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ArtigosdoLeleco #15 – Personagens bondosos estão em extinção?

artigo personagens bondosos

• Ambiguidade moral

Antes de assistir ao novo filme da atual trilogia Knives Out, Vivo ou Morto, eu revisitei Entre Facas e Segredos Glass Onion. Eu já havia percebido um elemento comum entre eles, que renderia um artigo, mas sempre ficava enrolando pra escrever. Após ver o terceiro capítulo da saga, me inspirei a elaborar melhor sobre como personagens bondosos estão em extinção no cinema, em como eles abraçam os mesmos estereótipos quando são utilizados e em como as figuras do anti-herói e do vilão humanizado ganharam força.

 

O bem e o mal (e tudo aquilo que existe no meio)

Antigamente, as histórias eram contadas a partir de um ponto de vista direto e unidimensional. Em fábulas como Branca de Neve e A Bela Adormecida, temos arquétipos muito claros da protagonista pura e boa de coração, versus uma antagonista brutal e maldosa. Essa estrutura se perpetuou durante a maior parte do século XX, desde faroeste até filmes de ação, passando por aventuras e até mesmo comédias. Isso era especialmente comum na ação e no gênero de super-heróis – não necessariamente de Marvel e DC -, em que o mocinho precisava derrotar o vilão. É claro que algumas obras fugiam disso, mas em geral era o padrão.

Com o passar do tempo, esse maniqueísmo deu lugar a tramas cruzadas de heroísmo e vilania, bondade e maldade. Aos poucos, personagens 100% alguma coisa pararam de fazer o mesmo sucesso. Não é à toa que começamos a ver o Batman lutando contra o Superman e o Capitão América brigando com o Homem de Ferro. Nas séries, personagens como Walter White, Jax Teller e Thomas Shelby passaram a ser idolatrados (especialmente pela população masculina), porque o protagonista bonzinho estava saindo de moda, dando lugar a alguém que pode até ter atitudes pontualmente boas, mas que abusa de decisões no mínimo questionáveis.

O público passou a procurar mais essa desconstrução do heroísmo, por se tratar de algo mais humano, em que não havia mais espaço para idealismo. Ao mesmo tempo, a descontrução da vilania também ganhou força. É o caso de Coringa, Aves de RapinaDoutor Estranho no Multiverso da Loucura, isso só pra citar o gênero de super-heróis. Nos filmes de ação, John Wick e Robert McCall substituíram nomes como John McClane e Ethan Hunt. Não quero encher esse texto de dezenas de exemplos pra elaborar melhor meu ponto, então vamos em frente.

Após essa desconstrução de heroísmo – e vilania, embora seja mais fácil fazer um vilão 100% mau do que um herói 100% bom -, a minha impressão é de que a roda já girou novamente e podemos estar passando por um processo de retorno às origens. No gênero de super-heróis, tivemos recentemente Superman, que trouxe um Clark Kent bem mais honroso, digamos assim. A era de heróis “sombrios” parece estar passando por um período de ruptura, mas é claro que pode ser só impressão.

Briga, briga, briga, briga

A bondade em Knives Out

Eu gosto muito de personagens moralmente ambíguos. Um dos principais motivos de eu amar tanto os livros de As Crônicas de Gelo e Fogo, que deram origem a Game of Thrones, é o fato de quase todo mundo ter tons de cinza em sua personalidade; afinal de contas, não existe nenhum ser humano que seja 100% bom ou mau, pelo menos na minha opinião. No entanto, confesso que eu sinto falta de personagens que abraçam o bem ou o mal de maneira mais aprofundada, e isso me encantou demais na trilogia Knives Out, que eu citei na introdução deste texto.

Todos os “heróis” de Knives Out até aqui compartilham da mesma bondade. Em Entre Facas e Segredos, Marta Cabrera é uma enfermeira que não consegue ser dobrada por uma família gananciosa, justamente por ter um coração bom e a cabeça no lugar. Em Glass Onion, Helen Brand é uma pessoa simples, mas determinada e dedicada a vingar uma morte, não com outra morte, mas com a responsabilização do culpado. Em Vivo ou Morto, o Padre Jud possui um passado trágico, mas buscou a redenção e, mesmo desajeitado, fez tudo pra solucionar o caso do assassinato de um homem que ele mesmo desprezava.

Eu acho que esses filmes deixam um recado bastante poderoso. Em todos os três, a história é recheada de personagens cínicos, mas quem se dá bem não são eles, mas sim quem optou por um caminho diferente. Sim, eu entendo que isso pode ser interpretado como ingenuidade, mas é bonito como a narrativa consegue trabalhar tal questão de maneira natural e forte.

Inclusive, desviando um pouco do assunto só pra concluir este parágrafo, eu escrevi a minha resenha de Vivo ou Morto logo após ter assistido pela primeira vez. Pois então, eu assisti de novo dois dias depois e ele me pegou bem mais, a ponto de se tornar um dos meus filmes favoritos de 2025. Eu até mencionei na crítica que possivelmente ele era só um pouco melhor do que Glass Onion, mas na verdade é muito melhor. Ainda não chega ao nível de Entre Facas e Segredos, só que a distância não era tão grande quanto eu pensava.

O bem vencendo

O bom é estúpido, o mal é esperto

Na última seção deste texto, queria apenas expor um outro problema envolvendo o assunto. Quando eu falei de estereótipos lá em cima, o que eu quis dizer foi o seguinte: já repararam que comumente a bondade é representada como estupidez, e a maldade, como esperteza? Eu perdi as contas de quantos filmes e séries eu assisti em que o herói precisa ser burro pra história poder andar, principalmente no terror. E, mesmo quando ele tem um mínimo de inteligência, a sagacidade do vilão é 1000x maior e isso resulta em tramas que, pra mim, ficam sem graça.

Eu gosto quando as duas partes estão em pé de igualdade. Vamos citar Batman como exemplo. O Homem-Morcego é o Maior Detetive do Mundo™, mas é passado pra trás pelo Charada. O fato do Batman ser extremamente inteligente e mesmo assim ser derrotado pelo vilão fortalece os dois lados, sem precisar cair em facilidades narrativas. Pra ninguém dizer que eu só falo de filmes de ação ou de super-heróis, cito aqui o ótimo Prenda-me Se For Capaz ou até Se7en, em que os duelos de intelectos são mais interessantes do que se fossem unilaterais.

Talvez este artigo tenha ficado um pouco mais disperso do que eu planejava inicialmente, mas o meu ponto é: personagens bem escritos são uma arte. Seja ele bom, mau, dúbio, um pouco de cada… isso tá cada vez mais em falta na indústria. Existe espaço pras duas abordagens, de personagens bons e maus, ou moralmente ambíguos. O problema é quando uma das duas coisas vira moda, tornando o cinema e a televisão cansativos. E todos nós sabemos o quanto Hollywood, em especial, adora cair na zona de conforto e apostar em mais do mesmo. Mas isso é assunto pra outro texto.

Entre a razão e a emoção

 

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Luiz Felipe Mendes
Criador do Pitacos do Leleco e crítico de máxima autoridade (sem exageros, é claro)

Publicado por Luiz Felipe Mendes

Fundador do blog Pitacos do Leleco e referência internacional no mundo do entretenimento (com alguns poucos exageros, é claro).