• Ilha dos milagres
Tem poucos diretores na indústria de cinema e televisão que eu confio totalmente que vão me entregar um conteúdo de qualidade. Um deles é Mike Flanagan. As três minisséries que eu assisti do homem, A Maldição da Residência Hill, A Maldição da Mansão Bly e A Queda da Casa de Usher, são sensacionais. Até hoje, eu ainda não havia assistido Missa da Meia-Noite porque não ouvi muita gente falando dela na época, e acabei me esquecendo de conferir. Enfim corrigi esse erro, porque esta é mais uma série excelente do catálogo.
Sinopse
Riley Flynn terminou de cumprir a sua pena na prisão, depois de dirigir bêbado e matar uma pessoa em um acidente. Ele volta pra casa dos pais na pequena Ilha Crockett, que possui 127 habitantes permanentes. É um lugar pacato, mas a chegada de um padre misterioso traz milagres e movimenta a vida dos moradores.

Crítica
Quando eu percebi que Missa da Meia-Noite havia sido lançada em 2021, achei genial como Mike Flanagan utilizou as restrições da pandemia da Covid-19 a favor de sua história, ao concentrar as ações em um lugar de escassa população. Após descobrir que a série começou a ser produzida em 2019, a minha teoria foi por água abaixo, mas isso não invalida o ponto que eu trouxe, de que o cineasta faz bom uso da ambientação caracterizada pelo isolamento.
Se você assistir Missa da Meia-Noite esperando por características mais fortes de terror, como nos outros trabalhos de Flanagan, é possível que se decepcione. Não é uma série de terror com elementos dramáticos, mas sim uma série de drama com elementos de terror. Em toda a temporada, dá pra contar nos dedos de uma mão a quantidade de sustos ou sequências criadas pra provocar medo na gente. Em vez disso, a proposta é abordar como a religião pode ser uma fonte de esperança e estabilidade nas mãos certas, e uma arma perigosa nas mãos erradas.
Além da ambientação, que faz a gente se sentir como se estivesse de fato na fictícia Ilha Crockett, a força de Missa da Meia-Noite está no roteiro e no desenvolvimento dos personagens. As cenas são longas e os diálogos são frequentes. Não só os diálogos, porque temos diversos monólogos do Padre Paul, durante a homilia das missas. O intuito é provocar intelectualmente não apenas os habitantes da ilha, mas nós, espectadores. E isso é feito de maneira inteligente, sem tomar partido, mais ou menos o que acontece no filme Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out. Mas as semelhanças param por aí, já que nesta série há a presença de aspectos fantásticos.
A história também é muito boa ao nos induzir ao erro. Ela começa dando foco em determinados personagens, apenas pra botá-los de escanteio pouco depois. A trama ensaia um certo caminho, mas faz a curva e altera a rota. Com isso, as coisas acabam ficando meio imprevisíveis. E mesmo quando há previsibilidade, ela vem acompanhada da expectativa.

Veredito
Missa da Meia-Noite é mais um bom trabalho da ótima carreira de Mike Flanagan. É uma minissérie mais lenta, com ápices menos destacados do que A Maldição de Residência Hill, por exemplo, mas é fiel à sua própria ideia do começo ao fim, fugindo do terror mais explícito ao enveredar por discussões filosóficas e religiosas. Não é todo mundo que vai gostar, mas quem curte diálogos bem escritos, mistérios instigantes, personagens fortes e uma ambientação única precisa dar uma chance.

+ Melhor personagem: Bev Keane
Fazia tempo que eu não via uma personagem tão odiável assim. Atuação impecável de Samantha Sloyan. Destaco também o Padre Paul, o Xerife Hassan, a Erin Greene e o Riley Flynn.

+ Melhor episódio: E04 (“Livro IV: Lamentações”)
Aqui, a história engrena de vez e temos o melhor diálogo da temporada, que me manteve com os olhos grudados na tela do início ao fim.

FICHA TÉCNICA
Nome original: Midnight Mass
Duração: 7 episódios
Produção: EUA
Showrunner: Mike Flanagan
Direção: Mike Flanagan
Elenco principal: Zach Gilford, Kate Siegel, Hamish Linklater, Samantha Sloyan, Rahul Kohli, Annabeth Gish, Kristin Lehman, Henry Thomas, Alex Essoe, Annarah Cymone
—- OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. CASO NÃO TENHA VISTO, PULE ESTA SEÇÃO —-
- Depois do Riley ser atacado pelo anjo vampiresco e ficar subentendido que ele morreu, eu fiquei um pouco desapontado quando ele “voltou à vida”, porque pra mim era a série deixando de tomar uma decisão corajosa ao livrar-se do protagonista antes mesmo do fim da temporada. Porém, quando terminou aquele mesmo episódio e o Riley entrou em combustão espontânea, eu aplaudi a decisão criativa.
- E por falar no anjo vampiresco, vocês acham que ele de fato morreu? Eu acho que sim, mas fico pensando nos motivos pelos quais a série não mostrou explicitamente o bicho sendo aniquilado pelo sol. Será que era o Mike Flanagan abrindo margem pra utilizar a criatura em alguma outra obra dele? Ou foi apenas pra deixar a eterna dúvida (literalmente) no ar?
- Achei perfeito como a Bev, que agia como a dona da verdade e a fiel mais fiel de todas, foi a única que não aceitou a morte de braços abertos e tentou enterrar a si mesma pra se esconder do sol. Grande arco de personagem.
- Pô, ainda bem que o xerife morreu antes do filho, pra não ter que vê-lo queimando como os outros.
- Eu jurava que o Warren, irmão do Riley, seria meio que o co-protagonista da série, até pelo destaque que ele ganhou no primeiro episódio. Fiquei surpreso com o quanto ele ficou de lado na história, mas fez sentido quando foi o único sobrevivente, ao lado da Leeza. E que final belíssimo aquele, cara.
- Outra coisa que eu gostei foi como a série não fez juízo de valor sobre a culpa de Riley. Ele ganha um arco de redenção, mas sem jamais apagar a sua responsabilidade na morte de uma mulher inocente. Poucas vezes eu vi isso sendo trabalhado de maneira tão boa em uma série ou filme, sem deixar o personagem como um “coitadinho”.
———- FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS ———-
Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco
Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco
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Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco
Nota nº 5: sabia que eu agora tenho um canal no YouTube? Não? Então corre lá pra ver, uai: Pitacos do Leleco
Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?