Séries

Black Mirror: 3ª Temporada (2016)

• Crítica Social Foda

Eis aqui a série que deixou todos pensativos e intrigados.
Eis aqui a série em que todos que assistiram ficaram preocupados com a tecnologia e ameaçaram tacar fogo nos celulares e equipamentos eletrônicos enquanto conversavam sobre a própria série com amigos virtuais. Black Mirror nos prende tanto que até sem querer fiz uma crítica social foda.
A terceira temporada, agora com o selo de qualidade da Netfliqs, possui mais episódios que as duas primeiras, desta vez com 6. Todos os fãs ficaram empolgados com o aumento no número de capítulos, ainda mais porque o nível da série sempre foi muito alto e era bem difícil isto mudar, e também porque a Netflix não costuma errar em suas produções.
Apesar de tudo, o clima dos episódios é um pouco diferente. Enquanto nas duas primeiras temporadas as críticas são em geral voltadas à tecnologia, aqui temos um estilo ligeiramente distinto, abordando os problemas do comportamento humano. A crítica à evolução das máquinas continua lá, mas agora dividindo um pouco os holofotes.
Mesmo com estas divergências, a série continua impressionando. Como eu disse nas minhas duas reviews anteriores, é meio complicado analisar a temporada como um todo, sendo que cada episódio é extremamente singular; por isso, vou avaliá-los separadamente mais uma vez.

O primeiro episódio, Nosedive, conta com uma produção notavelmente superior às duas primeiras temporadas, até porque agora o investimento é maior. O enredo conta a história de um lugar onde todas as pessoas são avaliadas por estrelas: aqueles famosinhos e riquinhos esnobes que postam fotos de comidas e paisagens, puxam o saco de todo o mundo e estão constantemente viajando têm sempre uma média alta, que vai de 0 a 5 estrelas; aqueles que não ligam para o que os outros pensam, não estão nem aí para os padrões sociais ou irritam muita gente normalmente possuem uma média baixa.
A personagem principal é Lacie Pound – interpretada por Bryce Dallas Howard, a garota-do-salto-alto-indestrutível de Jurassic World – uma mulher com uma média de 4.2 que busca chegar em 4.5 para ter condições de comprar uma casa nova. Para isso, deve arranjar uma maneira de aumentar sua aprovação, e a oportunidade surge quando uma velha amiga de infância, Naomi (que possui uma média de 4.8), a convida para ser dama de honra de seu casamento, o que poderia alavancar as estrelas de Lacie.
Este foi o único episódio da série que assisti com minha mãe e nós dois gostamos bastante. O ritmo é acelerado e a história é extremamente atual, sendo que de uma forma ou de outra avaliamos as pessoas nas redes sociais e valorizamos sempre aquelas com o mesmo tipo de conteúdo vazio. Nossa, hoje eu tô inspirado nas críticas, que isso.

Nada como um sorriso verdadeiro
Nada como um sorriso verdadeiro

O episódio 2, Playtest, foi um dos meus favoritos da temporada. Ele começa meio lento e só engrena mesmo depois de uns 20 minutos, mas sua história é tão louca e diferente do estilo de Black Mirror que imediatamente me chamou a atenção.
O enredo apresenta Cooper, um homem que costumava morar com a mãe porém decide sair de casa e viajar pelo mundo depois de um acontecimento triste na família. Depois de passear por diversos lugares e países, Cooper, agora em sua fase final da viagem, se encontra em Londres, onde conhece uma garota chamada Sonja e desenvolve um interesse amoroso por ela. Um detalhe importante da trama é que desde sua fuga de casa, Cooper nunca havia conseguido fazer contato com a mãe, por medo e falta de jeito.
Quando está prestes a voltar para casa, o cartão de Cooper é recusado e por isso ele começa a procurar um trabalho para arrecadar dinheiro. Sonja sugere o mercado de games e Cooper valentemente topa, sendo que precisaria se voluntariar para testar um novo jogo de terror com uma premissa bem louca: ao invés do jogador presenciar o medo através de uma tela, os monstros e perigos se apresentariam em uma realidade virtual, por meio de um chip instalado na cabeça do jogador. Ou seja, se você tem um incrível medo de palhaços, o jogo automaticamente acessaria este dado em seu cérebro, criando um palhaço virtual para te assustar.
A trama por si só já é bastante interessante, ainda mais porque eu me amarro em videogames e nesse negócio de realidade virtual. Além disso, a história vai nos jogando um plot twist atrás do outro, mais ou menos no estilo de A Origem, sem contar que o desfecho me deixou até meio mal – uma característica marcante da série.

Obi-Wan tecnológico
Obi-Wan tecnológico

Outro episódio que me deixou sem dúvidas pensando “eita caralho” foi o episódio 3, Shut Up and Dance. O protagonista Kenny West é um jovem incrivelmente tímido que trabalha em um restaurante e evita o contato humano desnecessário. Certo dia, volta para casa e encontra sua irmã fuçando em seu notebook, algo que deveria ser considerado um crime. Quando ele o pega de volta percebe que o computador estava cheio de Baidus e PSafes. Para poder eliminar os programas nocivos, Kenny faz um sacrifício aos deuses antigos, bebe sangue de virgens e arranca a pele de 13 cordeiros e ainda assim não dá certo baixa um anti-vírus e inicialmente conclui que o malware foi removido.
Depois de usar o aplicativo, Kenny dá aquela olhada em volta, tranca a porta, acessa aqueles típicos sites que garotos de 14 anos adoram e pratica aquilo que os adolescentes amam (sim, você sabe do que estou falando). Contudo, não percebe que o anti-vírus havia ativado sua câmera e a partir daí o vídeo de seus momentos íntimos é usado contra ele por pessoas desconhecidas.
O episódio é completamente frenético e ainda conta com o ator que faz o Bronn de Game of Thrones. Até o momento final, o capítulo é muito bom, mas nos últimos momentos atinge um patamar que nos faz pensar nada mais nada menos que “puta que pariu”. Sim, é uma reviravolta impressionante.

Bota na cabeça que estilo não é marra
Bota na cabeça que estilo não é marra

San Junipero, o quarto episódio, é o queridinho dos fãs. Meu irmão mais velho, que assistiu à série antes de mim, fez de novo uma propaganda gigante em cima deste capítulo, me deixando com a expectativa lá em cima, achando que eu terminaria o episódio e ficaria naquele intenso clima depressivo que somente Black Mirror sabe nos proporcionar. Entretanto, confesso que me decepcionei um pouco.
A trama, que se passa na cidade fictícia de San Junipero dos anos 80, é centrada em Yorkie, uma garota antissocial que lembra muito a Barb de Stranger Things. Em um fim de semana qualquer, a jovem tira a noite para tentar se divertir em uma festa, mesmo se sentindo extremamente deslocada. Com isso, conhece outra garota chamada Kelly, que a leva num caminho que muda a história de sua vida.
A ambientação do episódio é de tirar o chapéu. A trilha sonora, o figurino, a fotografia, tudo é muito bem feito – e olha que eu nem sou muito de reparar nessas coisas. A história é interessante e forte (tocando em temas atuais como a representatividade, algo característico da Netflix), contando com um final “agridoce”, termo usado para descrever desfechos que não são exatamente felizes nem tristes: vai da interpretação de cada um.
Sim, é um bom e bonito episódio. Porém, é aquele velho negócio da expectativa: nunca se encha demais com ela. O que eu esperava que fosse explodir minha mente de tão foda foi apenas mais um na lista impecável de Black Mirror, mas lembrando que isto é apenas minha opinião – se você curtiu pra caralho “San Junipero” e o considera o melhor da série, respeito completamente sua escolha.

Claire Kyle e Barb Holland: que crossover!
Claire Kyle e Barb Holland: que crossover!

O episódio 5, Men Against Fire, é o mais fraquinho da temporada e quiçá da série. Aqui temos o protagonista Stripe, um militar que assim como seus colegas é treinado para caçar e eliminar as “baratas”, uns monstros mó esquisitos que habitam aquele país. Até aí tudo bem (ou não), porém em sua primeira caçada, Stripe é atingido por um dispositivo feito por uma das baratas, que o faz ficar com a mente confusa e bagunçada. A partir daí, ele começa a perceber coisas que os outros não percebem, e isto vai somente evoluindo até chegar em um ponto que não tem mais volta.

A trama começa legal, mas é um pouco previsível e não muito memorável. A presença de Michael Kelly, o Doug de House of Cards, dá um charme no episódio, além do final melancólico e crítico como sempre. Mesmo assim, “Men Against Fire” fica meio ofuscado pelos demais.

A seven nation army couldn't hold me back
A seven nation army couldn’t hold me back

O último episódio fecha a temporada com chave de ouro, além de ser o meu favorito. Com uma duração de 1h30min, Hated In The Nation é praticamente um filme. O enredo surge numa Londres do futuro em que abelhas estão quase sendo extintas e que para diminuir o impacto ambiental o Reino Unido financiou a construção de drones em formatos de abelhas com a função de polinizar as flores. No entanto, como no especial de Natal da segunda temporada, este é somente um dos elementos da história.
A trama principal mostra Jo Powers, uma mulher que após fazer declarações polêmicas sobre uma ativista com deficiência física é ameaçada de morte por inúmeras pessoas da internet, as quais usam as redes sociais para expressar seu descontentamento e ódio (qualquer semelhança com o mundo real é mera coincidência). Certo dia, Powers é encontrada morta e a detetive Karin Parke deve cuidar do caso, junto de sua assistente Blue, uma policial com um nome que me fez ficar alguns minutos tentando elaborar alguma piada genial; sem sucesso, infelizmente.
Os acontecimentos começam legais e vão ficando cada vez melhores ao longo do episódio. A crítica de Hated In The Nation é provavelmente uma das melhores de toda a série, ainda mais por ser algo tão presente nos dias de hoje.

Bzzzzz
Bzzzzz

Tentei resumir ao máximo a trama e os detalhes de cada episódio acima, porque esta review já tá ficando bem grandinha. Por isso, várias coisas ficaram faltando, como os elementos futuristas únicos de cada um, as referências à episódios anteriores e atores famosos fazendo pontas. Mas afinal de contas, isto não é o mais importante.
A terceira temporada de Black Mirror é quase tão boa quanto a segunda, e pelo menos pro Leleco aqui ainda não superou a primeira em qualidade geral. Vários fãs reclamaram de um estilo meio “americanizado” da série, porém ainda assim é algo que vale a pena demais assistir. O sucesso desenfreado que vem fazendo é totalmente compreensível. Agora o jeito é ficar na expectativa pela próxima temporada e por um possível (por que não?) especial de Natal.
Se você gostou da crítica, deixa seu like, se inscreve no canal e espalha pros amigos que vai nos ajudar muito. Até mais, galerinha!

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Aquele final do episódio 2, brincando com o trocadilho “called mom”, foi simplesmente demais pro meu coraçãozinho.
  • Muito irônico o fato de que o único lugar que a Lacie se sentiu livre foi na prisão. E que cena foda aquela dela xingando o cara, por sinal.
  • San Junipero tem uma pegada Matrix muito legal, gostei da reflexão.
  • O mais legal do dono daquela empresa de videogames do episódio 2 é que ele lembra um pouco o Yudi.
  • Oi, Alvin
  • Confesso que fiz o teste pra ver quanto seria minha média de estrelas se eu vivesse no universo do primeiro episódio e tirei 2,5. É, acho que eu não seria muito popular.
  • Eu tentando decidir se o final de San Junipero foi triste ou feliz tá mais difícil que a parte de química do ENEM.
  • A reviravolta do episódio 5, quando nos é mostrado o que são as baratas, ficou meio na cara desde o começo, né.
  • Será que aquele nerdão de San Junipero algum dia saiu da friendzone?
  • Alguma coisa na atriz que fez a Kelly mais velha me lembrou a Claire de Demolidor. Ou às vezes eu tô meio doido mesmo e vendo semelhanças que não estão lá.
  • Se não for pra ir numa festa vestido igual à Yorkie, nem vou
    Se não for pra ir numa festa vestido igual à Yorkie nem vou
  • Quando é revelado que o Kenny era pedófilo, fiquei chocado demais, pqp.
  • Acho que aquele agente Shaun Li do último episódio tem coisas mais sérias com que se preocupar, como Dormammu, por exemplo. Sim, tô fazendo ~referências~ à Doutor Estranho.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Blue
É complicado dar o prêmio de melhor personagem em Black Mirror, mas fico com Blue, uma pessoa com atitude e uma personalidade muito forte, um dos tantos pontos positivos da season finale.

Fiquei o episódio inteiro tentando lembrar de onde conhecia a atriz: de GoT
Fiquei o episódio inteiro tentando lembrar de onde conhecia a atriz: de GoT

+ Melhor episódio: S03E06 (“Hated In The Nation”)
Em Black Mirror, o melhor episódio é pura questão de gosto. Se você preferiu o primeiro, beleza. Se você achou o quarto melhor, tranquilo. Se você escolheu o quinto, show. Eu fiquei entre este, o segundo e o terceiro, mas acabei optando por Hated In The Nation por motivos de ‘porque sim’ e por ele contar com a melhor crítica da temporada, além da história mais interessante.

Eu quando me chamavam na diretoria

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?