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ArtigosdoLeleco #04: O mito do verdadeiro fã e a onda do modinha

modinha

• Eu sou mais fã do que você!

Quantas vezes você já disse que era fã de algo e veio alguém com um questionário em mãos, pronto pra descobrir se você era realmente fã ou só “modinha”? Se você é mulher, tenho certeza que essa situação é ainda pior, principalmente se tiver relação com algo nerd ou que tenha a ver com esportes. Pois é, o que define o verdadeiro fã? O que é mais importante, saber tudo sobre uma história ou senti-la? E, em cima disso, existe um jeito correto de consumir arte?

 

Quem é que define um fã?

Sem risadinha

Eu realmente não sei quem inventou o conceito de medição de fãs. Não sei se foi o advento da Internet, se foi a influência do YouTube, se isso sempre existiu e só ganhou força. O fato é que ninguém tem autoridade o suficiente pra definir sentimentos. Isso vai de encontro com o meu primeiro artigo aqui neste belo blog. A premissa é a mesma. Assim como nenhum crítico pode definir exatamente o que torna um filme bom, um fã jamais será capaz de definir quem é ou não é um fã de verdade.

Durante um evento da CCXP em São Paulo, estava eu e minha namorada andando pelos corredores. Eis que apareceu um rapaz vestido com as roupas do Desmond, de Lost. Minha namorada, que gosta bastante da série e se autoproclama uma fã, abordou esse jovem e até deu um abraço nele, conversando sobre a sua forte relação com a obra. O cara então disse que daria algumas balinhas se ela respondesse duas perguntas a respeito da história. Minha namorada não se lembrava, pois tinha assistido há muito tempo. O rapaz foi bem gentil e deu as balinhas mesmo assim, sorrindo com educação.

Apesar desse jovem não ter agido com pedantismo e feito apenas uma brincadeira pra que minha namorada conseguisse um prêmio, aquilo me fez refletir bastante. Se eu disser que sou fã de algo, mas não me lembrar do enredo, apenas do sentimento que aquilo causou em mim, eu sou um fã de meia tigela? Porque se for assim, eu tô ferrado. Tem muita coisa que me marcou durante a infância, adolescência e eu me considero fã. Contudo, se me pedir pra citar o nome de todos os personagens de Sons of Anarchy ou detalhes específicos sobre Friends, eu possivelmente vou titubear.

O ciúme daquilo que gostamos

Tá vendo isso aqui? Não existiria se não fosse pelos casuais que achavam que Peter Parker era o Batman

O que estou prestes a falar é puro achismo meu, baseado no conhecimento empírico e sem um pingo de embasamento teórico. Dito isso, acredito que grande parte dessa “síndrome do fã verdadeiro” tem a ver com os ciúmes que alguns têm de obras que furam bolhas. A partir do momento em que um público mais casual passa a consumir um produto pelo qual um fã nutre um apreço marcante, esse fã para de se sentir especial. Ele não é mais o único a gostar daquilo. Todo mundo conhece agora. E é aí que eu devolvo: será que esses fãs utilizam tal nomenclatura pra destrinchar seu apreço por uma obra ou apenas pra alimentar o próprio ego?

O pior de tudo é que se trata de um paradoxo. Para que uma obra ganhe projeção, é necessário furar bolhas. Não é o “fã verdadeiro” que sustenta uma adaptação da Netflix. Não é ele que faz com que o Universo Cinematográfico da Marvel faça sucesso. Quem faz isso é o público casual, aquele que maratona episódios no fim de semana e lota as salas de cinema. Esses sempre estarão em maioria. Portanto, se você deseja que o seu livro favorito vire filme, o primeiro passo é furar a bolha. Consequentemente, é necessário aceitar que você não será mais especial por ser o único a ter lido.

Apesar disso, eu entendo. Eu já fui assim. Já me senti meio enciumado por outras pessoas começarem a gostar de algo que eu “gostava antes de virar modinha”. E isso nos leva ao próximo tópico.

Existe mesmo essa tal de modinha?

Essas malandra, assanhadinha ♪

Não tem nada de errado com a modinha. Pô, vai falar que não era legal ver a galera vestindo os macacões de La Casa de Papel e fazendo funks a respeito quando a série estava no auge? Ou acompanhar o rebuliço que a Internet fazia a cada novo episódio de Game of Thrones? E, fugindo um pouco de filmes e séries, quão divertido não foi acompanhar o Big Brother em 2020, com cada pessoa do Brasil tomando um lado diferente?

A modinha é filha legítima do sucesso. Bom, ao menos comercialmente falando. E, pra que um produto sobreviva de forma estratosférica na cultura pop, é preciso que ele passe pela modinha. Às vezes, isso acaba sendo um tiro pela culatra, instigando produtoras a manter algo vivo somente pelo lucro. Por outro lado, será que teríamos uma série de The Witcher se os jogos não tivessem feito tanto sucesso? Será que Star Wars se manteria vivo por tanto tempo se não fosse o esforço conjunto dos fãs antigos e da nova geração?

Os únicos modinhas que pessoalmente me incomodam são aqueles que agem apenas por influência alheia. Não tem problema você gostar de uma obra que está em alta. No entanto, quando você passa a guiar o seu próprio gosto somente de acordo com o que é tendência, aí surge um problema. Pode não parecer grande coisa, mas gostar de algo puramente pelo “status quo” cria uma espécie de opinião definitiva que não existe, e isso tá totalmente relacionado com as redes sociais. Um exemplo besta e que cabe aqui é a banda Legião Urbana. Eu lembro de uma época em que todo mundo gostava. De repente, todo mundo passou a odiar porque alguém levantou esse ponto. No mundo cibernético, não existe meio-termo. Ou é 10, ou é 0.

Portanto, goste daquilo que te agrade, desgoste daquilo que te desagrade, seja fã do que quiser. Esteja sempre aberto a debates e jamais deixe de acatar um novo membro da sua comunidade de interesses. Todo mundo só tem a ganhar com isso. Acredite, não tem nada mais legal do que compartilhar as suas paixões com outras pessoas.

 

>> #01: O que torna um filme bom?

>> #02: Representatividade vs. fidelidade ao personagem

>> #03: A arte vale mais do que o artista?

 

Luiz Felipe Mendes
Criador do Pitacos do Leleco e crítico de maior autoridade no mundo do cinema