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ArtigosdoLeleco #02: Representatividade vs. fidelidade ao personagem

• A essência de um personagem

Eu pensei bastante antes de escrever este artigo. Afinal de contas, quem sou eu pra falar sobre representatividade, considerando que faço parte de praticamente todos os principais padrões sociais? Ainda assim, depois de refletir muito, decidi deixar bem clara a minha opinião sobre esse assunto. A maior motivação que me fez redigir foi a inserção de um elfo negro no universo de O Senhor dos Anéis, na vindoura série Os Anéis de Poder. Imediatamente após essa divulgação por parte da Amazon Prime Video, os famosos nerdolas começaram a protestar, argumentando que não existem elfos negros na ficção. Certo, vamos lá.

 

Tá achando que no mundo só tem um tipo de pessoa?

Moço, não sei se você viu, mas tem um rosto no seu peito

Cada vez mais nas adaptações cinematográficas e televisivas, roteiristas estão optando por mudar características físicas de personagens. Por que isso acontece? Resumidamente, estamos em um momento da História no qual a representatividade está ficando cada vez mais importante. Há alguns anos, a maioria esmagadora dos protagonistas de filmes populares era composta por homens brancos. Todos os principais filmes de ação, comédia e drama ostentavam essas figuras nos papéis centrais.

Ai, Leleco, mas faz tempo que existe o Will Smith, o Eddie Murphy e o Denzel Washington, então seu ponto não vale. Beleza, mas a cada dez grandes atores de Hollywood, pelo menos nove são brancos, né? E, pensando que o cinema serve como um espelho da realidade, não faz sentido consumirmos produtos que não se renovam. Se andamos na rua e vemos pessoas de todos os tipos, por que nas telonas essa visão não ganha espaço por meio da representatividade?

A gente sabe bem o motivo disso, mas vamos seguir em frente. Na época em que J.R.R. Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis, ele vivia em um contexto social completamente diferente de hoje. E não é porque ele criou seu universo de uma forma que isso automaticamente seja absoluto em uma adaptação. O mesmo vale para As Crônicas de Gelo e Fogo, ou Game of Thrones. Sim, o cenário de Westeros é baseado na Europa Medieval. Porém, não é a Europa Medieval. Não é uma representação histórica, mas sim uma ficção. E a ficção pode ser moldada, alterada e complementada. O que não se pode interferir é na essência dos personagens.

As aparências físicas de um personagem são o que o definem?

Geralt não tá muito bem ali atrás, não

Vamos trazer alguns exemplos. Constantemente, vejo nas redes sociais argumentações tão fuleiras sobre representatividade que não posso deixar de abordá-las. Leleco, você acharia certo o Ryan Gosling ser escalado como Pantera Negra, já que a Anna Shaffer foi escalada como Triss MerigoldPra quem não conhece o universo de The Witcher, Triss é uma das mais marcantes personagens, e a imagem que a popularizou foi a do jogo de videogame, no qual ela é branca e ruiva. Pra quem não conhece o Pantera Negra, aí tá na hora de sair da caverna.

Dois pesos, duas medidas? Por que a Triss pode ser negra e o T’Challa não pode ser branco? A resposta para isso é extremamente simples. O fato de Triss ser branca nos livros e no jogo é importante para a trajetória da personagem? Ou tanto faz se ela for branca ou negra? Agora, façamos o exercício contrário. Faria sentido o T’Challa, rei de Wakanda, uma nação africana, ser o Pantera Branca? Toda a motivação e a construção do universo do personagem estão totalmente atreladas à sua aparência física. Removendo isso, você tira a sua essência.

Também vale para o contrário, sim, mas calma

Alguém consegue imaginar o Sam Wilson tendo a mesma recepção nos anos 1940?

E, na minha opinião, é uma via de mão dupla. Seria estranho utilizar um Steve Rogers negro por causa do contexto da época retratada. Todos sabemos que os Estados Unidos são um país pra lá de racista. Eu não consigo imaginar o maior símbolo da nação, o Capitão América, sendo um homem negro em plena Segunda Guerra Mundial. Se os norte-americanos demoraram mais de 200 anos pra colocar um presidente negro no poder, eu duvido seriamente que teriam sido capazes de retratar o maior herói do país como um homem negro no século passado.

Os Weasley, de Harry Potter, são um outro exemplo possível. O fato da família ser ruiva tem suas repercussões na saga, como a fácil identificação entre os demais bruxos e um reforço constante a respeito dessa característica. Agora, mudaria alguma coisa a Hermione ser negra? Ou o Dumbledore? Ou o Hagrid?

Por isso, contanto que a mudança de aparência não interfira na essência de um personagem, não há por que reclamar de representatividade. E, sinceramente, se incomodar com isso ao ponto de boicotar uma série ou xingar o elenco de um filme já tem outro nome. Portanto, que saibamos aproveitar Heimdall, o mais branco dos deuses nos quadrinhos, na pele de Idris Elba no MCU. E, acima de tudo, que possamos enxergar que o mundo evolui, e a tendência é que traduza cada vez mais a diversidade humana dentro do imaginário popular.

 

>> ArtigosdoLeleco #01: O que torna um filme bom?

 

Luiz Felipe Mendes
Criador do Pitacos do Leleco e crítico de maior autoridade no mundo do cinema