Séries

Skam: 4ª Temporada (2017)

• Choques culturais

Normalmente, eu me rejubilo quando sai o anúncio de que uma série está chegando ao fim. É claro que, se uma delas é cancelada sendo que ainda havia muito a se mostrar, eu tendo a ficar frustrado porque tenho agonia de coisas inacabadas. Porém, quando acontece de uma obra traçar uma meta e tomar a decisão de ser concluída em um futuro próximo, eu fico satisfeito porque séries grandes demais dificilmente mantêm o nível. Ao assistir à quarta temporada de Skam, eu já sabia que ela era a última. Enquanto maratonava, o sentimento era de que realmente o ciclo estava se encerrando. Porém, ao concluir o último episódio, me veio a sensação nítida de que ainda havia mais história a ser contada. É uma pena que nunca veremos certas abordagens não desenvolvidas.

 

Sinopse

Além da obviedade de acontecerem em um mesmo universo, todas as temporadas de Skam possuem algo em comum: o romance conturbado, frequentemente proibido. Na primeira, a relação entre Eva e Jonas era pra lá de turbulenta, e eventualmente acabou em término. Na segunda, houve o amor escondido entre Noora e William, por conta de tudo o que rolou envolvendo o marmanjo e a Vilde. Na terceira, a atração de Isak por Even foi marcada pelos questionamentos acerca da própria sexualidade do protagonista. Na quarta, a paixão de Sana por Yousef, um amigo de seu irmão, se torna complicada porque o seu interesse amoroso não partilha da mesma crença religiosa da personagem principal. Com isso, ela se vê em uma situação impossível, enquanto tenta administrar a sua vida acadêmica e a relação de amizade com o Clube das Cinco.

Não olha agora, Sana, mas tem um cara atrás de você

Crítica

A quarta temporada de Skam é a melhor desde a primeira. Mas por quê, Leleco? Bom, meus caros pitaquers, foi porque a série resgatou algumas dinâmicas que haviam sido diminuídas nas duas temporadas anteriores. A segunda e a terceira ficaram muito focadas no romance entre Noora e William e Isak e Even, respectivamente, e isso fez com que as tramas ficassem um pouco estagnadas nas outras frentes. A quarta temporada, por sua vez, tem como ponto principal a queda de Sana por Yousef, mas também se concentra bastante no companheirismo das cinco principais personagens femininas e nos desdobramentos da “briga” das garotas por um “Russ Bus”.

O que mais me atraiu em Skam, inicialmente, foi justamente o despontar da amizade de Eva, Noora, Chris, Vilde e Sana, e não o relacionamento entre Eva e Jonas. Era uma parte importante da história? Sim, mas não era a única. A gente teve a tensão envolvendo Eva e Ingrid, a tentativa das cinco amigas de se tornarem populares na escola, a aparente paixão escondida de Isak pela Eva… e muito mais. Na segunda e na terceira temporadas, os arcos secundários se tornaram terciários para que o romance central ganhasse mais espaço. Isso, na minha opinião, acabou sendo um erro. A quarta temporada corrige essas falhas e fortalece o que a série possui de melhor – a amizade do grupo que eu apelidei de Clube das Cinco. As aventuras das meninas, suas rivalidades e questionamentos, suas inseguranças e decisões, tudo ganha uma lufada de ar fresco que eleva o nível da última temporada.

O romance entre Sana e Yousef também é marcante. Os dois têm química, mas não é por isso que o casal ganha força. A sua religião é uma das coisas mais importantes na vida de nossa protagonista. Apesar de ser tão diferente da maioria das pessoas em seu colégio e convívio social, ela lida bem com sua singularidade e mantém suas filosofias ao mesmo tempo em que não censura demasiadamente aqueles que pensam diferente. Entretanto, ela se vê numa sinuca de bico quando percebe que está gostando de um garoto não muçulmano. Se a Sana é tão tranquila em relação a essas diferenças, por que isso é tão importante? Bom, porque na cultura islâmica, um detentor de tal crença só pode se casar com alguém que partilha do mesmo pensamento. Em outras palavras, um possível relacionamento entre ela e Yousef não teria um futuro convencional bem-sucedido. Skam explora muito bem esse sentimento de confusão, sem dar uma resposta fácil. A série acerta em cheio ao não condenar quem é muçulmano e nem quem pensa totalmente diferente. Obviamente, a obra tece algumas críticas importantes, mas não ousa afirmar qual é o lado certo da história; até porque não tem.

Com o resgate de sua melhor característica e a inserção de indagações espirituais, Skam entrega um resultado positivo. Contudo, alguns defeitos recorrentes permanecem. A incapacidade de equilibrar o ritmo é o mais relevante. A narrativa é interrompida e perde o pique frequentemente, pois a obra teima em gravar cenas longas demais sem ter muito a dizer. Na primeira temporada, isso também ocorreu, mas em momentos esparsos. Já a quarta aumenta a incidência, e diversos momentos são esfriados porque uma sequência demora vários minutos para ser concluída. Por esse motivo, eu acabei tendo a atenção distraída incontáveis vezes. Quando conseguia retornar à Noruega, os créditos já estavam subindo na tela.

A trilha sonora tem qualidade e o enredo é eficiente, mas simples. Essa simplicidade faz com que a trama da temporada fique pouco original, considerando a falta de reviravoltas e a repetição de alguns núcleos. A leveza de Skam, uma de suas melhores características, acaba se tornando uma inimiga a partir do momento em que se transforma em monotonia. A história anda devagar e requer paciência, e isso é um pouco difícil levando em conta as cenas desnecessariamente longas. Em compensação, os personagens em geral estão muito bem, em especial a protagonista.

Só a Noora tá sentada do jeito “certo”

Veredito

O que Skam faz corretamente em sua última temporada não deve ser desprezado. A maravilhosa amizade entre Eva, Noora, Chris, Vilde e Sana é rejuvenescida e trazida novamente à tona com qualidade, o romance principal entrega mais nuances do que os anteriores e os personagens são encantadores. O que faltou foi a série acertar no ritmo. As cenas longas e sem muito a acrescentar enfraquecem o conjunto, e a obra perde a oportunidade de superar a primeira temporada – na qual a trama era mais simples, mas ajustada de uma maneira melhor. De qualquer forma, o último episódio é emocionante e fez com que eu ficasse um tanto quanto triste pelo cancelamento da obra. Com o que foi mostrado, daria pra ter explorado ainda mais o cenário norueguês. Olhando pelo lado bom, Skam pelo menos conseguiu encerrar em alta sua trajetória de ensinamentos e carisma. Nota final: 3,5/5.

E então eu disse pra ele: “preciso Sanar minhas dúvidas”

 

>> Crítica da 1ª Temporada de Skam

>> Crítica da 2ª Temporada de Skam

>> Crítica da 3ª Temporada de Skam

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Eu não fazia ideia de qual seria a solução apresentada pela série. Se a Sana desistisse de sua religião por causa do Yousef, quebraria com toda a construção da personagem e ainda daria a ideia de que o islamismo é algo nocivo (sem contar o fato de uma mulher abrir mão de algo importante pra agradar um homem). Se a Sana desistisse dele, daria o recado de que muçulmanos só podem se apaixonar por outros muçulmanos. Caso ela resolvesse ficar com o Yousef, teria toda a questão do casamento. A terceira opção era melhor, e foi o que acabou rolando. Só fico curioso sobre como seria o futuro deles. Será que continuaram juntos e casaram-se apenas no civil? Perguntas e mais perguntas.
  • Não vou mentir, fiquei com medo do Elias ser homofóbico. Acabou que quem causou a treta foi o Even. Ainda bem, acho.
  • A Sana trucando a Ingrid quando anunciou que compraria o ônibus foi demais. Só achei que demorou bastante até a Ingrid perceber que quem tinha o poder era ela. Se a Sana não tinha dinheiro, bastava a Ingrid esperar e depois comprar o ônibus só pra galera dela. Bem ingênua.
  • Namore alguém que leve a culpa por uma garrafa de vodka estar na sua casa, considerando que seus pais proíbem bebida alcoólica. Yousef, que homem.
  • Ok, não esperava que o Chris Penetrator e a cover da Natalie Portman ficariam juntos. Jurava que o fuckboy estava encontrando um amor junto à Eva, mas longe disso. E bem que a Eva sabia que ele não tinha mudado.
  • Parte de mim ficou feliz que a Eva e o Jonas acabaram ficando juntos no final após seus respectivos pares os dispensarem. De certa forma, é como se a série tivesse completado um ciclo. No mesmo sentido, até que fiquei de boa com o William ter voltado e ficado com a Noora. Os dois pareciam bem mais maduros, e se tivessem ficado separados depois de tudo o que aconteceu na segunda temporada, eu teria ficado com a impressão de que ela não teria servido pra nada.
  • Foi ótimo ver o Eskild e a Lynn dando certo com todo mundo, interagindo com o William e dizendo o tamanho do carinho que sentiam pela Noora. Momentos fofinhos de Skam <3
  • A amizade entre Isak e Sana foi muito legal de se ver. Ele pedindo a ajuda dela na escola, ambos fazendo dupla na aula e conversando sobre várias coisas… poderiam ter aproveitado isso mais, talvez até na terceira temporada.
  • Que ódio, agora eu queria uma temporada da Vilde e da Chris. O foco nelas no último episódio fez eu ter a sensação de que conhecia as duas apenas superficialmente. O alcoolismo da mãe da Vilde e a forma com que a filha precisava lidar com isso, o instinto protetor da Chris e sua sensibilidade, eram temas que poderiam ser muito interessantes de se trabalhar com mais profundidade. Se algum dia quiserem resgatar a série, galera, já sabem por onde começar!

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Sana Bakkoush
Quem leu meu pitaco da primeira temporada sabe que eu não gostei muito dela no começo. Achava sua personalidade um pouco grossa, mas a cada episódio ela foi evoluindo mais. Com a história inteira sendo contada a partir do seu ponto de vista, Sana alcançou seu auge. O Isak também foi muito bem. Por algum motivo, os seus momentos mais legais apareceram fora da terceira temporada, aquela em que ele era o protagonista. É o tipo de personagem que rende mais como coadjuvante.

Maquiagem nos trinques

+ Melhor episódio: S04E10 (“Takk for alt”)
Possivelmente o melhor episódio da série. Uma despedida emocionante e aconchegante, deixando um gostinho de “quero mais” no paladar.

Cara Gente Branca,

+ Maior surpresa: Elias Bakkoush
No início, pareceu ser o irmão cuzão de Sana. Porém, mostrou que era muito mais do que isso e credenciou uma ótima adição ao mundo de Skam.

Muçul-mano

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?