• O caminho mais fácil
Ao longo da 5ª temporada de Stranger Things, dividida em três partes, eu fui um dos grandes defensores da reta final da série. Até falei sobre isso no meu artigo sobre o efeito manada no cinema e na televisão. Eu reconhecia que não era do mesmo nível da 1ª e da 4ª temporadas, por exemplo, mas o Volume 1 me fez acreditar que estava no mesmo patamar da 2ª e um pouco superior à 3ª. Após o Volume 2, senti uma queda na qualidade, mas nada desastroso ao estilo de Game of Thrones ou House of Cards. Depois do último episódio, saí desapontado e parei de relativizar alguns defeitos. Vamos lá pro primeiro pitaco de 2026!
Sinopse
Um ano e meio depois dos eventos da 4ª temporada, Hawkins está dividida por um suposto terremoto bizarro. Os militares tomaram conta da área mais crítica e estão atrás de Eleven, que consideram como a principal culpada. Enquanto isso, os nossos heróis tentam encontrar uma maneira de acabar de uma vez por todas com Vecna, que não dá nenhum sinal de vida.

Crítica
Vamos falar sobre as coisas positivas primeiro. Stranger Things é impecável na construção de sua mitologia. Neste sentido, a série sempre tenta trazer novidades ou algum senso de inovação. Na última temporada, optaram por desconstruir o Mundo Invertido e dar um novo sentido a ele, algo arriscado nessa altura do campeonato. Até por isso, vi algumas divergências – uns gostaram, outros nem tanto. Eu achei legal, principalmente por causa dessa coragem.
A construção dos cenários segue ótima. Vemos aqui uma Hawkins decadente, um Mundo Invertido mais presente e personagens que são identificáveis imediatamente através da parte artística, como figurino. Temos novidades agradabilíssimas também, como o arco inesperado de Holly e de outras crianças, o resgate de Mike como alguém interessante pro grupo, o aumento da relevância de Will e momentos realmente icônicos. Não poderia deixar de mencionar também a atuação de Jamie Campbell Bower como Henry Creel/Vecna, de longe a melhor interpretação da temporada.
Agora, vamos às coisas ruins; quase todas elas têm a ver com a conclusão. Infelizmente, a série escolheu o caminho mais fácil, isto é, transformar o desfecho em um final de novela previsível e sem brilho. Eu escrevi no meu pitaco de Revisitando Stranger Things que a falta de mortes impactantes não era necessariamente um defeito, embora seja óbvio que faltava um pouco de ousadia aos criadores. Aqui, por outro lado, acho isso uma característica negativa porque havia muita coisa em jogo e não deu pra sentir o verdadeiro peso de uma guerra. E fica pior pelo fato de haver um elenco demais, com pelo menos uns cinco personagens sobrando.
Se Stranger Things não tivesse mudado tanto o seu tom na 4ª temporada, acho que o final da 5ª seria totalmente condizente com a série. Afinal, é uma produção focada em adolescentes e jovens adultos, e essa é uma grande parcela do público-alvo. No entanto, a série optou por um caminho semelhante ao de Harry Potter, com um início mais infantil e uma reta final mais madura e sombria, com perdas que se alinham à mudança de atmosfera. Por isso, quando se acovarda de tomar decisões impactantes aos 45’ do 2° tempo, já que os primeiros episódios da 5ª temporada mantêm o tom da 4ª, esse contraste acaba chamando a atenção negativamente.
O roteiro é outro elemento que escorregou no último ano de Stranger Things, com algumas incoerências e diálogos pouco inspirados. Além disso, acredito que essa seja a pior temporada no quesito atuações – parecia que estava quase todo mundo trabalhando no automático. Millie Bobby Brown é talvez a pior. Eu nunca a achei uma atriz tão ruim quanto pintam por aí, mas na 5ª temporada não dá pra defender. E eu não gosto de falar da aparência das pessoas na hora de fazer críticas acerca de seus trabalhos, mas a quantidade de intervenções estéticas no rosto da Millie fez com que a personagem não tivesse expressões. E, pra uma protagonista, que depende da transmissão de emoções, não há como não mencionar esse fator.

Veredito
Eu acho um exagero tratar o final de Stranger Things como se fosse o novo Game of Thrones. Não é um final propriamente ruim, é apenas sem graça e convencional demais pra uma série que fez o seu nome por ser tão única. Mesmo que eu tenha saído desapontado com a conclusão e sua falta de resoluções, gostei do que vi no restante da 5ª temporada, com algumas ressalvas aqui e ali. Acho que, no final das contas, é a mais fraca das cinco devido a esses escorregões, mas ainda assim me prendeu e fez meu tempo valer a pena. E sei que vou sentir falta desta produção, que pra mim é um dos maiores fenômenos culturais dos últimos dez anos, se não for o maior. O desfecho poderia ter sido melhor, mas não tirou Stranger Things do meu Top 10 de séries favoritas da vida.

+ Melhor personagem: Holly Wheeler
Acreditem, eu estou tão surpreso quanto vocês. No Volume 1, o melhor pra mim foi o Will, mas ele não disse muito a que veio nos episódios seguintes. No Volume 2, cheguei a considerar colocar o Henry/Vecna neste posto, mas não gostei de como arremataram a sua história. Depois de pensar um pouco, percebi que a Holly foi a única regular do início ao fim da temporada. Ela já tinha vaga garantida na categoria de Maior Evolução, mas deu um salto ainda mais alto e faturou Melhor Personagem.

+ Melhor episódio: S05E04 (“Sorcerer”)
Temos aqui o momento mais empolgante de toda a série, e olha que as outras temporadas tiveram muitas cenas memoráveis.

+ Maior surpresa: Derek
Apesar do inchaço do elenco, Derek foi uma adição boa demais. É com sobras o personagem mais carismático da temporada.

+ Maior decepção: Eleven
Ela nunca foi a melhor personagem da série, apesar de ser protagonista, mas eu sempre gostei. Nesta temporada, soou como uma personagem secundária, com uma atriz que parecia entediada.

+ Mais subestimado: Mike Wheeler
Eu senti falta de ver como o Mike é importante pra série, algo que se perdeu sobretudo na 4ª temporada. Conseguiram recuperá-lo na 5ª.

FICHA TÉCNICA
Nome original: Stranger Things
Duração: 8 episódios
País: EUA
Showrunners: The Duffer Brothers
Direção: Matt Duffer, Ross Duffer, Frank Darabont, Shawn Levy
Elenco principal: Winona Ryder, David Harbour, Millie Bobby Brown, Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Noah Schnapp, Caleb McLaughlin, Sadie Sink, Jamie Campbell Bower
>> Crítica da 1ª Temporada de Stranger Things
>> Crítica da 2ª Temporada de Stranger Things
>> Crítica da 3ª Temporada de Stranger Things
>> Crítica da 4ª Temporada de Stranger Things
>> RevisitandoSéries – Stranger Things: 1ª a 4ª Temporadas
Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco
Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco
Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco
Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco
Nota nº 5: sabia que eu agora tenho um canal no YouTube? Não? Então corre lá pra ver, uai: Pitacos do Leleco
OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO
- Sacanagem trazerem a Kali de volta só pra morrer. Tipo assim, se a Eleven tivesse se sacrificado definitivamente, sem a série deixar em aberto se realmente morreu, acharia até válida a morte da Kali. Isso porque ela já teria cumprido o seu papel narrativo: convencer a Eleven a acabar com a “linhagem” do Henry. Mas nem pra isso serviu.
- A Max morrendo na 4ª temporada teria sido mais marcante, mas gostei de ela ter sobrevivido e conseguido ficar com o Lucas no final. Porém, confesso que me incomodou um pouquinho ela demorar tanto a fugir da mente do Vecna quando surgiu a oportunidade com a Holly. Pelo menos deu tudo certo.
- Vamos às oportunidades perdidas de se matar personagens pra sentirmos mais o peso da última temporada. Jonathan deveria ter morrido naquela sala depois de terminar com a Nancy. Karen Wheeler deveria ter morrido salvando a vida da filha. Steve deveria ter morrido caindo da torre. Nancy deveria ter morrido pelas garras do Devorador de Mentes. O Murray acho que poderia ter morrido também de alguma forma na hora de explodir o helicóptero. Will também poderia ter morrido na luta final com o Vecna, mas o bichinho sofreu tanto que entendo ter sobrevivido. E a Eleven TINHA que ter morrido 100%.
- Não sei por que falaram tão mal da cena em que o Will se assume pra galera. Pô, fez sentido no contexto daquele episódio. Ele precisava se aceitar pra se libertar do Vecna, e quer maneira melhor do que mostrar pra todo mundo que não tinha mais medo? Achei uma cena bonita. Só queria que ele tivesse um papel mais fundamental no fim, porque o momento em que ele mata os demogorgons com o poder do Vecna me deixou boquiaberto. Melhor cena da série inteira.
- E por falar em demogorgons, achei bem nada a ver não ter aparecido nenhum no Abismo. É sério que o Devorador de Mentes não tinha um único soldado por aquelas bandas? E pra mim ficou vago até demais o rolê do Devorador. Acho que demoraram muito pra voltar a aproveitá-lo, e a tentativa de “redenção” do Henry não me desceu nem um pouco.
- Gostei da Joyce arrancando a cabeça do Vecna. Achei que aquele recurso de mostrarem toda hora cenas antigas da série ficou um pouco chato, mas aquele momento foi legal.
- E os militares, hein? Eles simplesmente perdoaram o pessoal que matou dezenas de seus soldados e foram embora pacificamente de Hawkins? E o que aconteceu com o Dr. Owens?
- Coitada da Vickie, esqueceram dela no epílogo. Mas pior ainda foi a Suzie, que sumiu da face da terra e ninguém nunca mais se lembrou. Paia, porque ela cantando com o Dustin foi tão icônico. E sobre o Dustin, pra mim não fez sentido ele ser tão aplaudido na formatura, sendo que a cidade inteira o odiava por causa do Hellfire e ninguém sabe que o garoto ajudou a salvar o mundo, então tecnicamente geral ainda deveria ter um certo ranço com ele. De qualquer forma, gostei do arco do Dustin nesta temporada, com a sua superação do luto pelo Eddie.
- Ok, a última cena me agradou. A Holly chegando pra jogar D&D com os amigos e dando início a uma nova geração foi bem bonito de se ver. Achei um desfecho poético.
Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?