Séries

Dear White People: Volume 3 (2019)

• Barco à deriva

“Em time que está ganhando não se mexe”. Poucas frases são tão precisas quanto essa. A origem do termo é obviamente esportiva. Se a sua equipe está vencendo uma partida atrás da outra, não faz sentido alterar a escalação. A premissa aqui é a mesma. Dear White People tinha entregado duas temporadas fenomenais, com uma fórmula cheia de personalidade. A cada episódio, a série focava em um personagem diferente, tecendo a narrativa com um humor sarcástico e críticas sociais pontuais e bem fundamentadas. Na terceira temporada, houve uma reformulação desnecessária. Os jogadores de Dear White People estavam em ótima forma, vencendo os seus adversários metafóricos. As substituições feitas pelos treinadores, digo, pelos produtores, culminaram em um time desentrosado e desorganizado em campo. Em time que está ganhando definitivamente não se mexe.

 

Sinopse

Depois de confrontar Rikki Carter e sair abalada da discussão, Samantha White decidiu não participar mais do programa Cara Gente Branca, passando o comando para sua melhor amiga Joelle Brooks. Um pouco desiludida quanto ao seu próprio posicionamento na causa racial, Sam opta por voltar suas atenções para um documentário que precisa fazer para sua aula. Sem inspiração, ela começa a fazer experimentos audiovisuais para tentar impressionar seus professores. Enquanto isso, Reggie Green tenta achar um novo propósito e o encontra na figura de Moses Brown (mais um sobrenome pra lista de obsessão por cores da série), um programador e professor bem-sucedido. Lionel Higgins, por sua vez, desenvolve um alter ego erótico e começa a chamar atenção pelo campus.

Descansam os militantes

Crítica

Sabe quando você não estuda pra uma prova e começa a ler as questões, percebendo que não entende nada do que está escrito? Foi assim que me senti durante a maior parte da terceira temporada de Dear White People. O primeiro episódio é uma verdadeira colcha de retalhos, com foco disperso, personagens desencontrados e uma história nula. Antes de eu dar play no capítulo, li a sinopse e fiquei surpreso em perceber que Al seria aparentemente o protagonista daquele início. Os primeiros momentos foram dele, sim, mas a trama convergiu para Lionel e depois se espalhou por outros personagens, quebrando toda a mística de antes. Aquele foi o meu primeiro baque. Com o passar do tempo, me dei conta de que a série estava tentando fazer algo diferente e fugir um pouco do modelo imposto, para arriscar-se um pouco mais. Eu entendi o conceito, mas pra mim não funcionou.

A terceira temporada é uma legítima desconstrução de personagens. A gente quase não reconhece alguns deles, e outros estão tão deformados que ficou difícil eles angariarem a nossa estima. O problema maior, no entanto, esteve no roteiro. O foco da primeira temporada era claro, pois todos os incidentes foram consequências diretas ou indiretas da festa blackface em Winchester. Na segunda temporada, o enredo circulou em volta dos ataques de um troll na internet e, posteriormente, os mistérios relacionados à Ordem do X. A terceira parece não saber para onde andar. Ela flerta com inúmeros arcos e não se concentra em nenhum. Temos o Lionel e seus contos eróticos, Sam e seu documentário, Gabe e seus problemas financeiros, Troy e sua incursão na Pastiche… e muito mais. Nas duas temporadas anteriores, os personagens também tinham seus próprios arcos, não é esse o problema aqui. A questão é que os personagens costumavam ter algum elo que os conectavam, agora eles se separaram e foram cada um para um lado diferente.

Bom, pelo menos durante a primeira metade. Na última cena do sétimo episódio, a série lança uma bomba capaz de unir todos os personagens ao redor de um direcionamento em comum. Assim, os três últimos capítulos retornam à essência de Dear White People e são tão bons quanto os capítulos das temporadas anteriores. A trama introduz mais um assunto importante e o roteiro se acerta, ganhando força para atrair nossa atenção em seus atos finais. Ainda assim, é muito pouco para uma temporada de dez episódios. Novamente, eu compreendi o conceito de bagunçarem o enredo e corrigirem-no depois de um tempo, mas esperaram tempo demais. Para uma premissa fora da caixinha sobreviver, ela precisa ser feita com parcimônia, algo que Dear White People não conseguiu realizar.

Houveram outros defeitos também. Um deles eu já pincelei: a deformação dos personagens. Uma das piores coisas que podem ocorrer em uma obra audiovisual é fazer com que o público não reconheça personagens que lhe eram familiares. À medida que eles vão sendo construídos, temos a tendência de nos identificar, criticar, divertir, enervar, compreender. Quando uma série ou filme deseja mostrar um lado de um personagem que ainda não nos deparamos, a situação fica bastante delicada. Se for bem manejada, os méritos do roteiro serão gigantes. Caso a sensação de desconstrução natural não fique orgânica em tela, pode haver uma perda de identificação prejudicial à história em si.

Contudo, Dear White People também acerta em seu terceiro ano. Por meio de uma ligeira reviravolta, a série coloca em xeque certos pensamentos que todos estamos propensos a ter, ao mesmo tempo em que aborda uma temática pra lá de necessária nos dias de hoje (uma das características mais marcantes da série, aliás). A facilidade com que o roteiro rearranja os seus personagens nos últimos episódios é de tirar o chapéu, porque pra mim ficou bem claro que a dispersão dramática de outrora tinha sido uma escolha consciente. Uma escolha consciente que não deu tão certo quanto o esperado, mas ainda assim uma escolha consciente. Eu fiquei totalmente fisgado no fim, e os créditos vieram com um gostinho de quero mais. Resta saber se vão conseguir unir todas as pontas soltas na quarta e última temporada de Dear White People, atualmente em produção pela Netflix.

Relacionamento à distância

Veredito

Ao se desviar de sua rota original, um barco fica à deriva no mar. No caso de Dear White People, os ventos do roteiro levaram o barco da série em um rumo inesperado, deixando os tripulantes perdidos em meio a um universo de água. Depois de muitos dias, aquelas pessoas avistaram terra a partir do mastro e conseguiram chegar ao solo em segurança, com energias renovadas e um otimismo garantido no fim da viagem. Quando desembarcaram na areia, a sensação foi de alívio, mas ninguém ali se esqueceu da trajetória turbulenta. Acho que eu não poderia ter sido mais claro em minha metáfora. A terceira temporada de Cara Gente Branca é confusa e arriscada, mas se encontra eventualmente e reconquista o nosso apreço. Embora conte com uma trama eficiente no último terço, a dispersão anterior infelizmente acabou marcando mais. O alento é que a série conseguiu se recuperar, revertendo a situação a fim de que ficássemos curiosos pelo que vem a seguir. Nota final: 2,9/5.

As detentas na biblioteca da Penitenciária de Litchfield

 

>> Crítica do Volume 1 de Dear White People

>> Crítica do Volume 2 de Dear White People

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Papo reto aqui: o Rashid foi meio chatão, né? Entendo que ele ficou magoado com a Joelle, mas o cara não parou pra pensar melhor na situação não? Primeiro que ele quis explicitamente sabotar o relacionamento dela. Segundo que a Joelle só foi ríspida com ele por causa da insistência, ela não tinha obrigação nenhuma de enxergá-lo como um interesse amoroso. Se o Rashid tivesse dito apenas que precisava de um tempo longe pra poder processar tudo, estaria na total razão, mas ficou tratando a Joelle como se ela tivesse sido grossa desnecessariamente e ainda começou a ficar com aquela Ikumi, com quem aparentemente nunca havia tido nada antes.
  • Ainda no assunto Joelle, ela parecia a Carla Diaz e o Reggie era o Arthur do BBB 21. Eu entendo que o Reggie tinha encontrado um rumo com o Moses, mas não tava agindo nem um pouco como o namorado da Joelle.
  • E isso me leva ao assunto Reggie/Moses. Eu sigo com a mesma opinião a respeito de acusações de abuso sexual. Se não tenho certeza de nada, não devo tomar uma posição. Em uma situação semelhante à da série, a primeira tendência é que a gente acredite na vítima, pois não havia razão pra ela inventar tudo aquilo. O ideal é que a princípio permaneçamos neutros, porque não somos juízes de nada. Porém, precisamos nos lembrar que vivemos em uma sociedade que tende a culpabilizar a vítima, algo que jamais deve ser feito. No caso de Moses Brown, o Reggie não deveria ter agido como se fosse impossível que seu tutor fosse um assediador. Nada é impossível, e ninguém conhece totalmente ninguém. Reggie agiu com insensibilidade e passou pano pra um homem simplesmente porque o próprio Reggie é um homem. Ele errou feio nessa, mas pelo menos voltou atrás depois.
  • O que dizer da Brooke? Tem como existir alguém mais inconveniente? Ela basicamente forçou a Muffy a conversar a respeito do assunto, desrespeitou completamente a vontade da vítima ao publicar uma matéria sobre o caso e ainda usou as suas próprias cicatrizes como justificativa. Além de ter sido uma péssima jornalista, ela foi uma pessoa terrível. Vindo de alguém que tratou a Kelsey daquele jeito, nem me surpreende.
  • Então o conceito da temporada era espelhar o documentário confuso da Sam, que acabou entrando nos trilhos eventualmente. Ideia interessante, mas mal executada. Se tivesse sido feito durante dois ou três episódios, teria funcionado melhor. E achei muito legal o fato de que a pessoa em quem a Sam mais se espelhava a desprezou, e quem ela mais desprezava a aconselhou. Foi um momento poderoso.
  • Gosto muito do Gabe, e foi por isso que eu fiquei tão “nããão, não faz isso” quando ele preencheu o campo de nativo-americano pra conseguir a bolsa. De qualquer forma, curti a maneira com que a série tratou o assunto, e fiquei aliviado quando o Gabe doou todo o dinheiro pro D’Unte.
  • Achei o D’Unte muito legal, aliás. Ele foi uma espécie de guia lgbtqzístico pro Lionel, e suas aventuras juntos foram divertidas. Mas tava na cara que o Lionel não se encaixava naquele estilo, e sim em uma vida mais tranquila, possivelmente com o Michael. Achei bom que a série não fez juízo de valor dizendo que existe uma maneira “certa” de ser gay, e sim mostrou vários possíveis caminhos, inclusive se você quiser escrever contos eróticos com o codinome Chester.
  • O que a Coco fez na temporada mesmo? Ficou com o dono da Pastiche e lutou pra conseguir a bolsa do professor velho e chato, né? Muito pouco pra uma personagem com tanto potencial.
  • Troy também caiu muito (será que vão voltar a abordar aquele caso dele com a professora na primeira temporada?), mas mal posso esperar pra vê-lo formando um trio com o Lionel e a Sam em busca da Ordem do X. E, sobre isso, quero ver mais sobre essa ordem secreta, porque abandonaram muito subitamente essa trama em uma espécie de anti-clímax no começo.
  • Será que vão dar um arco minimamente interessante pro Al, com o rolê do grupo latino? É esperar pra ver.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Samantha White
Eu gostei do que fizeram com ela, apesar de tudo. Ainda que tenha começado bem apagada, Sam conseguiu ter suas inseguranças bem trabalhadas e terminou a temporada com um saldo bem positivo.

Lionel tá parecendo aquele tipo de pessoa que ri na parte mais dramática de um filme tenso

+ Melhor episódio: S03E09 (“Chapter IX”)
Sinceramente, achei os três últimos capítulos mais ou menos do mesmo nível. Escolhi o penúltimo por conta da crescente convergência das histórias.

Modelo da C&A

+ Maior surpresa: D’Unte
Gostei dele. Achei que sua presença funcionou muito bem junto aos outros personagens, principalmente Lionel e Gabe. Boa adição à série.

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+ Pior personagem: Brooke
Não consigo nem expressar o quanto eu não gosto dela. Hipócrita, enxerida e insensível, toda vez que ela aparecia em cena eu tinha vontade de desligar a televisão. Pra falar a verdade, nunca gostei da personagem, mas nas temporadas anteriores ela tivera uma participação menor, e aqui a sua influência (infelizmente) cresceu.

Pensando aqui com quem eu vou ser inconveniente hoje

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?