Séries

Fringe: 5ª Temporada (2012/13)

Fringe: 5ª Temporada
Fringe: 5ª Temporada

• Quebra de legado

Depois de concluir Fringe, percebi que foi uma série lançada no momento errado. Nós estamos vivendo uma época em que as plataformas de streaming estão muito em alta, e isso facilita o acesso das pessoas a obras que antes eram difíceis de assistir. Em 2012, a realidade não era essa. Para termos uma ideia, a Netflix, pioneira no ramo, lançou sua primeira série original apenas em 2013. Portanto, toda essa ideia de maratonar séries de televisão é bastante nova, mais do que a gente pensa. Aliado a isso, temos uma certa deficiência quando o assunto é ficção científica. A cada dia que passa, temos novas histórias de drama, comédia, investigação, ação, super-heróis, aventura e terror. Na minha opinião, o sci-fi é um gênero que ainda sofre com uma carência de títulos de qualidade. Fringe entra na categoria, mas ela chegou ao mercado cedo demais. Imagina se fosse lançada hoje, com todas as premissas originais e inovações da trama? Provavelmente, o cenário seria outro. É uma pena que não foi o que aconteceu.

 

Sinopse

Vinte e um anos se passaram. Na quarta temporada, tivemos um vislumbre de como seria o futuro: uma invasão por parte dos Observadores deixou toda a população mundial subjugada à vontade deles. Depois de salvar dois universos de uma iminente destruição, cabe aos membros mais ilustres da Divisão Fringe acabarem com mais uma ameaça. Congelados no âmbar durante décadas, Walter e Peter Bishop, Olivia Dunham e Astrid Farnsworth são trazidos de volta à realidade para servir a esse propósito. No passado, Walter havia desenvolvido um plano para derrotar os Observadores, mas precisou ser congelado para que não fosse capturado e estragasse tudo. Quando ele retornou à si, um problema veio à tona: ele não se lembrava do plano. Porém, está tudo detalhado em vídeos gravados pelo próprio cientista, e com isso o velho grupo anacrônico recorre à Etta, filha de Olivia e Peter, e seus aliados da Resistência, para tentar colocar as peças no lugar e instaurar a normalidade.

Quando seu grupo termina de apresentar e o professor vai dar a nota

Crítica

A princípio, eu não senti que estava assistindo a Fringe. Se você acha que isso é um mal sinal, não foi bem o que eu quis dizer. O estilo da narrativa foi totalmente alterado. Eu estava acostumado àquele ritmo de temporada com fillers, acontecimentos de lenta progressão e universos paralelos. A quinta temporada inicia quebrando vários desses paradigmas. Por ter menos episódios (apenas 13), os desdobramentos da história ocorrem de maneira mais rápida. Isso chegou a ser meio estranho, simplesmente porque não era usual na série. Ainda assim, foi uma novidade interessante. Indo direto ao ponto, o enredo não perde tempo com longas introduções, e estabelece seu foco desde os primeiros passos dos personagens. A ideia central era óbvia: buscar os itens necessários para derrotar os Observadores.

Eu comprei a proposta. Nos dois primeiros episódios, deixei-me levar pela velocidade da trama, porque busquei analisar as questões dos bastidores. Devido à audiência da época, a Fox decidiu cancelar a produção; não estava compensando continuar. Pra se ter uma ideia, a audiência da terceira temporada foi apenas a metade da primeira. Por se tratar de uma obra de ficção científica, Fringe demandava muitos recursos financeiros, então a conta não fechava. Pra encerrar a série com exatos 100 episódios, foi dado o sinal verde para que houvesse uma temporada de encerramento menor. Consequentemente, se J.J. Abrams e cia. tinham algum arco grande de encerramento, precisaram reduzi-lo para que coubesse em um espaço mais apertado.

Por conta desses fatores, eu tentei não julgar como defeito um ritmo menos cadenciado, contanto que culminasse em um bom final. E foi aí que começou o problema. Do terceiro episódio em diante, a história caiu em um ciclo tedioso de missões pontuais. Traçando um paralelo com jogos de videogame, é como se o enredo principal começasse a todo vapor, mas você fosse obrigado a completar diversas side quests só pra dar seguimento à trama. Fringe faz exatamente isso. Em vez de analisar a sua área condensada de possibilidades e agir de acordo com ela, a série acelera certos pontos e coloca outros em banho-maria. O pior disso tudo é que a temporada passa a ficar realmente decente a partir do nono episódio. Ainda há aquela sensação no ar de que aquilo não é o Fringe que a gente conhece, mas o roteiro consegue resgatar parte da sua identidade e reaplicar determinados conceitos que são basicamente a essência da obra. Tudo chega ao seu ápice no décimo primeiro capítulo, mas subitamente a série fica com preguiça de desenvolver alguns arcos e termina a história de um jeito extremamente corrido.

Agora que eu expliquei a incongruência e desnivelamento do ritmo dos acontecimentos, vamos às especificidades. A ameaça dos Observadores quebra todo o legado que a série construiu. Passamos quatro temporadas tendo como enfoque as consequências de atravessar para um universo paralelo, seja de modo rotineiro ou majoritário. Na temporada passada, com a destruição do plano divino de William Bell e a revitalização dos dois universos, não tinha mais pra onde fugir. A invasão dos Observadores pode soar incrível conceitualmente falando, mas na prática ela destrói um elemento crucial em Fringe. O que era tão legal nos Observadores? Bom, pra mim era o fato de que eles não faziam absolutamente nada, apenas observavam a História. Quando o September interveio no rumo das coisas, o peso de sua ação foi gigantesco justamente por ser uma quebra de protocolos. Quando a série colocou os Observadores para destruir tudo aquilo que tínhamos pensado sobre eles, enfraqueceu os personagens e os deixou mais mundanos, menos misteriosos.

Eu odeio essa mania que algumas obras de ficção têm de querer explicar o que não precisa ser explicado. Nós não precisávamos saber de onde os Observadores vieram, e não precisávamos que eles agissem ativamente no enredo. A mera presença deles em todos os episódios dava um charme sensacional à Fringe, e isso foi perdido na quinta temporada. Eu não vou negar que, quando descobri que os Observadores se tornariam hostis no futuro, fiquei um pouco animado. Mas, com a superexposição dos mesmos, eu parei de me interessar ativamente por eles. Os Observadores enigmáticos, que nunca deixavam claro de que lado estavam, transformaram-se em vilões genéricos com motivações nada originais.

A mística quebrada pode parecer bobeira minha, mas realmente afetou o modo como enxerguei os antagonistas da temporada. Além disso, o vilão principal, Windmark, é até bom, mas chegou aos 45 do segundo tempo pra ser o inimigo derradeiro dos nossos heróis. Se era pra colocar um dos Observadores como vilão, que fosse pelo menos um rosto conhecido. E isso me puxou um outro raciocínio, retomando a ideia de legado perdido. De que serviu todas as quatro temporadas anteriores? O que adiantou todo mundo suar e trabalhar intensamente pra salvar os dois universos, apenas para que um deles fosse invadido e dominado por seres bem mais evoluídos? Ao tentar renovar suas ambientações, Fringe acabou por traí-las.

A impressão que ficou é de que a série errou em seu planejamento. Embora eu fosse contra a ideia de os Observadores serem os vilões, ela poderia ter funcionado se Fringe tivesse se esforçado para se conectar mais astutamente com as temporadas anteriores. Fazendo isso, bastava ajustar os altos e baixos entre os episódios. O começo e o fim foram excessivamente acelerados, e o miolo foi exageradamente lento. Não bastava equilibrar as duas coisas? Por essas e outras, a incursão final de uma das melhores séries de sci-fi de todos os tempos não fez jus a tudo aquilo que tinha sido criado por ela mesma.

Os sósias do Vin Diesel se encarando no Pânico

Veredito

Eu tinha grandes expectativas pro fim de Fringe, mas acabei ficando decepcionado. A conclusão não foi ruim no sentido mais visceral da palavra, pois não foi uma única decisão que a tornou assim. O problema do final esteve no conjunto, o qual ficou parecendo mais um epílogo ou um spin-off do que o final de algo relevante. Ficou nítida a importância de se encontrar o equilíbrio entre uma trama acelerada e lenta demais, e a temporada não conseguiu fazer isso com sucesso. A premissa poderia ter dado certo se bem elaborada, mas ficou a sensação de que muito da mitologia que a série criou foi desperdiçada. Nem tudo foi trágico, é claro. Certos pontos do enredo criaram situações instigantes, e por algum tempo a obra conseguiu recuperar os elementos que a tornaram tão apaixonante. Infelizmente, a irregularidade afetou o processo, e o desfecho atrapalhado e apressado não fechou com chave de ouro a trajetória das Fronteiras. Nota final: 2,8/5.

Os Vingadores de J.J. Abrams

 

>> Crítica da 1ª Temporada de Fringe

>> Crítica da 2ª Temporada de Fringe

>> Crítica da 3ª Temporada de Fringe

>> Crítica da 4ª Temporada de Fringe

 

Nota: caso eu tenha usado algum termo desconhecido para vocês, meus queridos e queridas leitoras, não hesitem em acessar esse post aqui, ó: Glossário do Leleco

Nota nº 2: quer conhecer melhor a história do blog e os critérios utilizados? Seus problemas acabaram!! É fácil, só acessar esse link: Wiki do Leleco

Nota nº 3: bateu aquela curiosidade de saber qual exatamente é a nota das temporadas, sem arredondamentos? Se sim, dá uma olhada aqui nesse link. Se não, pode dar uma olhada também: Gabarito do Leleco

Nota nº 4: pra saber sobre quais séries e temporadas eu já fiz críticas no blog, é só clicar aqui: Guia do Leleco

 

~ OBSERVAÇÕES SPOILENTAS: NÃO LEIA A NÃO SER QUE JÁ TENHA VISTO A TEMPORADA INTEIRA. O AVISO ESTÁ DADO ~

 

  • Dúvida, Fé, Raiva, Ferimento, Luta, Separar, Confiança, Juramento, Culpa, Sentido, Graça, Amado, Fim. Os últimos glifos de Fringe pra vocês.
  • Como esta temporada não teve fillers, ainda que aquelas missões de buscar itens pro plano do Walter fossem algo do tipo, não vou fazer uma recapitulação como fiz nas temporadas anteriores. Em vez disso, vou seguir o cronograma normal das Observações Spoilentas. Vamos lá. Gostaria que a história tivesse dado um panorama melhor do futuro distópico. Fiquei totalmente perdido naquela treta entre Legalistas, rebeldes, Ciganos do Âmbar, teria sido legal dar mais profundidade ao cenário.
  • O rolê de envelhecer aquele Legalista foi porreta por parte da Etta. Uma coisa que não aconteceria em uma temporada normal foi a Etta voltando atrás em sua decisão por influência da benevolência da Olivia. Em uma temporada normal, a Etta teria entregado o cara para os rebeldes e aquilo teria dado um longo embate com a Olivia, seguindo o clichê. Gostei disso.
  • Markham usando a Olivia-no-âmbar como mesa foi um pouco creepy. Ok, não foi um pouco, foi MUITO.
  • Cara, eu jamais esperaria a morte da Etta, sério. Se a Olivia, o Walter, o Peter ou a Astrid tivessem morrido, eu não teria me surpreendido tanto, mas jurava que fossem manter a Etta viva como herdeira do casal principal. Achei a morte dela um pouco sem brilho, mas foi uma decisão corajosa da série. Não digo que não fiquei triste e tampouco feliz, porque não deu muito tempo pra criar uma noção grande da personagem. E o possível namoradinho Legalista dela nem foi mais abordado, né? Se é que tinha alguma coisa rolando ali mesmo.
  • O negócio de utilizarem casos antigos de Fringe como armas foi genial, mas é uma pena que fizeram de forma superficial. Se usassem isso ao longo de toda a temporada, eu tiraria o chapéu pela criatividade, e seria fornecido um peso especial pros fillers das outras temporadas. Pelo menos no último episódio colocaram o Peter e a Olivia atacando geral com várias armas da Fringe Division, isso foi legal.
  • Peter virou Observador depois de torturar um deles e pegar o chip da besta da sua nuca. A ironia é que ele foi o melhor Observador depois do September. Seus tiques foram muito bons, e amei ele matando um monte deles.
  • Se não tivesse havido aquele futuro no qual a Olivia morre e o Peter fala pro Walter construir a máquina, esse futuro no qual a série está não seria possível, certo? Então, podemos trabalhar com a ideia de múltiplas linhas do tempo e múltiplos universos?
  • Acho massa como o Walter na verdade não idolatra o Bell, mas sim sente rancor. Ele só o idolatra porque tirou pedaços do cérebro, e isso ficou mais do que claro. E massa que a Nina e o Bell se amavam, mas acho que a série explorou isso mal ao longo das temporadas
  • Uma das minhas maiores frustrações é quanto à Astrid. Por que ela nunca ganhou destaque? É uma das personagens mais importantes, e não sabemos quase nada sobre seu passado, sua família, seus relacionamentos. Um baita desrespeito.
  • Gostei de terem feito o Sam Weiss morrer se sacrificando contra os Observadores, foi uma conexão legal com as outras temporadas.
  • R.I.P. Nina Sharp :/
  • O episódio 12 colocou um panorama legal pro final, mas o último foi uma bosta. O December morreu sem ter tido absolutamente nenhuma função (sério, nenhuma), o September morreu aos 48 minutos do segundo tempo só pro Walter fazer o sacrifício decisivo, a Olivia desligou a energia da cidade inteira só pra arremessar um carro no Windmark, a história rebootou a partir de 2015 por alguma razão e a conclusão não durou nem um minuto, com o Peter olhando pra tulipa branca, confuso. Faltou falar da Astrid, do Broyles (que estava parecendo um reptiliano com aquela maquiagem horrível), das consequências de se ter alterado a linha temporal, o Walternativo e a galera do lado de lá, se a mudança na linha do tempo afetou Olivia e Lee e se o Charlie voltou à vida, taaaantas coisas que aconteceram desde o momento em que o September alterou tudo lá atrás. É uma pena.
  • E o Michael, não chegaram a explicar por que ele saiu do monotrilho e deixou ser capturado pelos Observadores. Não entendi o sentido daquilo. E outra, quem era o cientista norueguês que teve a ideia dos Observadores? Era só alguém aleatório do futuro mesmo?
  • Achei legal a cena do Walter caminhando com o Observadorinho ao lado rumo a um portal, da mesma forma que caminhou com o Peter tanto tempo antes. Mas o momento não teve o brilho que merecia, é a verdade.
  • Sobre as consequências de se ter excluído os Observadores da História, não entendi a falta de destaque pros desdobramentos disso. Vamos recapitular. Sem os Observadores, o September nunca teria atrapalhado o Walternativo a encontrar a cura pro Peter, e ele teria sido salvo. Com isso, o Walter não teria atravessado pro outro universo, e nunca teria ido pro asilo e conhecido Olivia, Astrid e Broyles. Portanto, não faz sentido excluir os Observadores do universo e a História ser apagada somente a partir de 2015. A única coisa que faz sentido pra mim é que o September ter atrapalhado o Walternativo nem foi lá essas coisas, pois de qualquer forma o Walter teria atravessado pro outro universo e “roubado” o Peter. Entretanto, se formos seguir essa linha de raciocínio, a intervenção do September perde todo o peso, sobretudo porque todos os outros Observadores ficaram com raiva dele por causa disso. A teoria que eu tinha pensado é de que, ao alterar uma linha do tempo, você automaticamente cria outra. Com isso, o Walter teria ficado com o Michael em um futuro no qual os Observadores existiram, enquanto Olivia, Peter e o restante do pessoal ficariam em um presente no qual os Observadores nunca existiram. Assim, o paradoxo não existiria, porque uma linha do tempo a mais possibilitaria que realidades diferentes existissem. Eu já estava convencido disso, mas continua não fazendo sentido a História ter sido reiniciada apenas a partir de 2015. Eu não sei de mais nada, e acho melhor nem continuar tentando achar uma resposta. Caso contrário, provavelmente farei companhia ao Walter Bishop no hospício.

 

~ FIM DAS OBSERVAÇÕES SPOILENTAS. A PARTIR DAQUI PODE FICAR DE BOA SE VOCÊ AINDA NÃO VIU ~

 

+ Melhor personagem: Walter Bishop
Ninguém brilhou de verdade como aconteceu nas temporadas anteriores, mas Walter foi quem teve seus dilemas melhor trabalhados.

Waltão no Mundo Invertido

+ Melhor episódio: S05E11 (“The Boy Must Live”)
Embora contenha uma decisão específica do roteiro que eu não gostei, foi o ponto alto da temporada.

Os patrões

+ Maior decepção: Olivia Dunham
É com muito pesar que eu escrevo isto aqui. Poxa, a Olivia era pra ser a protagonista perspicaz, habilidosa e competente. Na quinta temporada, ela ficou de lado durante a maior parte do tempo e, quando apareceu com contundência, nem foi lá grandes coisas. Anna Torv totalmente desperdiçada.

A expressão de desagrado pelas escolhas dos roteiristas

 

Ei, você! Tudo joia? Pois é, eu também tô bem. E já que agora temos intimidade, comenta aí o que cê achou da temporada. Opiniões são sempre bem-vindas, e é importante lembrar que nos comentários spoilers estão liberados. Se você não quiser vê-los, corre logo pra assistir e depois volte aqui, beleza?