Séries

Lost: 1ª Temporada (2004/05)

• Ilha dos desafios

Eu deveria estar escrevendo sobre LokiA Rua do Medo ou tantas outras coisas que estão na moda atualmente. Em vez disso, estou voltando quase 20 anos no tempo pra revisitar uma das obras mais influentes do século, e que moldou o formato de diversos outros produtos televisivos dali pra frente. Sim, é a primeira vez que estou assistindo Lost, e sinto que não terei minha carteirinha de viciado em séries enquanto não concluí-la. Além disso, não vou mais ficar me importando em falar sobre as tendências, a não ser que eu realmente me interesse por elas. Essa pressão de ter que assistir tudo assim que é lançado não é legal, então nada melhor do que embarcar em uma série das antigas. Venha comigo nessa viagem no tempo!

 

Sinopse

Todo mundo tem medo de estar presente em uma queda de avião, certo? Acho que nem o mais devoto dos fiéis, o mais confiante dos otimistas e o mais tranquilo dos despreocupados ficaria de boa caso estivesse em uma viagem e a aeronave começasse a despencar. Eu, pelo menos, ficaria provavelmente com indigestão e começaria a pensar em todas as coisas que eu nunca fiz até hoje, como ir ao Outback ou andar de moto. Ok, voltando ao pitaco, o Voo 815 da Oceanic Air atravessa uma tragédia e parte do avião cai em uma ilha desconhecida. A maior parte dos tripulantes (48, no total) consegue sobreviver à queda, com apenas ferimentos superficiais. Agora, eles têm que descobrir onde estão e procurar ajuda, ou simplesmente sobreviver.

Minha expressão durante a queda de um avião: perdemo

Crítica

Juro pra vocês, sem sacanagem: enquanto estou escrevendo isso aqui, começou a tocar na minha lista de reprodução a música “Hit The Road Jack”, do Ray Charles. Acho que a força sobrenatural de Lost também chegou ao mundo real, viu?

Se você não entendeu o que isso tem a ver com o texto, primeiro precisa saber que o nome do protagonista é Jack Shephard, um cirurgião-médico. O Voo 815 partiu da cidade de Sydney, na Austrália, à caminho pra Los Angeles, nos Estados Unidos. Portanto, a maior parte dos tripulantes sabe falar inglês, com exceção de um casal sul-coreano. De qualquer forma, tá todo mundo no mesmo barco, ou melhor, avião, sobretudo depois de uma tragédia daquelas. Assim, a série começa abordando a capacidade de pessoas desconhecidas se entenderem pelo bem da sobrevivência, e depois disso começa o desenvolvimento das relações interpessoais.

Lost segue um sistema bem claro de flashbacks. A cada episódio, um dos personagens principais tem o seu passado trabalhado parcialmente, pra que descubramos a respeito das vidas de cada um em pequenas doses. Essa característica permite que conheçamos os personagens aos poucos, e até dá pra mudarmos nossas opiniões sobre eles, levando em conta aquilo por que já passaram. Essa tática de flashbacks serviu de base para diversas outras obras seguirem um modelo parecido, como Orange Is The New Black.

O enredo até pega uma premissa possível, mas logo deixa isso de lado e coloca as suas verdadeiras cartas na mesa. A ilha de Lost não é uma ilha comum. Pra começo de conversa, a galera não faz ideia de que lugar é aquele. Pra coroar, vários acontecimentos estranhos começam a dar as caras, como um urso polar no meio da floresta e barulhos estranhos vindo de seres não identificados. Essencialmente, a série é um drama, mas com incontáveis e evidentes traços de ficção. Pra falar a verdade, esse é o grande charme da obra.

O maior problema da temporada de estreia é a sua quantidade absurda de episódios. Com 25 capítulos na jogada, a trama acaba ficando muito esticada. É compreensível utilizar a estratégia de diminuir o tamanho de algumas histórias pra dar mais enfoque nos personagens em si, mas tal recurso é utilizado com muito exagero e as coisas parecem demorar demais a acontecer, ficando até mesmo paradas por muito tempo.

Alguns defeitos são provenientes da cultura da época, então dá até pra se perdoar. Porém, é impossível ignorar. Temos o protagonista, um homem que deseja a todo momento salvar a vida de todos os presentes. Temos o galã, que forma uma espécie de rixa com o protagonista e aparece constantemente sem camisa. Temos a garota grávida, o alívio cômico, o usuário de drogas. Muitos dos personagens são arquétipos pra lá de óbvios, com poucos pontos que os diferenciam de outras obras do gênero. Mas, considerando que Lost aplicou isso antes de quase todo mundo, não levei isso muito em conta na avaliação.

Assim como em várias outras séries de sobrevivência, sempre há especialistas em todas as áreas possíveis. Tem alguém ferido? Ainda bem que temos um médico! Precisamos construir um navio? Ainda bem que temos um engenheiro! Temos de conseguir nos comunicar com alguém? Ainda bem que temos um ex-soldado com experiência na função! O meu ponto é que eu gostaria de ver pessoas mais… comuns, sem ter ideia de como sobreviver em um lugar daqueles. Eu sei que faz sentido cada um ter uma habilidade primordial ali, por conta do contexto da série, mas é só um toque mesmo.

Obviamente, neste ponto já deu pra perceber que os personagens são o grande tesouro de Lost. Temos 48 sobreviventes iniciais, mas apenas 14 deles são realmente importantes, e todos eles têm seus méritos. A obra também brinca bastante com a simbologia, e tem uma capacidade fora do comum de apresentar mistérios e nos deixar curiosos pelo que vem a seguir. Apesar de todos os defeitos causados pelo excesso e o formato da época, consegui entender perfeitamente o porquê da influência da série.

Estão faltando duas pessoas nesta foto

Veredito

A primeira temporada de Lost tem clichês, uma história esticada e acabou não envelhecendo bem em alguns sentidos. Porém, é um diamante da cultura popular, com um número infinito de reviravoltas. Sua premissa de sobrevivência, que ditou o ritmo de várias outras obras futuras, consiste em dar um maior enfoque para os personagens e seus dramas, utilizando o mistério como um pano de fundo para nos manter fisgados e interessados pelos arcos seguintes. Os flashbacks nos ajudam na familiarização com cada rosto, e o resultado final é a mais pura curiosidade em descobrir o que diabos acontece naquela ilha. Nota final: 4,0/5.

Here Comes The…

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Pra facilitar as coisas, vou dividir os tópicos por personagem, em vez de ficar comentando a respeito dos acontecimentos da história (até porque é MUITA coisa, então é inviável escrever tudo aqui). Vamos lá.
  • Jack: ele possui um arquétipo que eu gosto bastante, o do líder obrigado a tomar decisões difíceis já que ninguém se prontifica a tomá-las. Só não curti tanto o Jack participando de incursões perigosas, envolvendo armas, logo nos episódios iniciais. Teria sido muito mais interessante vê-lo desempenhar o papel de médico, pra depois ir evoluindo suas outras habilidades. A respeito do seu passado, clássico problema de daddy issues que rendeu uma cena realmente boa com o Sawyer, quando este conta sobre o encontro com o pai em um bar na Austrália. O momento de maior brilho de Jack, porém, foi quando tentava salvar a vida de Boone.
  • Kate: começou como uma das melhores, por subverter a ideia de garota indefesa e ser na verdade uma criminosa. É uma pena que ela logo perdeu força e virou de fato a mulher disputada por dois homens de personalidades opostas. Espero que ela retome a sua própria identidade, porque me deixou entediado em alguns momentos, confesso.
  • Sawyer: meu irmão o odiou, dizendo que não parecia uma pessoa de verdade e que a série abusou demais em ficar mostrando o seu corpo toda hora. Eu concordo em partes, mas é um tipo de personagem que eu também gosto. Sim, tem hora que o seu jeito rebelde sem causa me dá um pouco de preguiça, mas acho que tem potencial e a sua história de origem é bem boa.
  • John Locke: eu comecei sentindo curiosidade, depois gostei dele, desgostei, então amei e em seguida odiei. Essa gigantesca variação é o que o torna um personagem tão bom, o melhor de Lost. Ele fez algumas coisas questionáveis como esconder a verdade sobre aquele bunker, mas também salvou geral diversas vezes. E, cara, o fato de ele ser paraplégico é sensacional, quero ver a cara de todo mundo quando ele finalmente revelar.
  • Charlie e Claire: you aaaall everybody. Então, Charlie foi um dos meus menos favoritos. Não gosto muito do personagem que se sente responsável por salvar uma garota aparentemente indefesa, e não curto muito tramas envolvendo usuários de drogas e seus vícios, porque raramente sai alguma coisa original. É um personagem meio meh, pelo menos por enquanto. Já a Claire eu gostei da história de origem, e tô muito curioso pra saber mais sobre o Anticristo que nasceu da barriga dela, ou Cabeça de Nabo para os íntimos.
  • Sayid: a parte em que o Charlie fica o empurrando após o bebê da Claire ser sequestrado, e o Sayid vai lá e segura o pescoço dele com uma mão, me fez xingar bem alto em êxtase. Sério, o cara é muito foda. Gosto muito do traço de ele ser a pessoa que todo mundo gostaria de ter em um grupo de sobrevivência (disposta a fazer coisas que ninguém tem coragem), mas todos o criticam por fazer exatamente aquilo que sabem ser necessário. A tortura do Sawyer é um grande exemplo disso.
  • Boone e Shannon: os mais sem gracinhas de Lost, junto com o Charlie. Foi o pior flashback pra mim, odeio essa ideia de que não tem nada de errado você se apaixonar por seu irmão postiço, porque não são “irmãos de sangue”. É uma ideia tão imbecil, pois quando você cresce com uma pessoa sendo a sua irmã, não tem essa de desenvolver uma paixão só porque não nasceram dos mesmos pais. E os dois personagens não são lá grande coisa também. Fiquei surpreso que mataram o Boone, pensei que ele duraria mais tempo, mas não posso dizer que fiquei chateado. O melhor momento dele foi justamente em seus últimos suspiros.
  • Michael e Walt: possivelmente o backstory de Lost que eu mais gostei. Não curto tanto o Michael, mas me senti muito mais conectado a ele depois da revelação de que a otária da história era a mãe, que colocou em suas mãos uma súbita e gigantesca responsabilidade. Sobre o Walt, quero muito ver o que ele é capaz de fazer, e espero que ele não saia machucado nas mãos daquela galera bizarra lá.
  • Sun e Jin: também gostei muito dos flashbacks envolvendo ambos. Quando descobri que ela falava inglês, fiquei chocado. E achei muito legal que eles mantiveram o Jin sem saber inglês, deixa a história com um pouco mais de veracidade. Seria uma facilidade narrativa muito grande se ele secretamente também soubesse falar.
  • Hurley: 4, 8, 15, 16, 23 e 42. Velho, que maravilhoso isso. Fiquei pensando em tantas histórias possíveis relacionadas ao passado dele antes de ser realmente mostrado, e não passei nem perto de acertar. Acho que, se formos parar pra pensar, as pessoas mais “importantes” da ilha são o Hurley, a Claire, o John e o Walt, certo? Por causa da parte sobrenatural e tal. Mas, ainda assim, parece que cada um ali tem uma razão para estar lá, e estão todos conectados de alguma forma. O Sawyer encontrando o pai do Jack, o Hurley passando na TV na casa de Sun e Jin, Boone e Sawyer na mesma delegacia, o Locke trabalhar na empresa cujo dono é o Hurley… e tantas outras coisas.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: John Locke
Dois estiveram no páreo por este prêmio. Sayid foi o meu favorito, mas o Locke me deixou mais intrigado e contribuiu de maneira mais massiva para o andamento de Lost. Ponto pra ele.

O pai do liberalismo

+ Melhor episódio: S01E18 (“Numbers”)
Foi difícil escolher o melhor, sinceramente. O 20 foi um dos meus favoritos, por ter sido intenso do começo ao fim, mas eu optei pelo 18 por dar o primeiro vislumbre de qual caminho Lost deve tomar daqui pra frente, com uma das melhores histórias de flashback.

Melhor casal *—–*

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?