Séries

3%: 3ª Temporada (2019)

• Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço

É curioso o quanto 3% se mostrou presente na minha vida. Já finalizei a série há algumas semanas, e só não escrevi a crítica antes porque tinha muitas outras atrasadas. Somente agora estou podendo voltar à ativa. De qualquer forma, o meu ponto não é esse. Na postagem da primeira temporada, expliquei que comecei a assistir com meu irmão mais novo e minha mãe, mas ambos desistiram na metade. Esperei alguns meses pra ver se eles mudavam de ideia, mas não foi o caso. Portanto, continuei sozinho. Depois disso, fiquei esperando a segunda temporada lançar, mas quando isso aconteceu, eu tinha outras obras pra maratonar. Eis que minha namorada me deu a ideia de continuarmos juntos, pois ela também tinha parado ao final da primeira. Para nos lembrarmos dos acontecimentos, assistimos novamente à temporada de estreia. Finalmente, vimos a segunda e então as duas temporadas seguintes. Na semana passada, minha cunhada começou a ver a série. Com isso, eu assisti à primeira temporada com quatro pessoas diferentes, em quatro ocasiões diferentes. O que isso tem a ver com o pitaco da terceira temporada? Absolutamente nada, mas eu quis jogar essas curiosidade aqui pra dar início à postagem. Vamos a ela.

 

Sinopse

Michele teve a brilhante ideia de construir um lugar para quem não passasse no Processo e não quisesse ficar no Continente. Sim, em vez de cortar o mal do Maralto pela raiz e destruir de vez a maior fonte de opressão daquele universo, ela optou por fazer um trato com a “elite” e construir a Concha, uma terceira via destinada a quem não se encaixasse nas duas principais. Surpreendentemente, a ideia deu certo. A antiga revolucionária da Causa levantou o local e fincou o lema de que todos são bem-vindos, não importa o passado. Tudo é bom demais pra ser verdade, mas por um tempo considerável as coisas prosseguem de vento em popa. Porém, quando o vento em popa decide se transformar em uma tempestade de areia, a Concha é afetada tragicamente e os membros dentro dela precisam determinar o próximo passo.

Tem parada errado aí, irmão, o morro tá muito tranquilo

Crítica

Apesar de todos os seus erros bobos, a primeira temporada de 3% é extremamente divertida. A segunda, nem tanto. Eu gostei muito da decisão da série de subverter um pouco a sua própria premissa, voltando os olhos para as vidas dos habitantes do Continente e do Maralto, expondo os contrastes entre as duas realidades. Infelizmente, o enredo simplesmente não me pegou. O ritmo lento e os prolongamentos desnecessários deram um tom negativo à obra, ainda que ela tenha amadurecido em outros aspectos.

A terceira temporada tem muito mais a ver com a primeira do que com a segunda. 3% deixa um pouco de lado o Maralto e o Continente para focar quase que exclusivamente na Concha. A fotografia abusando das cores quentes é condizente com o cenário desértico da história, e a narrativa flui de um jeito muito mais agradável. O investimento maior na ação, reduzindo um pouco do espaço de desenvolvimento de personagens, foi um acerto gigantesco. É preciso mencionar, no entanto, que isso só foi possível porque a segunda característica apareceu bastante na temporada anterior. Nenhuma obra consegue se sustentar o tempo todo na ação, não sem ficar superficial. No caso de 3%, os principais personagens já tiveram tempo de sobra pra se apresentar e pra conhecermos melhor os seus dilemas, por isso o roteiro não desperdiça seus minutos preciosos com esse enfoque.

Como eu pincelei acima ao falar da fotografia, a ambientação da terceira temporada é muito bem feita. As edificações claras e limpas do Maralto e o desolamento do Continente fazem sentido, pois a elite não tem interesse em governar os seus inferiores, segundo a visão dos próprios, mas ao mesmo tempo não desejam que eles se governem e prosperem. Isso desemboca em outra qualidade de 3%: os paralelos bem feitos com a nossa situação política atual. O abandono da população e a ilusão ingênua das pretensas revoluções chegam a doer e causar revolta, o que é um sinal de que o roteiro conseguiu acertar em cheio.

A respeito da ambientação, a única ressalva fica para o exagero em algumas circunstâncias. Em uma cena, certa personagem está em sua casa no Continente e, na parede atrás dela, tem um banquinho pendurado de cabeça pra baixo. Qual é o sentido disso? Ok que os produtores quiseram passar a impressão de lixo constante no Lado de Cá, mas uma cadeira pendurada de ponta cabeça na parede não tem função prática alguma.

Sobre os diálogos e atuações, temos alguns problemas. O elenco não é ruim, mas algumas falas o fazem parecer assim. A falta de respeito com as pausas é um claro exemplo. Vamos supor que dois personagens estejam conversando. Um questiona o seguinte: o que você acha disso que eu falei?. Logo na sequência, o outro personagem fica em silêncio por um milissegundo, e o interlocutor emenda: não vai responder nada? Tipo, não deu nem tempo do outro responder, o que torna as cenas pouco naturais. Além disso, temos os figurantes reagindo de modo totalmente mecânico. Se houve alguma polêmica, os cochichos surgem. Alguém disse algo controverso? Um monte de gente balbucia ao fundo. Pra deixar bem claro, figurantes não precisam ser excelentes atores com indicações ao Oscar, mas eles jamais devem roubar a atenção de uma cena. Isso prejudica a imersão e 3% escorrega constantemente nesse aspecto, dando a impressão de que todos os acontecimentos são milimetricamente roteirizados e nada orgânicos.

No mais, a terceira temporada acerta mais do que erra. O seu ritmo é tão alucinante que eu sinceramente não me importei com vários erros enquanto maratonava; a narrativa estava muito agradável pra isso. Contudo, quando o último episódio acaba e a gente para pra pensar em tudo o que viu, os defeitos surgem com clareza.

O Processo sem apoio financeiro

Veredito

Depois de um primeiro ano promissor e uma sequência irregular, 3% resgata o que tem de melhor e reforça a noção de que há muito talento em terras tupiniquins. Em uma análise fria, é possível citarmos diversos tópicos com necessidade de melhora, como os diálogos, as atuações e algumas construções de personagem. Na questão de ritmo e ambientação, a série brasileira brilha e conquista a atenção de quem tá assistindo – bom, pelo menos comigo foi assim. Fazia tempo que eu não assistia à uma série com tanta vontade de ver logo o próximo episódio, devorando as ocorrências como os capítulos de um livro épico. Com várias semelhanças junto à primeira temporada e herdando alguns pontos da segunda, a terceira aplica seu charme e é uma ótima pedida pra quem deseja passar horas em frente à televisão consumindo uma boa e velha distopia. Contudo, a série precisa prestar mais atenção e corrigir os seus recorrentes erros que teimam em aparecer desde o primeiro episódio, a fim de proporcionar uma imersão completa em vez da experiência parcial. Nota final: 3,8/5.

O AUXÍLIO EMERGENCIAL SAIU, GALERAAAA

 

>> Crítica da 1ª Temporada de 3%

>> Crítica da 2ª Temporada de 3%

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Eu odeio quando um ator ou atriz sai de uma série sem um final adequado. Pô, se você quer abandonar uma obra porque tem uma oferta de trabalho melhor, eu não vejo problema. Mas acho que o mínimo que 3% poderia ter feito é ter encerrado melhor o arco do Fernando. Iniciar a temporada dizendo que o personagem simplesmente morreu, com flashbacks sendo expostos sem nem mostrar o rosto do Michel Gomes é pra lá de decepcionante. Não sei se os produtores chegaram a pedir pro ator fazer pelo menos uma última aparição, ou se nem chegaram a pensar nisso, então não dá pra cravar de quem é a “culpa”. O problema é que o Fernando tinha sido o melhor da segunda temporada e vinha em franca evolução. Se tivessem feito um episódio inteiro mostrando os acontecimentos que levaram até a sua morte, eu entenderia, mas às vezes pareceu que eles simplesmente quiseram fingir que o personagem nunca existira. Colocaram uma cadeira de rodas na Concha só pra não ficar feio demais. Desapontador.
  • Uma das tramas mais batidas do mundo é a do cara atormentado por traumas que acaba virando alcóolatra. Em basicamente todas as vezes em que esse tema é trabalhado, eu fico com preguiça. É quase sempre a mesma coisa, e com o Rafael não foi diferente. Quando ele voltou a ser o Rafael de antes, a temporada em si também melhorou. O que não tinha como ser bom era aquele irmão dele, Artur. Chato pra caramba, e extremamente hipócrita. O que ele esperava que acontecesse? O registro dele nem funcionava mais e ele poderia ter morrido, sem contar que o menino trapaceou. O Rafael não tinha nada pelo que se sentir culpado nesse assunto.
  • O apelido de “Ezequiele”, dado pela Joana para a Michele, foi sensacional. De fato, a líder da Concha cometeu incontáveis erros, até os que ela disse que nunca faria (por isso, o título do pitaco). Toda a ideia de fazer uma Seleção foi equivocada. Ela deveria ter escolhido quem contribuía mais com o local e pronto, acabou. Os outros que esperassem pela reabertura do lugar no futuro. Pra falar a verdade, o que a Michele deveria ter feito era procurar melhor por aquele coletor de água. A Joana andou um pouquinho pelo deserto e conseguiu achar, então não era muito difícil.
  • Por falar na Joana, eu meio que tinha pegado spoiler de seu relacionamento com a Natália na conta oficial da Netflix (e por isso eu parei de seguir no Twitter), mas ainda assim foi legal. Se formos parar pra pensar, as duas foram as únicas da temporada que não fizeram merda.
  • A filha do “Casal Fundador”, Tânia, ser a criadora da Causa foi a maior ironia do mundo. Além disso, mostra que grande parte das revoluções só acontece porque alguém busca privilégios que acreditam ser direitos. Raramente, a ideia de sociedade igualitária é a pauta original. A Tânia só se revoltou com o Maralto porque ela sentiu o gosto do lugar e depois não conseguiu entrar. Se tivesse sido capaz (e não sido eliminado logo na primeira prova, risos), a Causa dificilmente existiria.
  • Bicho, eu fiquei a maior parte da temporada achando que o Xavier era o traidor. Eu jamais imaginava que fosse o Rafael sendo controlado pela Marcela. Fui tapeado. E sobre o Xavier, foi uma adição legalzinha no elenco, mas o roteiro precisa urgentemente melhorar as falas dele.
  • O que dizer de Glória e sua revolução? É a mesma lógica da Tânia com a Causa. A Glória tava apoiando pra caramba a Michele, mas a partir do momento em que se viu prejudicada por ter ficado de fora na Seleção, a garota juntou geral pra investir contra a Concha (?) e fazer um pacto com o Maralto (??), o verdadeiro responsável por toda a miséria. A música emocionante tocando, dando ares de mudança quando na realidade se tratava de uma revolta vazia, foi uma crítica perfeita em relação à nossa sociedade.
  • Será que Ariel vai aparecer novamente? Sumiu do nada.
  • A Elisa é uma personagem que aparenta ter potencial, mas até agora a série não conseguiu utilizá-la da melhor maneira. Acho que os seus conflitos internos entre pertencer ao Maralto e “fazer a coisa certa” são realmente promissores.
  • Maralto se fodendo com a Marcela na cadeia é a minha religião. O único problema é a Glória sendo súdita da vilã, isso ainda vai dar ruim. E por que diabos a Michele pediu DESCULPAS e PERDOOU a Glória, sendo que a última era quem estava totalmente errada???
  • Enquanto isso, o André vai querer tocar o terror com seus soldados. Tô até vendo.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Marco
Eu gostava bastante dele antes do cara surtar no Processo e ser partido ao meio. Na segunda temporada, achei que seria um vilão 97% mau, com um traço de bondade equivalente a 3%. Nesta temporada, ele demonstrou ser muito mais do que o esperado. Entre os outros destaques positivos, podemos citar também a Joana e a Natália.

O bebê não é ninguém mais, ninguém menos do que Pedro Álvares Cabral

+ Melhor episódio: T03E08 (“Onda”)
Uma maneira muito boa de finalizar a temporada, dando um gostinho do que vem por aí.

O momento exato antes de um ônibus abrir suas portas no terminal

+ Maior evolução: Marcela
Ela não me convenceu na segunda temporada; a sombra do Ezequiel era muito grande. Entretanto, aqui ela mostrou um lado diferente e interessantes traços de personalidade.

Gótica na praia

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?