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Orange Is The New Black: 2ª Temporada (2014)

Orange Is The New Black
Orange Is The New Black

• Vim, Vee, venci

Como encontrar o equilíbrio entre criar personagens carismáticas e evitar com que o crime seja romantizado na ficção? Não é muito fácil. É mais do que corriqueiro na cultura popular vilões serem celebrados como se fossem exemplos de imposição e atitude. O antagonista matou milhares de pessoas inocentes em sua história? Que se dane, ele usa uma roupa legal e tem um visual marcante! Não que tenha algo de propriamente errado em pensar assim. Eu sou um fã incondicional de vilões bem escritos, e acho que isso faz mais diferença do que um herói bem escrito. Contudo, ao abordar uma temática tão próxima da nossa realidade – o encarceramento -, é preciso ter muito cuidado para que a prisão não seja retratada como um ambiente relativamente divertido e com pessoas simpáticas. É claro que não podemos também tratar tais locais como se fossem covis de bestas, e é justamente o que torna essa área tão cinzenta. Orange Is The New Black conseguiu encontrar um certo equilíbrio em sua primeira temporada, mas a segunda fez isso com muito mais competência.

 

Sinopse

Piper Chapman perdeu totalmente as estribeiras. Para se defender de Tiffany Doggett, ela derrubou a adversária e começou a espancá-la dolorosamente. A segunda temporada começa com Piper na solitária, nas vésperas de ser transportada para outra prisão. Amargurada e arrependida, Piper desenvolve cada vez mais o seu lado sem escrúpulos, principalmente quando se encontra diante de uma situação que potencializa essa atitude. Em Litchfield, a vida continua tão normal quanto possível. Uma feira de empregos promete agitar o dia a dia no estabelecimento, e cada personagem segue lidando com suas dores e dilemas. Entretanto, a chegada de uma nova prisioneira tem tudo pra mudar radicalmente o funcionamento das coisas. No “mundo exterior”, Larry Bloom depara-se com questionamentos acerca de seu próprio futuro.

Qual é a detenta que mais gosta de promoções? A Alex Voucher
Qual é a detenta que mais gosta de promoções? A Alex Voucher

Crítica

O começo da temporada é estranho. A trama toma um caminho inesperado e dedica o primeiro episódio inteiro a Piper. A quebra de expectativas em relação ao cliffhanger da temporada anterior me deixou um pouco desapontado, ainda mais porque o enredo literalmente se distanciou demais do cenário corriqueiro de antes. Isso fez com que a resolução do conflito tivesse sua importância diminuída, sabotando um pouco o que tinha sido feito para prender a nossa atenção na sequência da história. O segundo capítulo faz o inverso, distanciando-se da protagonista e focando na nossa penitenciária favorita. Apesar de ter um arco divertido, parece que continua faltando algo… amarrar as pontas soltas deixadas para trás.

Apesar do início meio irregular, perdido e lento, a temporada começa de vez a partir do terceiro capítulo. Uma nova personagem é apresentada, Vee Parker, que coloca a prisão de cabeça para baixo. A princípio, gostei demais dela, porque adoro personagens que chegam chegando e mudam toda a dinâmica de um local. Com o tempo, no entanto, ela transformou-se em uma legítima vilã, e o meu apreço por ela alterou-se radicalmente. A minha admiração por Vee teve uma nova perspectiva. Uma boa antagonista é aquela que consegue fazer nós sentirmos ódio dela, sem que fiquemos com raiva do roteiro ou da atriz. Sob a sua influência, o ritmo da trama é definido.

Com o enfoque gradativamente se instalando nas atitudes da Vee, a narrativa decide que não precisamos ver tanto assim da Piper. Ela teve uma temporada inteira para que suas dores e motivações fossem exploradas, e isso não é mais necessário. Ainda que o enredo se desenrole com Piper no centro, ele não depende dela pra deslanchar. Piper vira apenas uma engrenagem da máquina de Orange Is The New Black. Uma engrenagem particularmente importante, mas com várias outras engrenagens trabalhando com igual afinco. A diminuição do protagonismo da Piper foi um acerto gigantesco, pois a série conseguiu ir resolvendo aos poucos as pendências da Piper Cidadã para que ela concluísse de vez sua metamorfose como Piper Detenta.

A narrativa da segunda temporada diminui alguns excessos, mas insiste em episódios longos. Isso torna a experiência um pouco cansativa. Certos núcleos poderiam ser diminuídos ou a série poderia ter tido 16 episódios em vez de 13, a fim de distribuir melhor os acontecimentos. Teve uma madrugada que eu passei horas assistindo à série com minha namorada, e, quando fomos dormir, percebemos que havíamos visto apenas quatro capítulos. Essa característica faz com que OITNB seja, paralelamente, maçante e perfeita de maratonar. Maçante porque episódios de uma hora de duração são exagerados. Perfeita pois o roteiro não deixa a nossa atenção escapar facilmente.

O mérito central da primeira temporada de Orange Is The New Black tinha sido a capacidade de desenvolver a trajetória de uma mulher “certinha” que entrara em um ambiente hostil, em meio a pessoas de motivações duvidosas. Não dava pra seguir na mesma premissa. Por isso, em seu segundo ano a obra se concentra na divisão causada pela influência de uma figura de autoridade dentro de um grupo específico. Além disso, as histórias pessoais das detentas estão mais instigantes, proporcionando uma curiosidade crescente pelo passado de cada uma. Alguns personagens caem de produção, como Bennett e Daya, mas a maioria ganha novas camadas, mesmo que isso diminua o nível de carisma delas.

Tem um ponto da temporada no qual o enredo te pega de vez. Mais ou menos na metade, eu não queria mais saber de nada, só desejava o capítulo seguinte. Em sua reta final, a segunda temporada é impecável e entrega um dos melhores desfechos que eu já vi até hoje na televisão. Surpresa, choque, apreensão, satisfação e emoção são exemplos de sentimentos que compõem os acontecimentos derradeiros da trama. Fazia tempo que eu não concluía uma obra e ficava com uma determinada cena gravada em meu cérebro por horas a fio.

O bonde das latinas

Veredito

A segunda temporada de Orange Is The New Black é esperta. Sim, os episódios são grandes demais para o próprio bem da série, e isso às vezes diminui a qualidade geral da experiência. E sim, os primeiros capítulos são mornos e dispersos, contrastando com a temporada anterior. Mas quando decola, gente, é difícil parar de ver. A história principal é instigante, os arcos secundários são interessantes de diferentes maneiras, seja pelo lado do drama ou do humor, as personagens ganham perspectivas agregadoras e a obra navega por lados diversos, jamais se contentando em ficar parada por muito tempo em um lugar só. O abandono de núcleos mais tediosos deu um frescor ao enredo, e o ritmo dos acontecimentos nunca fica lento ou frenético demais. A conclusão não tem defeitos, e é o tipo de final que me faz parar para digerir por muito tempo, uma singularidade rara hoje em dia. Nota final: 4,5/5.

This season is Soso good!

 

>> Crítica da 1ª Temporada de Orange Is The New Black

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Como devo começar? Bom, acho que com a Piper e a Alex. É sério que tem gente que torce por esse casal? Elas parecem entrar sempre em um mesmo ciclo vicioso. A Alex não dava bola pra Piper, então a Piper a abandonou no dia em que a mãe de sua namorada morreu. Em compensação, a Alex pediu pra Piper mentir no julgamento, e ela foi lá e contou a verdade pra se livrar do Kubra. Então, a Piper causou a prisão da Alex ao denunciá-la indiretamente. Pensando bem, acho que elas se merecem mesmo. Enquanto isso, o Larry tá lá com a Polly. Que sejam felizes, eu acho.
  • Muito louco pensar que a Suzanne salvou a pele da Piper ao acertá-la no rosto como vingança e fazer parecer que tinha sido a Caipira. É uma pena que a Suzanne continuou nessa onda de bater nas pessoas e agrediu até a Poussey, que era a única corajosa o suficiente pra bater de frente com a Vee. Taystee (ok que ela tinha uma razão pra isso, afinal de contas a Vee foi a mãe adotiva dela), Cindy, Watson e Suzanne eram todas gados da Vee.
  • Foi interessante de ver a Soso na série, porque ela fez quase as mesmas coisas da Piper no começo, com a diferença dos banhos não tomados. Fora isso, foi massa de ver o contraste entre a novata e uma detenta um pouco mais experiente, mas que como novata teve as mesmas atitudes.
  • Incrível a Red na jardinagem. Reinventou-se após sair da cozinha, iniciou um negócio de sucesso e conseguiu recuperar a sua influência dentro da prisão. Isso é que é jogadora.
  • Saudades da Claudette :/ será que ela ainda vai aparecer no futuro?
  • A história da Morello foi a melhor e a mais real até aqui. A série meio que minimizou várias vezes os antecedentes da galera, fazendo as assassinas matarem pessoas que não tivemos um pingo de simpatia. Com a Morello foi diferente. Ela ser stalker e ter ameaçado de morte o Christopher, além de nunca sequer ter namorado com ele, foi forte pra caramba.
  • Litchfield é de segurança mínima, então talvez faça sentido as detentas terem crimes mais amenos, pelo menos até onde eu vi. Só que, ainda assim, tem gente lá há décadas, então não dá pra saber com certeza. Mas às vezes tempo de pena não tem a ver com a periculosidade de cada prisioneira, né.
  • Gloria presa por fraudar dinheiro do governo, tinha mais era que ser parabenizada
  • Não entendi muito bem a história da Poussey. O pai dela era do Exército, ok, e o pai da namorada dela também. Mas o pai da mina era alemão e o pai da Poussey era dos EUA. Como funciona essa hierarquia? E por que será que a Poussey foi realmente presa? Fiquei bem na dúvida.
  • A competição entre a Nicky e a Boo pra ver quem ficava com mais mulheres foi divertida demais de ver. Poderia ficar a série inteira nisso que eu acharia legal, as duas formaram uma ótima dupla.
  • Momentos icônicos da série: aquela detenta idosa fugindo da prisão pela porta da frente e aparecendo no show do Caputo. Foi triste vê-la sendo levada de fato da prisão e deixada em uma rodoviária. Nem sei se aquilo pode ser considerado misericórdia.
  • Engraçado que eu nunca tinha enxergado Poussey e Taystee e Flaca e Maritza como algo além de amigas, e a série até brincou com isso. As duas últimas chegaram a tentar algo pela carência, mas não deu em nada por causa da amizade.
  • Sabia que ia dar merda a Piper falando pra geral que conseguiu uma licença especial pra ir ao funeral da avó. O que ela esperava? Quando eu penso que tá evoluindo, ela vai e fica boba de novo.
  • Não esperava que a Fischer fosse ser demitida pelo Caputo. Ah, e eu jurava que ela seria uma pessoa secretamente horrível, mas era realmente gente boa.
  • Adorei a greve de fome da Jane, e as freiras indo protestar contra a administração da prisão. Se pensarmos bem, a Fig se livrou de um problemão depois de se demitir. Agora quero ver como vai ficar o casamento dela, já que seu marido senador não está tão interessado nela romanticamente, por motivos óbvios.
  • O Healy me dá nos nervos, é o tipo de cara que se acha o cristal da bondade simplesmente por fazer o mínimo. Ele com o seu “lugar seguro” ficou parecendo coach achando que é psicólogo.
  • Sobre o rolê envolvendo Daya, John e Mendez: é sério que ninguém cogitou a possibilidade de o Mendez fazer um exame de DNA e dar negativo? Se isso acontecesse, a diretoria da prisão provavelmente pediria pra todos os guardas fazerem o teste, e aí o John seria demitido e preso. Pelo menos, conseguiram armar pra cima do Mendez e ele saiu fora da jogada. Por enquanto, pelo menos.
  • Eu jurava que a Vee não passava de uma covarde, e me surpreendi bastante quando ela meteu o cadeado na Red e fugiu da cadeia. Nada daquilo teria acontecido se não fosse a miopia da Taslitz, que esfaqueou a mulher errada.
  • Melhor. Cena. De. Todas. A Rosa recebendo as chaves da Morello e indo embora pra morrer do seu jeito já estava sendo ótimo, mas quando ela viu a Vee na beira da estrada e a atropelou sem nem titubear, a cena ficou espetacular. Assim que a série fez a transição entre a Rosa mais velha morrendo de câncer e a Rosa jovem roubadora de bancos, ao som de “(Don’t Fear) The Reaper”, o desfecho me deixou sem palavras. Achei fenomenal a Vee ter sido morta pela pessoa mais improvável possível, meramente porque foi mal educada com a Rosa em uma ocasião. Só de lembrar eu me arrepio.
  • Definitivamente eu não gostaria de ter o emprego do Caputo agora. Ele vai ter de lidar com um monte de freiras protestando na porta da prisão, arcar com as fugas e paradeiros de duas prisioneiras e carregar o peso da verdade acerca da gravidez da Daya. Um caminho complicado que o membro da banda Side Boob terá pela frente.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Red
Ela bateu na trave na temporada anterior, ficando atrás apenas da Piper. Desta vez, Red não deixou o prêmio escapar. Personagem forte, mas com evidentes fragilidades; consciente de sua força, mas insegura em suas fraquezas. Ninguém brilhou mais do que a Rainha Vermelha neste ano de Orange Is The New Black, embora Gloria tenha chegado perto em seu auge.

Briga de gente grande

+ Melhor episódio: S02E04 (“A Whole Other Hole”)
Houve muitos capítulos sólidos nesta temporada, como o oitavo e o último. Escolhi o quarto porque mostrou finalmente a magnitude do impacto das ações das detentas em outras pessoas, algo que a série tinha pecado em fazer até então.

Na alegria e na tristeza

+ Maior evolução: Joe Caputo
Muitas personagens poderiam ter preenchido essa vaga, como Poussey e a freira Jane. Porém, apesar de suas falhas, Caputo mostrou ser o único funcionário de alto escalão minimamente decente em Litchfield, e a série conseguiu explorar mais a sua personalidade.

Cuidado, senão ele fiCaputo com você

+ Mais subestimada: Rosa
Esta foi disputada. A Suzanne “Crazy Eyes” Warren começou a temporada como a principal postulante a essa premiação, mas caiu de produção com o tempo. A carcerária Fischer também flertou com a categoria, mas no final das contas quem mereceu mesmo foi essa mulher maravilhosa aqui.

Rosa não tem tempo para suas brincadeirinhas

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?