Séries

Broadchurch: 1ª Temporada (2013)

• Crime de cidade pequena

Histórias de mistério e investigação costumam ter uma fórmula ímpar. Um crime é cometido, detetives entram em cena e de repente todo mundo parece suspeito, alguns com álibis fracos e escorregadios. São raras as vezes que obras do gênero inovam neste aspecto, ele foi tão fortemente construído ao longo do tempo que qualquer coisa diferente do habitual corre o risco de gerar certo estranhamento. Broadchurch é uma história típica de mistério e investigação, e não foge do modelo proposto. Os detetives contrastam entre si – um cansado e experiente, a outra novata e enérgica  -, e os personagens são todos enigmáticos. Ainda que não inove tanto no formato, a série britânica conta com boas interpretações e um sólido roteiro.

 

Sinopse

A pacata e litorânea cidade de Broadchurch acorda com a notícia de um acontecimento terrível. O pequeno Danny Latimer é encontrado morto nas praias do lugar, abaixo de um grande penhasco. As redondezas entram em choque por presenciarem uma situação nunca vista nos arredores, e fica estampado nos rostos de todos ali o estranhamento diante de um panorama tão improvável. Pouco antes da ocorrência, a policial Ellie Miller estava na expectativa de ser promovida, mas é frustrada quando seus superiores optam por colocar um desconhecido no comando, Alec Hardy, o qual sequer era morador de Broadchurch. Tudo piora ainda mais quando Hardy se mostra arrogante e ríspido, mas sua personalidade precisa de algum modo encaixar com a de Ellie para que, juntos, possam descobrir o que aconteceu com a criança estirada nas pálidas areias da cidade.

Wibbly Wobbly Timey Wimey

Crítica

A primeira coisa que eu notei em Broadchurch foi o quão inglesa é a série. Pra saber disso, basta observar um elemento: os atores. Quando o país resolve investir em algum produto com maior projeção, os atores são constantemente os mesmos. As familiares caras que aparecem aqui também estiveram presentes em Doctor Who Harry Potter. A segunda coisa que notei foi a fotografia e a narrativa. As cores utilizadas durante os episódios parecem mortas, sem vida, pra simbolizar a perda de Danny Latimer. Os acontecimentos estão longe de ser frenéticos e repletos de ação, mas a trama nunca se mostra lenta ou esticada. Os holofotes pulam de suspeito a suspeito, eliminando parcialmente a possibilidade de culpa de alguns, e reforçando o perigo de outros.
Broadchurch trata seus suspeitos como qualquer outra série e filme de investigação. Como a gente tá conhecendo agora os personagens, não confiamos em nenhum deles, e a obra se utiliza dessa artimanha pra colocar trocentas pulgas atrás de nossas orelhas. Eu tô muito acostumado com histórias do tipo, então algumas ilusões causadas pelo enredo não me convenceram. Em contrapartida, os arcos paralelos são trabalhados de tal forma que eu só fui conseguir adivinhar quem era a pessoa culpada quando faltavam dois capítulos pra terminar a temporada.
A principal força de Broadchurch está na divertida e sarcástica rivalidade entre os protagonistas vividos por David Tennant e Olivia Colman, dois nomes de peso em um elenco que ainda conta com David Bradley e Jodie Whittaker. O talento dos atores enriquece a trama, e transforma alguns arcos potencialmente mais fracos em momentos memoráveis. A série também aborda traição, pedofilia, relações familiares, religião e vários outros temas cuidadosamente pincelados pelos escritores. Para listar também o lado negativo, não posso deixar de mencionar, novamente, a falta de originalidade na estrutura como um todo.

O legítimo Rei da Inglaterra

Veredito

A primeira temporada de Broadchurch possui um elenco estrelado e inspirado, com personagens entrosados e carismáticos, uma história instigante e que não dá muitas pistas definitivas até sua reta final. É um presente pra quem gosta de tramas investigativas, mas pra quem é fã absoluto do gênero, talvez alguns aspectos não impressionem tanto quanto a quem não é muito acostumado com mistérios. O ritmo não é acelerado demais, tampouco lento, e o tom das cores usadas na série contribui pra que a gente sinta frequentemente o peso da perda da criança em questão. O fato de ser uma produção britânica também é um ponto a ser trazido pra quem deseja fugir do padrão hollywoodiano imposto pelos nossos queridos estadunidenses, e é sem dúvidas uma boa pedida de oito episódios pra quem gosta de tentar adivinhar as sombras por trás das vítimas em obras de ficção. Nota final: 4,1/5.

Olhares nada suspeitos.jpeg

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • O tal do Mark Latimer pode até não ter sido o culpado direto pela morte de Danny, mas ele é no mínimo um bostinha, né. Bateu no filho uma vez, negligenciou a família inteira, traiu a esposa e ainda ficou retendo informações da polícia. Ah, e só uma observação: acho que teria sido mais legal se ele fosse secretamente gay ou bissexual, pra justificar melhor sua hesitação em falar com as autoridades.
  • A Susan e o Nigel eram tão suspeitos que em nenhum momento eu acreditei que eram realmente os culpados. Eles eram bastante estranhos, mas eu entendi na hora que deveria ser alguma coisa paralela. Realmente me surpreendi, no entanto, com a descoberta de que eram mãe e filho, e é impressionante a maneira como ele agia perto dela e com outras pessoas. Um demônio e um santo, respectivamente.
  • Chloe com o Verme Cinzento Dean não foi um arco ruim, mas um dos mais sem gracinhas. E por falar na filha, eu fiquei com tanto ódio dela depois da forma como tratou o Walder Frey Jack Marshall. Falemos mais sobre isso abaixo.
  • A figura de Jack foi a que mais me deixou em conflito. Primeiro, eu pensava que ele era inocente. Depois, jurei que fosse culpado. Então, vi que era inocente. O modo com que todos viraram as costas pro cara sem ao menos ter algo provado foi de dar nojo, principalmente porque vemos isso acontecendo todos os dias. Se alguém é acusado de algo, o mínimo que devemos fazer é aguardar. Não adiantar condenar ou inocentar antes da hora, só vai piorar tudo. A população acabou com uma vida, literalmente. A Chloe Latimer tem grande papel nisso e sequer assumiu responsabilidade posteriormente. Grrr.
  • Pesada a história do Alec em relação ao rolê de Sandbrook. Ele protegeu a esposa e assumiu toda a culpa por uma prova essencial para o caso ter sido perdida por bobeira. Além do mais, todo aquele peso acabou afetando sua saúde. Dá pra entender o porquê de ele ser tão perturbado.
  • Você pode até cometer alguns power moves de vez em quando, mas a Beth irradiou força quando contou ao marido que sabia de sua traição logo antes de uma coletiva de imprensa. MVP da rodada.
  • O meu primeiro suspeito foi – pasmem! – o padre. Quando apareceu o rosto dele meio de lado ao final do primeiro episódio, imediatamente passei a considerá-lo como meu alvo número um, mas fui vendo que tinha errado feio.
  • Fiquei com preguiça do sensitivo Steve no início, mas acabei gostando dele. Fez eu ficar curioso pelo desenrolar do caso e também pra saber mais sobre o passado de Alec.
  • Eu sou estudante de Jornalismo e tenho propriedade pra falar: de vez em quando eu odeio a imprensa. O manipulável Olly e a manipuladora Karen distorceram todo o caso de Jack Marshall e tiraram o corpo fora quando deu merda. O mínimo que precisavam ter feito era um mea culpa, e mesmo assim não os perdoaria. Quantas situações semelhantes já vimos na vida real, aqui mesmo no Brasil? É complicado.
  • Joe Miller. Em nenhum momento desconfiei desse maldito, até o momento em que falou que a Ellie poderia prendê-lo na cama pois ele não tinha sido investigado, algo do tipo. Isso aconteceu na cena em que os dois estavam em uma pista de skate, com o Tom andando lá e tentando se divertir. A partir dali, eu tive a certeza absoluta de que era o homem. Pouco antes da season finale, eu arrisquei o palpite de que ele tinha matado o Danny porque este tinha descoberto que Joe abusava de seu próprio filho. Acabei não acertando, mas também não foi tão longe do que aconteceu. E o Joe não ter chegado às vias de fato com Danny não o torna menos pedófilo, mesmo o adulto acreditando que seu sentimento era puro. Ah, e a Ellie ter batido nele vai dar merda, tô avisando.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Alec Hardy
Os principais destaques estão com os dois principais, mas David Tennant consegue ficar um degrau acima ao interpretar alguém mentalmente perturbado (e muitas vezes chato), mas com uma vontade de ajudar inabalável.

Chato pra caramba, mas recheado de camadas

+ Melhor episódio: S01E08 (“Episode 8”)
Eu pensava que o quinto capítulo não conseguiria ser superado por ter apresentado uma carga dramática bem forte, mas o encerramento da temporada eleva o sentimento a um nível ainda mais alto.

Eu sou absolutamente a favor da imprensa livre, porém depende

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?