Quantas vezes eu acessei o aplicativo do Letterboxd após ver um filme ruim e me surpreendi com as avaliações positivas? Quantas vezes aconteceu justamente o contrário?

O que mais importa é criarmos as nossas próprias opiniões, mesmo se alguém influente no assunto pensar o contrário. Um dos meus críticos favoritos é o Otávio Ugá, do Super Oito. Em grande parte das vezes, acontece de eu concordar com os apontamentos dele. Em algumas ocasiões, as minhas opiniões são EXATAMENTE iguais às dele, mas é somente uma coincidência. Os critérios dele podem ser semelhantes aos meus, e só. Já aconteceu de eu assistir a um vídeo do cara e discordar veementemente da interpretação dele? Sim! E isso não invalida o que ele enxergou na obra, e também não invalida os meus próprios pensamentos.

Meu recado é o seguinte: não fique se preocupando com autoridades artísticas. Não existe isso, é pura baboseira. Nem mesmo Alfred Hitchcock, um dos maiores cineastas de todos os tempos, estava certo o tempo todo. Michael Scorsese, outro caboclo de renome, uma vez falou que os filmes da Marvel não são cinema. Essa é a opinião dele, que tem todo o direito de possuir. Agora, não é porque se trata de uma pessoa influente no meio que tudo o que ele diz é lei. Você pode discordar, se quiser. Tá tudo bem. E se você concordar, concorde porque é algo que veio de você, e não porque você o ouviu falando. Desenvolva as suas próprias opiniões. Sempre escute a dos outros, mas não se esqueça de que não existe nenhuma opinião mais válida do que a outra. Afinal de contas, são apenas… opiniões.

 

Luiz Felipe Mendes
Criador do Pitacos do Leleco e crítico de maior autoridade no mundo do cinema