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AnáliseRicardo #02: As ideias de Snyder na DC

• Snydeus no Snyderverso

Um começo turbulento, um meio desastroso e um final feliz? Isso não faz muito sentido, mas essa é a jornada de Snyder no universo expandido da DC. Vem comigo mergulhar mais fundo que o Aquaman atrás das ideias que sustentavam o castelo de Zack Snyder na Warner

Antes de você falar que estou sendo irônico e que estou de descaso com Zack Snyder depois de tudo que ele passou, gostaria de destacar que sou fã do diretor. Sim, por incrível que pareça eu sou fã de filmes como 300, Madrugada dos Mortos e Watchmen e esse artigo aqui é quase uma súplica de quem é fã de alguém e está observando esse alguém se perder no caminho que está seguindo. Dito tudo isso, vamos ao texto.

Vilões

Aqui não é especificamente sobre os personagens que o Snyder escreveu, até porque teria muito pano para manga, mas aqui nós vamos tratar diretamente dos responsáveis pela queda de Zack Snyder e pelo desenvolvimento da hashtag #ReleaseSnyderCut.

O primeiro responsável do qual podemos apontar com facilidade não é somente um, são vários: os executivos da Warner.

Para começo de conversa, a gente sabe que eles não escreveram os personagens, mas uma coisa inegável é o fato de que eles afetaram diretamente o desenvolvimento dos personagens. Adiantando Batman v Superman, largando todo o universo na mão de um diretor que deveria dirigir e guiar um universo compartilhado, demitindo o cara no pior momento possível e ainda fazendo exigências de cenas que atrapalharam o desenvolvimento de personagens como o Superman.

Você está pronto para a decepção? Então vamos lá.

Homem de Aço

Sinceramente, esse tinha tudo para ser um dos melhores filmes do herói. Falo com tranquilidade e respeitando completamente o filme de Christopher Reeve. Mas duas coisas prejudicaram esse filme e o transformaram em esquecível: a direção e a produção.

Dois atores fodas como Russell Crowe e Michael Shannon criaram a aura de Krypton como eu acredito que nunca foi visto antes. O melhor momento foi todo o desenvolvimento em Krypton, isso sem contar com o desenvolvimento do Superman em toda a conversa com o pai e em como foi criado.

O problema está na cena de batalha final, onde esse desenvolvimento do Superman parece ter sido jogado fora durante a batalha contra os generais do Zod. Aquele Superman que enfrentou uns babacas no bar para proteger a mulher deixa de existir quando a nave de Krypton chega a Metrópoles. O Superman que “sacrificou” seu pai e buscava ajudar as pessoas foi completamente ignorado com a cena do beijo na Lois com uma pá de gente morta na cidade.

Se o diretor e o roteirista não dão valor o suficiente para o desenvolvimento do próprio personagem, por quais motivos eu, um telespectador, tenho que dar valor a um personagem desse?

Por mais que a cena da batalha e até mesmo do beijo fossem uma exigência dos executivos da Warner, ele é um cara extremamente inteligente e conhecedor do cinema para saber que algumas coisas não ficariam boas como as que ele colocou.

Eu sou um dos caras que mais adora adaptações e mais busca entender que as décadas mudam os pensamentos e as formas de contar histórias. Não tenho problemas com um Superman mais pessimista e fechado, se ele for o Superman que busca ajudar os outros e se mostrar um personagem forte com um desenvolvimento pelo menos interessante, aí eu tô nas nuvens.

O Superman é um personagem três em um. Kal-el, Clark e Superman. Cada um dos três ali tem um propósito. Kal-el é o órfão que perdeu tudo e vive de aluguel. Clark é o “humano” que foi criado para nos conectarmos com o personagem. E o Superman é o herói apelão com uma bússola moral que guia o que é no mínimo um bom senso.

No Homem de Aço, esses personagens foram resumidos em dois. Kal-el e o Superman, sendo que esse Superman tinha acabado de surgir e jogou fora todo o aprendizado que tinha conseguido como Kal-el.

Não adianta culpar apenas os executivos quando o problema tá com quem guia a história. Mas esse foi o primeiro filme e, como executivos, os engravatados da Warner já poderiam tirar o Snyder da roteirização, até porque se ele errou em dois pontos, talvez ele pudesse estar com coisas demais para fazer.

Batman v Superman

Esse é uma decepção à parte.

Lembra que falei que Homem de Aço falhava só no fim jogando fora o que desenvolveu? Pois então, Batman v Superman consegue não ter desenvolvimento para nenhum dos personagens.

Então por que é tão ruim? Porque além de um filme sem desenvolvimento, o final ainda é mais bagunçado do que todo o filme.

Um Batman com ótimas cenas de ação, um Bruce Wayne que oscila entre um babaca e um cara que salva criancinhas, um Batman até que bom. Mas a verdade é que o Batman é um personagem bem menos complexo que o Superman, como já vimos.

O nosso Superman ainda não tem um desenvolvimento, aparentemente o Clark Kent não existe para além de facilitações de roteiro, porque não existe motivo algum para ele ser jornalista, aparentemente. Cara, se ele fosse alguém que conhecia o Superman particularmente ou se ele fosse apenas um estagiário da Lois Lane faria muito mais sentido do que ele brotar no Planeta Diário. Como eu disse, facilitações narrativas.

Temos um Lex Luthor que deveria se parecer com um empresário. Sim, ele não só parece com um empresário como é praticamente o Mark Zuckerberg de A Rede Social. O desenvolvimento desse personagem parece que já estava pronto de outro filme e o roteirista, no caso Zack Snyder, sé copiou o estilo e adicionou os surtos que poderiam claramente ser do Coringa do Jared Leto.

Além dos personagens masculinos, ainda teríamos as personagens femininas e aqui é onde eu mais encontro problema.

A principal é a muleta utilizada pelo roteirista e diretor com a Lois Lane. Cara, qual o problema de deixar que o interesse amoroso de um personagem masculino faça algo de relevante?

Lois em BvS serviu apenas para mostrar que era uma jornalista privilegiada por cobrir o Superman. Embora eu já não concorde tanto com isso, até passa. Mas uma mulher que cobriu guerra, quase foi morta e ficou presa com um alienígena no filme anterior simplesmente serviu para uma coisa no filme inteiro, falar que Martha era o nome da mãe do Clark.

A mãe do Clark era a donzela em perigo. O fato de as mães terem o mesmo nome é algo genial, utilizado de forma burra. Poderiam ter trabalhado tudo isso o filme inteiro. Mas isso foi “tocado” no começo do filme e ignorado, assim como cada “pista” do que era para ser um quebra-cabeça ou disputa ideológica que levaria ao embate final.

O último e talvez principal personagem a ser descaracterizado é a Mulher-Maravilha, que foi resumida a uma Bond Girl do século 21. Ajuda na briga, é bonita e misteriosa. Eu vou falar mais sobre ela no próximo tópico, até porque o Zack Snyder produziu Mulher-Maravilha, mas você percebe que com as cartas jogadas na mesa dava para ter trabalhado muito melhor?

Interesse amoroso do Super? Uma jornalista foda que cobriu várias guerras, ela resolveria o “mistério” que o Lex Luthor estava forçando em muito pouco tempo.

O lance da mãe dos dois. Puts, tantos jeitos de resolver isso, acho que o principal era pelo menos trabalhar um pouco mais do apego dos dois com a mãe.

Batman v Superman tem ideias muito boas e execuções fracas e ruins. As ideias foram dos produtores com o Zack Snyder, mas a direção do Snyder derrubou as próprias ideias dele.

Mulher-Maravilha

No filme de 2017, Zack Snyder ficou apenas com o papel de produtor. Por mais que a ideia de Diana de 300 me deixasse meio confuso, o que fez uma diferença para mim foi a direção da Petty Jenkins.

A leveza que ela entregou para a personagem, a graciosidade que a Diana trouxe no primeiro filme foi algo incrível e prazeroso de se ver. A história é uma história de origem genérica, mas é sobre uma personagem que demorou a ganhar seu filme, que precisava ser tratada como uma personagem foda que era, e não ser tratada como mais uma das guerreiras de Sucker Punch.

Como produtor, Zack Snyder conseguiu até guiar um pouco melhor a história que eu acho que ele queria contar. Talvez esse fosse o lugar dele, como produtor.

Liga da Justiça

Boatos que surgiram em 2018, antes do lançamento de Liga da Justiça, falavam sobre o filme não ser do Zack Snyder. Falavam que ele havia roteirizado e os executivos haviam mudado quase tudo. Disseram que ele havia filmado as cenas de acordo com o que foi pedido e sem o toque do próprio diretor. Não tem como eu falar que esse filme é dele, até porque esse Frankenstein é culpa da própria Warner.

Falavam que o Liga do Snyder não teria piada, quando no próprio trailer que ele lançou já tinha as piadas ridículas. Falavam que o Liga ia ser mais bem estruturado com os filmes anteriores, se isso for verdade, vão ter que fazer um retcom praticamente. O filme do Snyder era a pior decisão a ser pedida agora, a prova disso é o fato de que eles chamaram os atores novamente para filmar algumas outras cenas. Não, eles não foram refilmar algumas cenas, o próprio Snyder deixou isso claro.

Foi vergonhoso o que a Warner fez com o diretor, isso é indiscutível, mas o Liga da Justiça da Warner não tem só um culpado.

Zack Snyder, os patrões e as crianças

Diante de toda a criação do universo que era para ter sido do Christopher Nolan (sim, a história inicial do Superman veio do Nolan), Zack Snyder conseguiu tomar decisões equivocadas desde o começo.

No universo do cinema, é claro que você precisa tomar decisões para fazer o seu filme. Mas Zack Snyder estava acostumado a pegar histórias sem tanto peso, personagens sem tanto peso e alterá-los do jeito que acreditava ser o ideal. Aqui, meus caros amigos, nós estamos falando de Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash… Isso aqui é patrimônio histórico da cultura pop, você precisa tomar cuidado com o que vai adaptar e principalmente como vai adaptar.

Em um mundo onde o niilismo já toma conta, trazer um dos personagens que carrega no peito o símbolo de esperança e transformá-lo em cínico é um tanto triste. Mostra de fato que não se pode ter esperança nem quando se vai ao cinema.

Trazer um personagem que é um dos melhores detetives da cultura pop e o transformar em um bobo que não consegue resolver uma série de “pistas” de um empresário maluco, é decepcionante. Isso é o que foi trabalhado de forma direta pelo Snyder, e por mais que eu seja fã desse diretor, o Snyder não tinha ideia do que fazer com os personagens.

Veja, personagens fodas merecem desenvolvimentos fodas. Isso é feito através dos textos, de narrativas. Zack Snyder, desde 2006 com o filme 300, mostra que sabe sim fazer cenas incrivelmente bonitas esteticamente, para mim ele é um enorme acerto como diretor de filme de ação. Mas desde 2006 com o filme 300 que ele também mostra que as cenas de ação dos filmes dele valem bem mais do que sua escrita.

Sem a escrita, não temos ideias para tirar do papel e, sem ideias para tirar do papel, não temos filme.

Esse era o melhor caminho para o diretor, o afastamento dele dos filmes da DC. Pois foi nesses momentos longe dos quadrinhos que ele se sobressaiu, vide o maravilhoso Madrugada dos Mortos.

Para os patrões, essa é a melhor opção a ser seguida desde o segundo filme desse “universo cinematográfico”. Com isso, novos diretores poderiam aparecer e, assim como a Marvel, você poderia colocar o seu produto acima das pessoas.

Para as crianças, no caso nós, resta torcer que seja pelo menos um final adequado para o Snyder. Se nós ficamos sentidos por tudo que aconteceu com o diretor, precisamos deixar que ele saia de cena e trabalhe do jeito que merece. Na DC, na Marvel e em qualquer outro estúdio com personagens fortes diante da cultura pop, Snyder não vai conseguir entregar algo novo, até porque ele ainda não saiu de 2006.

 

Ricardo Gomes
O Sharkboy que estuda Jornalismo e ama o cinema

 

>> AnáliseRicardo #01: WandaVision é a mensagem

 

Este texto faz parte de um quadro de colaborações com outros redatores. O artigo não foi escrito pelo maravilhoso Luiz Felipe Mendes, dono do blog, e portanto não necessariamente está alinhado às ideias dele.