Séries

Dear White People: Volume 2 (2018)

• X

A Internet pode ser um lugar lindo, mas pensa em um ambiente sádico. As redes sociais são uma representação perfeita da sociedade: pessoas de diferentes vivências e opiniões podem viver em harmonia, mas simplesmente optam por não fazê-lo. Um local que poderia ser de discussões sadias e conversas enriquecedoras não passa de um antro de xingamentos e conflitos. Nada do que eu disse é exatamente novo, todo mundo tá cansado de saber disso. Porém, não significa que não precisemos reforçar esse argumento continuamente. Além das brigas entre diferentes vertentes de pensamento, temos as pessoas que passam ainda mais do ponto, aquelas que proferem ofensas pessoais e ameaças. Se você faz isso na Internet, por favor saia do blog. Eu incentivo pra caramba que comentem nas minhas postagens (embora ninguém o faça), mas aqui não é espaço pra preconceitos, xingamentos e coisas do gênero. É claro que podemos discordar uns dos outros, inclusive acho necessário, mas sempre com respeito. Essa introdução pode ter parecido meio deslocada, mas tem tudo a ver com a crítica abaixo. Vamos a ela.

 

Sinopse

Depois de conviver com a polêmica festa blackface, Sam White agora tem outro foco. Nas redes sociais, ela é atacada por um perfil fake e acaba mordendo a isca, iniciando uma verdadeira guerra ideológica cibernética. Enquanto isso, Troy Fairbanks lida com as consequências de seus atos de depredação de um prédio, enquanto Lionel Higgins mergulha de vez no lado emocional de sua vida, ao mesmo tempo em que tenta administrar a sua vida profissional. Em outras frentes, Coco Conners alcança um certo poder, Reggie Green busca processar o trauma da última festa e Joelle Brooks caça espaço em um universo coordenado por sua melhor amiga. Eu mencionei que o Gabe Mitchell tá fazendo um documentário sobre o racismo? Pois tem isso também.

O padrinho e seu afilhado

Crítica

Eu admiro demais a acidez de Dear White People. Grande parte dessa característica é proveniente da narração sarcástica de Giancarlo Esposito, fazendo as intervenções necessárias sem invadir exageradamente o espaço do enredo. Quando a história anda, a narrativa irônica se mantém e conduz um ótimo roteiro.

Se isso funciona, é por causa dos crus personagens. Cada um tem as suas falhas, algo sobre o qual já dissertei no pitaco da primeira temporada. Fiquei feliz que a série conseguiu dar seguimento a essa qualidade, mas infelizmente ela caiu em algumas armadilhas. Pego como exemplo o arco do Troy. Um personagem que fez algo de errado larga mão de suas responsabilidades e começa a beber e festejar desenfreadamente? Cara, isso já foi feito incontáveis vezes no cinema e na televisão. Ele merecia um núcleo melhor, sobretudo por ter sido um dos melhores da temporada passada. Além disso, dois outros poderosos personagens também caíram de rendimento, e não por culpa dos atores. Em seu segundo ano, Dear White People claramente voltou suas principais atenções para Sam e Lionel, deixando desnecessariamente de lado Reggie e Coco. Suas histórias não foram tão boas quanto as anteriores, principalmente a de Coco. Reggie ainda teve um certo desenvolvimento, mas Coco ficou bem apagada.

Sam e Lionel, por outro lado, estão mais acesos do que nunca. Ambos são excelentes personagens, e os condutores centrais de todo o enredo. A obstinação de Sam e a complexidade de Lionel levam nós, espectadores, pra onde a direção quer. Entretanto, pasmem, nenhum deles foi o melhor da temporada. Esse prêmio é da Joelle, uma personagem que estava merecendo episódios contados sob o seu ponto de vista. A série não decepcionou.

Analisando arco por arco, Dear White People novamente demonstrou solidez, ainda que tenha “nerfado” alguns de seus melhores personagens. Apesar de determinadas histórias serem claramente superiores a outras, a série quase não deixou a peteca cair, sendo capaz de sustentar uma eficiente regularidade. O final foi um pouco bagunçado, abrupto e caótico, mas conseguiu amarrar bem as suas pontas e concluir as ações com um cliffhanger perfeito.

A irmã do Crash Bandicoot

Veredito

A segunda temporada de Dear White People é quase tão boa quanto a primeira, o que é um baita de um elogio. A trama continua abordando temáticas atuais e relevantes, a narrativa professoral e jocosa fornece um tom singular à obra, as atuações são naturais e fluidas e os personagens seguem com a particularidade de serem multidimensionais, algo bastante complicado de se fazer. No lado negativo, a série tratou de um arco de grandes proporções muito em cima da hora e abriu mão de alguns ótimos personagens a fim de introduzir óticas com maior espaço na história. A estratégia foi efetiva quanto ao seu objetivo, mas ter diminuído a importância de alguns de seus maiores patrimônios, além de aplicar certas repetições, foi um defeito da temporada. Fora isso, a produção escorregou pouco e entregou mais um forte resultado. Nota final: 4,3/5.

Não sei se brigar com a Valquíria é uma boa ideia…

 

>> Crítica do Volume 1 de Dear White People

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Inicio essas observações dizendo que eu gostaria muito que o Carson Rhoades tivesse ido à Winchester. Fiquei ansioso por suas argumentações, mas infelizmente não rolou. Será que todo mundo o teria odiado?
  • O Silvio tratava o Lionel que nem lixo, ainda bem que ele logo percebeu. Eu até gostei de seu novo parceiro romântico posteriormente, mas o cara simplesmente impôs a poligamia sem nem consultar o seu amante. Aí é foda.
  • Não sei se eu sou lerdo, mas não imaginei que o troll fosse o Silvio. Beleza que perto da revelação eu consegui adivinhar, mas antes disso sequer tinha passado pela minha cabeça. É claro que não seria uma pessoa óbvia como a galera da Pastiche, mas nem cheguei a pensar no Silvio. Que cara fdp, merece ser esquecido.
  • Sorbet foi achada, eba! Impressionante o tanto de lugares por onde ela passou depois de desaparecer, e acabou que tava com o Al e o Rashid. Precisamos de um spin-off focado na cachorrinha, pra ontem.
  • Confesso que não me surpreendi com a Coco ficando grávida. Ela é o tipo de personagem passível de um núcleo desses, pra que fosse confrontada com o dilema de abrir mão de sua própria vida por um filho ou recorrer ao aborto. Foi importante para a trajetória dela, e foi muito legal ter visto a Kelsey a apoiando. Aproveito pra dizer que ri bastante dela fazendo massagem na Coco e a Coco deixando claro que gosta apenas de homens, apenas pra Kelsey retrucar. Icônica.
  • Eu não sabia o que era um “hotep”, e concluí que são a face da hipocrisia. O que adianta você defender uma causa e desmoralizar todas as outras? Ainda bem que a Joelle não deu trela ao cara por tempo excessivo. Em vez disso, ficou com o nosso querido Reggie <3
  • Gostei muito do nono episódio, no qual a Sam perde o seu pai. A amizade única entre ela, a Joelle e a Coco, o jeito diferente com o qual a família da Sam lidou com o luto e a fragilidade da protagonista foram elementos muito bem executados.
  • Não sei se apenas eu pensei isso, mas não seria legal o despontar de uma amizade entre o Reggie e o Troy? Os vínculos com o reitor poderiam ser um bom início de conversa.
  • A discussão entre o Gabe e a Sam foi elétrica. Foram incríveis as interpretações, os jogos de câmera, os diálogos e toda a tensão criada e executada. O modo com que a balança da briga alternou entre os dois ex-namorados, além da alternância de sensatez, tornou tudo muito real. Méritos totais do diretor Justin Simien, da roteirista Jaclyn Moore e dos dois atores envolvidos, Logan Browning e John Patrick Amedori.
  • Ok, a Rikki Carter chegando na palestra com toda a sua arrogância e se deparando com um público totalmente diferente do que ela imaginava foi sensacional. Sério, aquela cena deu uma satisfação gigantesca, ainda mais por ela ter se sentido superior à Sam poucos minutos antes.
  • Acho que a série poderia ter desenvolvido melhor a Ordem do X. Eu só fui notar que estavam sendo despejadas pistas em todos os capítulos porque meu irmão me falou, e o enfoque nesse grupo secreto foi repentino e tardio. Eu amei o Giancarlo Esposito aparecendo no final e assumindo o controle total da narração, foi um momento incrível, mas acho que o caminho até ele poderia ter sido melhor trilhado.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Joelle Brooks
Na primeira temporada, ela só não brilhou mais porque ainda não tinha os holofotes sobre si. O jogo virou, e Joelle honrou o fato de ter ganhado um capítulo como protagonista.

Perdeu, Sam!

+ Melhor episódio: S02E08 (“Chapter VIII”)
O mais intenso da série, e olha que tivemos aquele com o Reggie na temporada passada. Um verdadeiro show de atuações.

Situação nem um pouco desconfortável

+ Maior evolução: Kelsey Phillips
Kelsey era só uma personagem engraçadinha e um tanto quanto ingênua, mas a série deu uma grande moral a ela e elevou consideravelmente sua importância, aproximando-a do público.

Kelsey Guevara

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?